Tragédia e vexame



A tragédia entristece. O vexame envergonha. Não se brinca com tragédia, mas com o vexame dá para fazer graça. Este deve ser o motivo da quantidade enorme de piadinhas que surgiu quarta-feira, aniversário dos 7 a 1. E também pode ser o motivo de o brasileiro não encarar as derrotas de 1950 ou mesmo a de 1982 com sarcasmo e uma dose de leveza. Não à toa, os jogos doloridos contra o Uruguai e a Itália foram rotulados como tragédia.

O dicionário explica bem a diferença de uma palavra e outra. Vexame é sinônimo de escândalo, desonra, afronta. Tragédia é uma cena ou um acontecimento triste, grave ou perigoso.

Em 1950 as notícias eram divulgadas pelo rádio, portanto sem imagem, e por textos escritos por cronistas em jornais. Encontrar uma só menção com algum bom humor ou leveza sobre a final daquela copa é tarefa dificílima. Os textos são carregados de emoção, dor e tristeza. O “vilão” na ocasião, o goleiro Barbosa, morreu pobre e amargurado. E contou que queimou as traves do Maracanã em uma fogueira.

O que aconteceu no dia 16 de julho de 1950 no Maracanã abarrotado, até hoje é representado por um fantasma. Apavorante, ele entra em cena toda vez que as duas seleções se encontram, seja pendurado em um drone, seja na pele de um torcedor fantasiado na arquibancada, seja em propagandas de TV.

A mais linda e triste representação da eliminação brasileira da Copa de 82 (Itália 3 x 2 Brasil) está na capa do extinto “Jornal da Tarde” em sua edição de 6 de julho de 1982. Um garoto chorando com uma bandeira brasileira nas mãos e a manchete: “Barcelona, 5 de julho de 1982”.

Tanto em um caso como em outro, não há espaço para mais nada além da dor. Tratar estas duas derrotas com graça seria o equivalente a entrar em um velório contando uma piada.

Curioso como esta “política e bons modos” não se aplica à Brasil 1 x 7 Alemanha. Aquilo é como uma crônica do absurdo, algo tão fora da ordem até então conhecida que parece irreal. Não irreal como um fantasma que assusta, mas irreal com uma certa dose de ridículo.

Depois dos 7 a 1, o choro de Thiago Silva, as caretas dos jogadores em suas selfies, o hino à capela ou o boné “Força, Neymar” parecem terem sido feitos na medida para alguma brincadeira. Se o 2 a 1 para o Uruguai e o 3 a 2 para a Itália são como uma morte inesperada de um ente querido, os 7 a 1 são a morte provocada por uma sucessão de trapalhadas, de forma que até dá pra dizer a frase tão batida: “seria engraçado se não fosse trágico.”

Em 1950 e 1982 não havia internet e há quem vá dizer que se existisse as duas derrotas não seriam tratadas com tanta seriedade. Ou que hoje o Brasil é um país muito mais maduro e preparado para os revezes. Ou ainda que o esporte não serve mais como uma espécie de doping emocional positivo para um povo muito sofrido. Também é possível.

Os personagens do 7 a 1 provavelmente sentem uma dor que só eles podem sentir. São os atores principais do vexame. Mas interessante como o torcedor brasileiro não tem compaixão por eles como tem hoje, passados muitos anos, das figuras de 82 e 50. Com essa turma do passado não se brinca.



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