Torcedor ir ao CT cobrar atleta não é “cultural”



Imagine a cena: você é funcionário de uma fábrica qualquer e está no seu escritório, linha de montagem, aboratório… seja lá o que for. De repende entra no local três ou quatro consumidores que foram convocados pelo presidente da empresa para “bater um papo” com você.

Em um clima dito cordial eles cobram melhor desempenho seu. Você tem noção do quanto se dedica a seu trabalho, mas é como se fosse necessário que alguém de fora avaliasse e cobrasse.

Foi mais ou menos isso o que aconteceu no Corinthians nos últimos dias. A diferença desta vez foi que a conversa contou não só com a “boa vontade” da diretoria, mas também com o incentivo. Pelo menos foi o que disse o presidente corintiano Roberto de Andrade, quinta-feira, após a vitória do Timão contra a Ponte Preta na Arena Itaquera.

– A diretoria convocou que eles fossem lá pra conversar e não foi nada demais. Cada um tem uma postura, diálogo cabe em qualquer lugar. Vão falar que gera violência. Não é nenhum efeito a favor ou contra, a torcida faz parte do futebol. Vontade de conversar, só isso. Eu chamei três ou quatro pessoas da torcida. Não é a primeira vez e não será a última, disse o mandatário.

Segunda-feira, dias depois da “conversa”, o diretor-adjunto de futebol do Corinthians, Eduardo Ferreira, também deu sua opinião sobre o assunto.

– Reunião aconteceu dentro de uma sala com integrantes da torcida. Uma reunião muito positiva, vieram dar mensagem para o grupo. Tinha seis atletas. Deram mensagem de apoio, uma coisa muito produtiva em termos não de cobrança como foi ventilado. Tem pessoas que acham certo ou errado. É uma cultura do clube, isso existe há 30, 40 anos, falou.

Não faz muito tempo, integrantes de organizadas do clube invadiram o CT Joaquim Grava, ameaçaram jogadores e tocaram o terror lá dentro. Nada foi registrado porque as câmeras de segurança não gravaram a ação.

Claro que entre uma conversa e uma ameaça há uma distância. Mas claro também que quando a diretoria entende que este contato torcida-jogador em conversas privadas dentro do ambiente de trabalho é “cultural”, não espanta os funcionários do clube se sentirem no mínimo desconfortáveis.

Tite normalmente não bate de frente, polido que é. Mas antes da partida contra a Ponte Preta declarou: “aqui não tem vagabundo”. O que será que ele quis dizer?

O corintiano costuma dizer que o Corinthians não é um clube que tem uma torcida, mas uma torcida que tem um clube. Tem sentido, na medida em que o maior símbolo desta agremiação é sua gente.

Mas como em toda relação é necessário se estabelecer os limites. O lugar que deveria ser da torcida é a arquibancada, onde ela sabe fazer como poucas o seu papel. O CT do clube deveria ser restrito a jogadores e comissão técnica. Nem cartolas deveriam estar lá todo o tempo.

Misturar os espaços é dar margem para que a torcida se sinta legitimada a tomar atitudes que não tem direito. Esta não é uma questão cultural.

Uma última pergunta: qual o critério estabelecido pelo presidente do clube para escolher a turma que teve o direito de falar om os jogadores?



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