Futebol é negócio, mas ainda é paixão



Minha primeira lembrança de um restaurante é de uma churrascaria que ficava perto da casa em que eu morava com meus pais. Eu adorava. Os espetos vinham enfiados em um suporte de madeira. Havia uma salada de escarola com bacon espetacular, devidamente servida em uma bacia de plástico (!?!?). Como de plástico também era a jarra que vinha a limonada de limão rosa feita com água com gás (uma espécie de refrigerante natural, vamos dizer).

A ponta de costela e o o gigantesco filé à parmegiana eram as melhores pedidas. Tudo isso em um ambiente simples e rústico. Eu adorava tudo aquilo.

Quase quarenta anos se passaram e o restaurante ainda resiste. E não tem cara de que vá fechar nos próximos anos, afinal está sempre cheio, sobretudo nos finais de semana. Mas com algumas diferenças: o suporte de madeira dos espetos foi substituído pelo garçom que deixa a carne na cozinha e traz quando o cliente pede. A bacia de plástico da salada virou um recipiente de aço inox lustro, bem como a jarra de plástico da limonada. O filé à parmegiana ganhou companheiros mais modernos, como o “bife de ojo” argentino. E o preço acompanhou todas estas novidades subindo consideravelmente. Tudo continua ótimo. Só não é mais aquele restaurante preferido da minha infância.

Esta semana, o futebol inglês foi balançado pelo protesto da torcida do Liverpool, inconformada com o aumento do preços dos ingressos do clube na próxima temporada da Premier League. Na partida contra o Sunderland boa parte dos espectadores em Anfield saiu do estádio com 30 minutos do segundo tempo em protesto. Nas ruas da cidade e nas arquibancadas, faixas contra os novos preços. A diretoria acabou voltando atrás em sua decisão.

Não só no Brasil, mas também em boa parte do mundo, o futebol vive dias parecidos com a da churrascaria citada lá em cima. Ele guarda memórias de infância e de um período diferente, mais inocente, mas tem de se adaptar aos novos tempos, à concorrência feroz. Os clubes de futebol que nada mais eram do que uma reunião de pessoas em volta de uma paixão comum se transformaram em empresas bilionárias. Não basta jogar bola. Estamos falando de business.

Há quem aceite este novo status com a frieza empresarial. A revista “The Economist” desta semana traz reportagem defendendo o aumento de preços dos ingressos, justificando exatamente isso: os clubes são empresas. E a publicação mostra como o Liverpool está atrás de alguns de seus principais rivais como Chelsea, Manchester United e Arsenal na arrecadação com venda de ingressos.

O problema é que esta visão tão racional não é tão simples de ser engolida pelos torcedores embebidos de enorme carga afetiva. Sobretudo os torcedores do Liverpool, clube formado pela classe trabalhadora da Inglaterra. (mesmo que o sujeito que vá hoje ao estádio hoje tenha outro perfil).

Na churrascaria, o dono empurrou novidades à força e, por enquanto, a clientela aceitou numa boa, reclamando um pouco dos preços mas seguindo fiel. No futebol, a nostalgia é mais presente. Quanto mais se envelhece, mais se embra “daquele tempo em que comprava ingresso na hora e ia pro jogo”.

A vantagem do esporte é que não se troca de time como se troca de restaurante.



  • sandro

    Onde fica este restaurante? No Leblon?

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