Ninguém liga para mais um morto



Antes de Palmeiras x Corinthians houve um minuto de silêncio. Homenagem ao jornalista Sandro Vaia e a um subtenente da PM. Jogadores se colocaram em volta do círculo central abraçados, abaixaram a cabeça e esperaram o apito do árbitro.

Com todo o respeito aos que se foram, daria na mesma se fosse em homenagem ao Darth Vader, Luke Skywalker , Macunaíma ou Capitu. Ninguém ali estava muito aí para isso, lamentavelmente.

Como não estava para o sujeito que morreu em mais um confronto de torcidas, que aconteceu horas antes do derby em uma estação de trem. Até o fim do domingo nem nome ele tinha porque, segundo a polícia, estava sem documentos quando levou um tiro fatal.

Mas o fato é que, enquanto o minuto de silêncio acontecia, as torcidas seguiam com seus gritos ensaiados.

Que se dane o minuto de silêncio, que se dane o cara que morreu com um tiro porque estava no meio de uma briga que ele não tinha nada a ver . Que se dane até o fato de que algum daqueles sujeitos possivelmente brigou lá fora antes de entrar no estádio. Que role a bola. Esta é a regra.

O desrespeito ao minuto de silêncio seja para quem for simboliza muito do sentimento geral quando morre alguém vítima de brigas de torcida. Não emociona mais ninguém, a não ser as pessoas próximas à vítima.

Quando ocorre um jogo que envolve grandes torcidas, já está na conta que alguém vai morrer. Se não for alguém que você conhece, que o jogo aconteça logo, porque o calendário é apertado e não dá pra perder datas por “qualquer coisinha”.

A sensação de que ninguém vai ser punido é cruel. Tira o poder de indignação das pessoas. E um sujeito passar na rua numa estação de trem ou metrô na hora em que uma briga de torcida está acontecendo se transforma em um dia de azar, nada muito mais do que isso.

Se você olhar uma foto tirada há um mês com brigões detidos pela polícia e ouvir que ela foi tirada neste domingo, provavelmente vai acreditar. Estas imagens, sempre muito parecidas (se puder, veja as dos sujeitos pegos do fim de semana), fazem parte do roteiro de um clássico. Quem ainda liga pra elas?

Tudo está ficando perigosamente previsível. Briga no metrô, no trem, emboscada, gente que morre. Só falta afastar o cadáver para não atrapalhar o jogo. Por fim, você provavelmente chegou ao fim deste texto esperando encontrar algo sobre o jogo dentro de campo. Foi 1 a 0 para o Palmeiras.



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