Carta Aberta ao presidente do Santos



Luis Filipe Chateaubriand*

Caro presidente do Santos Futebol Clube, Luiz Álvaro de Oliveira Ribeiro, ou presidente LAOR, sou grande admirador de seu trabalho como presidente do “Glorioso Alvi Negro Praiano”, apesar de ser torcedor de “outro tipo de ocupante do mar, parecido com um peixe”.

Sua proficiência como gestor esportivo é comprovada, sua liderança é inata, sua capacidade de comunicação é notável, sua simpatia encanta, sua defesa do futebol brasileiro comove e inspira.

Perante sua auspiciosa gestão, o Santos voltou a ser o “Santos sempre Santos” que conhecemos – fato comprovado pela torrente de títulos conquistados. E, mais do que isso, o esforço que o sr. fez para manter nosso menino de ouro, Neymar, jogando em nosso país, é admirável!

É sobre esse esforço, para manter o menino-craque jogando aqui que gostaria de lhe falar, ou melhor, escrever.
O menino joga muito, é um assombro vê-lo com a bola. Qualquer um dos diversos cartolas tradicionais que há por aí faria o possível para vendê-lo, perpetuando o lamentável status quo de “vendedores de pé de obra” que nos persegue, e que o saudoso Dr. Sócrates tão amiúde denunciava.

Dr. Sócrates não só denunciava, como propunha: “temos que vender o espetáculo, não o artista”. Parece que o estou vendo em minha frente, pronunciando as inspiradoras palavras.

O Dr.propôs, o sr. viabilizou. Contra arcaicos e colonizados pensamentos, manteve o menino jogando aqui. Soube ser criativo para viabilizar sua permanência, seja com boa engenharia financeira, seja com bom plano de marketing, seja, ainda, com o inconformismo de quem não cede à mediocridade. Parabéns por tê-lo feito!

Mas, presidente LAOR, imagino que tenha passado por malestar, recentemente: quando Neymar, e seu escudeiro Paulo Henrique Ganso, foram convocados para os Jogos Olímpicos, o sr. perdeu os meninos por um considerável número de jogos, algo próximo a dez partidas.

Deve ser uma sensação nada agradável, né? O sr. pagando uma fortuna para manter o astro no Brasil, e sendo impedido de utilizá-lo em cerca de dez compromissos… e lá se vai o Santos deixar de usufruir de receitas (com estádios com menos gente) e decair tecnicamento porque, em vários jogos, Neymar não esteve presente.

Presidente, se isso acontece, há um vilão, que tem nome e sobrenome: calendário do futebol brasileiro.
É esse calendário monstruoso, que não é adaptado ao calendário europeu, que lhe tira o Neymar por tanto tempo. Se a adaptação existisse, os clubes não estariam jogando no período das Olimpíadas, e o sr. poderia contar com o Neymar durante a temporada toda.

É esse calendário horripilante, presidente, que ainda irá lhe prejudicar mais! Quando a seleção for jogar amistosos, seu Santos também estará jogando, mas não poderá contar com Neymar, que estará convocado. Tudo porque não se usa a simples medida de seleções só jogarem quando clubes não jogam, e vice versa.

Mas isso não é tudo, presidente. O calendário tenebroso prevê que o Campeonato Brasileiro, principal competição, tenha rodadas em meios de semanas, quando poderia ser realizado somente aos fins de semanas – uma distribuição mais equilibrada das competições pelas datas poderia providenciar isso.

Era fácil Neymar brilhar no Brasileirão com uma Vila Belmiro lotada aos sábados ou domingos, mas o sr. tem que se contentar com o menino brilhando em meios de semanas, mesmo, com a Vila muito mais vazia.

Bonito, né? O sr. se esforçando para o Santos “encher os cofres” contando com o talento de Neymar, e um calendário anacrônico obstando seu esforço! Não há a mínima graça nisso, não.

Se lhe escrevo, presidente, é porque vejo no sr. a pessoa apropriada para comandar um movimento para a melhoria do calendário de nosso futebol. Já lhe ouvi falar no assunto, já senti sua indignação e inconformismo com isso. O sr. é “o cara”, o cidadão que poderá mudar essa arcaica estrutura.

Não sei se seus colegas dirigentes de clubes estão tão interessados. Por exemplo: ao lançar meu livro “Futebol Brasileiro: Um Novo Projeto de Calendário”, em 2011, enviei-o para cerca de 100 personalidades do mundo do futebol, inclusive técnicos e dirigentes esportivos. Esperava, destes, algum retorno, seja para concordar, seja para discordar das propostas.

Pois, entre técnicos e dirigentes, só tive feedback de duas pessoas: O sr. Rodrigo Caetano, brilhante diretor de futebol do Fluminense, e ex diretor do clube parecido com o peixe, também habitante do mar; e de seu técnico, o competente professor Muricy Ramalho. Ambos para elogiar o livro – tanto a iniciativa, como as propostas.

Acho que o povo que dirige o futebol brasileiro, que deveria ser o maior interessado em mudar algo, não está preocupado com isso. Mas sei que o sr. está! Então, lhe faço um apelo: conduza as mudanças, se inconforme com a precariedade atual, faça acontecer, como é de seu feitio.

Será bom para o Santos, porque poderá melhor usufruir do Neymar que tanto esforço o sr. fez para continuar aqui. E será bom para o futebol brasileiro como um todo!

A bola está com o sr., presidente! Como diz o hino, “agora quem dá a bola é o Santos”!

*Luis Filipe Chateaubriand é Mestre em Administração Pública pela EBAPE / FGV, Analista de Logística e Suprimento da DATAPREV e Autor do Livro “Futebol Brasileiro: Um Novo Projeto de Calendário”.



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