Suárez: punição exemplar em um mundo nada exemplar



Inimaginável que Suárez não sofresse punição severa após a mordida desferida em Chiellini. Pelo ato em si, pela reincidência, pelo momento delicado que vive a Fifa, pela sanha de Justiça que vive a sociedade.

O ato: uma falta violenta pode destruir a carreira de um jogador, mas uma mordida tem um componente selvagem assustador. Assim como uma cusparada tem um componente moral embutido. Assim, ver um humano morder o outro é como ver o lado mais animal florescer. Isso certamente faz a opinião pública ficar aterrorizada à espera da punição exemplar.

A reincidência: ter cometido o mesmo crime pela terceira vez também ajudou para que a mão da Lei fosse pesada neste caso. Fosse um jogador mais disciplinado e menos controverso e a pena tenderia a ser mais branda.

O momento delicado da Fifa: a imagem da entidade mundo afora é a pior possível por conta dos sucessivos escândalos de corrupção em que ela está atolada. A campanha pelo Fair Play é uma tentativa de atenuar isso. A entidade passa um recado de que deseja o jogo limpo quando pune severamente uma mordida dada sem o árbitro ver.

Sanha por Justiça: há um desejo por punição a infratores na sociedade. Brasileira particularmente e em boa parte do planeta. Talvez pelo fato de que a Justiça não se apresente todos os dias na vida das pessoas. Portanto, ao menos no futebol tem de valer a máxima: “Errou, pague por isso.” Mesmo que a vida real funcione de maneira muito diferente.

Chama a atenção a opinião de Fred, centroavante da Seleção, e de Chiellini, a vítima. Os dois consideraram exagerada a punição a Suárez. Pode ter sido uma declaração corporativista, vista em todas as profissões. Mas é a opinião de alguém que joga futebol e sabe que em um campo acontece atos tão ou mais violentos do que uma mordida, que nem sempre são vistos por árbitros ou câmeras.

A vida de Suárez faz seus atos malucos serem compreensíveis (não justificáveis). Infância pobre, abandonado pelo pai, menor infrator, alcoolismo. Uma mordida em um jogo de futebol representa muito mais do que um ato animal e irresponsável. Como tudo na vida, entre o preto e o branco há uma imensa zona cinzenta. Ele não é o demônio das mordidas e nem o anjo pintado por Lugano e os uruguaios. É um humano que comete atos extremos. Há muitos por aí.

Se Suárez deveria ser punido? A minha opinião é que sim. Se queremos um jogo mais limpo, se entendermos o futebol como um exemplo para a sociedade. O problema é que a sociedade não é exemplar assim como queremos fazer o futebol ser.



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