Invasão para cobrar profissionais



Era uma manhã de sol. Na quadra da torcida organizada alguns diretores conversavam, debatiam os gritos que seriam dados nos próximos jogos, qual mosaico seria criado, quais bandeirões seriam levados e também se no estádio estava liberado o uso de instrumentos.

– E os ônibus? Tá tudo certo? perguntou um figurão.

– 30 ônibus já contratados, tudo fechado.

– Ótimo! Vamos com vontade que o time está precisando de apoio!

Aí que a rotina foi quebrada no barracão. No fim da rua um grupo uniformizado de cerca de 25 pessoas apontou. Se aproximou e chegou na entrada falando com o porteiro.

– Queremos falar com o presidente. Papo reto, sem violência.

O porteiro ficou sem ação. Afinal, não era um grupo de torcedores rivais. Aliás, todos estavam vestidos com o agasalho oficial do clube. E na verdade, todos eram bem conhecidos da torcida.

– O Zé! Chega aí que tem uma parada aqui pra resolver urgente! gritou o porteiro.

– To ocupado aqui, mano. Desenrola aí!

– É serio, Zé. Chega aí! Urgente!

O Zé largou o que estava fazendo, chamou mais uns três parceiros e foi até a entrada da quadra. E viu uma cena inesquecível. O elenco do time estava lá. Antes de o Zé conseguir reagir, o capitão se antecipou:

– Viemos falar com vocês. Papo reto, sem violência. Na moral.

– C-Claro, pode entrar… quer uma cerveja?

– Cerveja não, porque senão você vai gritar na arquibancada que a gente é pinguço.

O capitão do time prosseguiu:

– O papo aqui é o seguinte. O time está insatisfeito com o trabalho de vocês. No último jogo a torcida adversária, em muito menor número, cantou muito mais alto. Engoliram vocês! Assim não dá! Aqui é ***, porra! (**** Qualquer clube grande do Brasil). E tem mais! Aquele último grito que vocês cantaram não rima. Não dá mais, tira fora.

Um outro jogador completou:

– Tem mais uma coisa. Aquele mosaico saiu tudo errado. Foi uma vergonha. O 19 do 19** (** qualquer ano que qualquer time tenha conquistado um título importante) nem aparecia direito. Parecia escrito em chinês. Fomos zuados no Facebook, no twitter… até no Insta… Chamaram de analfabeto e o car… Acha que é fácil sair com a família pra jantar e ter que ouvir torcedor rival zoar com a sua cara? Ouvir que torcida cabe na Kombi, que é modinha…”

O capitão voltou à carga:

– Tá faltando alguma coisa pra vocês? O ingresso não tá pingando todo jogo pra vocês entrarem de graça? Os ônibus não estão tudo certinho pra levar vocês para os jogos? Então tem que fazer a sua parte! Gritar mais que o rival, fazer mosaico decente, batucar no ritmo… Não vou nem falar do último desfile de carnaval, pra não ficar pior pra vocês…”

Até entender o que estava acontecendo, o Zé demorou um tempo. Mas depois respondeu, meio gaguejando.

– T-Tá certo, mano. Tâmo junto. Vou dar um aperto na rapaziada aqui. E pode contar com nóis.

Virou para dentro da quadra e gritou:

– Aê, Jão! Vê se pinta direito essa bandeira aí! E quero ver o mosaico montado aqui no hão antes do jogo. Vâmo trabalhar, porra!



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