Sambando em casa



A cena chega a ser curiosa e todo mundo conhece. O turista japonês, da Escandinávia, da América do Norte ou de qualquer lugar que não seja tropical vem ao Brasil e se apaixona pelo samba e pela caipirinha.

Uma dose, outra dose, bochechas vermelhas e o sujeito se arrisca a dançar o ritmo contagiante que rola na balada. Raramente funciona. Como se não houvesse nenhuma ligação da batida com a dança ou como se fosse uma imitação de robô, o momento rende alguma curiosidade e algumas risadas.

É o exemplo típico de duas coisas que dificilmente combinam. Um brasileiro comum praticando algo típico de outra cultura muitas vezes resulta na mesma coisa.

Ano após ano, a Libertadores apresenta uma situação parecida, em que duas coisas simplesmente não batem. No caso do Brasil, um determinado tipo de jogo com a maioria dos times daqui.

É preciso fazer um esforço para não utilizar a expressão “espírito de Libertadores”. Desgastada e muito mal utilizada, ela não se aplica ao que aconteceu quarta-feira em Itaquera. Muito se falou que o Nacional do Uruguai entrou em campo com o tal espírito. Entendo que entrou em campo jogando um jogo que eles e os argentinos sabem fazer muito melhor do que os times brasileiros.

Também não dá para utilizar a surrada palavra “catimba”. O que aconteceu foi outra coisa. O Nacional entrou em campo em um estádio tomado por fanáticos que gritaram e empurraram o time da casa o tempo todo. Um amigo que estava lá me mandou uma mensagem no celular: “Nunca vi um grito de torcida tão ensurdecedor”.

Mas o barulho certamente impressionou mais meu amigo do que os onze sujeitos de camisa vermelha. Eles estavam no gramado como se estivessem nas Ramblas de Montevidéu tomando um chimarrão. E souberam levar o jogo por tal caminho que os corintianos pareciam um estrangeiro tentando sambar.

O Nacional nunca se preocupou em gastar o tempo com a bola no pé. Pelo contrário, passou o jogo esticando bolas longas, na esperança de achar uma brecha na zaga corintiana. E por muitas vezes conseguiu.

Até mesmo o tenso corredor entre os vestiários e o campo se transformou em um território estrangeiro. Foi ali que os uruguaios provocaram os corintianos (há relatos de que foram insultos racistas, o que é no mínimo repugnante) no intervalo, o que quase provocou uma briga.

Andrá dava uma entrevista na boca do túnel quando levou uma ombrada de um rival que entrava em campo. Nada disso tem a ver com coragem, macheza ou o tal “espírito de Libertadores” . É uma forma de se sentir confiante dentro de um território que deveria ser no mínimo incômodo.

O Nacional fez o seu gol, levou o empate, fez o segundo, cedeu dois pênaltis para o Corinthians e ainda assim saiu de Itaquera com a classificação na bagagem. Se alguém fazia as coisas com naturalidade ali era o time uruguaio. O Corinthians tentava, tentava… Mas nos momentos finais nem mesmo se parecia com o estrangeiro sambista. Este, ao menos está se divertindo.



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