Foi Telê quem me ensinou



Nesta quinta-feira foi aniversário de dez anos da morte de Telê Santana. Não sei se por causa daquelas coincidências que a vida às vezes nos apresenta, ele morreu no dia 21 de abril, data simbólica importante da história do Brasil.

Eu tive a sorte de conviver com o treinador nos seus tempos de São Paulo. Tive a sorte de ser repórter setorista quando o clube formou um dos maiores times de sua história e do futebol brasileiro. Telê já era um treinador veterano e eu, um “foca” na época. No jargão jornalístico, o repórter novato, que ainda não tem as manhas das coberturas, das fontes, do ambiente no clube.

Em um dia de folga do elenco profissional do São Paulo, eu estava na redação do jornal “Notícias Populares” meio de bobeira. Meu editor, Paulo Cesar Martin, me provocou: “Vá ao CT, o Telê mora lá. Faça uma entrevista com ele, volte com alguma coisa diferente.” O Paulão raramente errava seus tiros. E você vai saber o motivo daqui a pouco.

Cheguei ao CT da Barra Funda, entrei em um local absolutamente vazio e, sinceramente, sem nenhuma esperança de conseguir alguma coisa. Não havia nenhum outro jornalista lá. Mas em um dos campos um jogo acontecia. Fui me aproximando e vi que eram os juniores em ação fazendo um coletivo. Havia uma única pessoa assistindo àquilo, sentado em um degrau: Telê Santana.

Não me recordo qual foi a minha abordagem, mas lembro que o Telê, do meu lado, começou a conversar como se eu fosse um amigo. E me contou que adorava pegar o carro (um Mercedes antigo que ele tinha há anos) e dirigir sem destino. Me contou sobre sorvete de queijo, falou do time do São Paulo, que na época caminhava para sua primeira conquista da Libertadores, da Copa de 82, do Fluminense, do Castilho, da sua churrascaria preferida na cidade e do tipo de praga que estragava a grama do CT (e que ele tirava com a mão todos os dias antes dos treinamentos).

Provavelmente, a reportagem que escrevi e que foi publicada foi muito pior do que a conversa. E, pra falar a verdade, nem me lembro o que o Paulão achou dela e nem da repercussão. É claro que os tempos eram outros e provavelmente esta abertura não aconteceria hoje com nenhum treinador. Mas o fato é que Telê conversou com um foca do “NP” como ele poderia falar com o repórter da “TV Globo”, da “Folha”, do “Estadão”, do “Jornal da Tarde”… Talvez ele tenha se surpreendido com um moleque cabeludo (sim, naquela época eu tinha cabelo) que gostou de ouvir sobre viagens sem rumo, sorvete de queijo e churrascaria.

O homem de Itabirito nunca soube disso, mas esta conversa me tirou o medo que todo foca tem. Qualquer outra entrevista ou abordagem profissional que fiz na vida foi mais fácil a partir dali.

Telê era um sujeito que trabalhava seus jogadores como se esculpisse uma pedra. Ensinou Cafu a cruzar graças a sessões de treinamentos infinitos. Transformou Ronaldão em um zagueiro seguro que aprendeu a rebater com as duas pernas e ser muito bom pelo alto. Ajudou a fazer de Raí um dos maiores da história do São Paulo. E ajudou este jornalista comum a ser menos retraído diante de seus entrevistados.



  • Kenji Fukuda

    Tironi,
    Ao assistir os seus comentários no batebola, qdo fala da arena corinthians, e vem vc com a historinha já manjada de molhar somente um lado do campo(campo do adversário), O QUE NÃO CORRESPONDE A VERDADE, pois quem vai aos estádios, já sabe, que para conservar o gramado, ele precisa ser molhado, muito mais do que os gramados comuns daqui do Brasil, pela qualidade de ser um gramado de inverno europeu, dai ser de conservação muito diferenciada dos restos…qual a sua dor de cotovelo a respeito, eim?????

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