Um dia eles conseguem acabar com o futebol



Todo mundo lembra bem a primeira vez que entrou em um estádio de futebol. É uma experiência única, que fica na memória de qualquer amante do esporte por toda a vida. Não é só o que se vê, mas também o que se sente, cheira e ouve.

A lembrança mais forte que tenho de minha primeira presença em um estádio de futebol é auditiva. Uma bateria de rojões ensurdecedora na entrada do time da casa em campo. Por anos aquilo me intrigou: quem acende o pavio? Como este sujeito sabe a hora que o time entrará em campo? Quem coloca tantos rojões ali? O time adversário se sentiu intimidado com tanto barulho?

Ano passado esta minha lembrança infantil voltou à tona quando vi a entrada em campo do Peñarol na final da Libertadores contra o Santos. Rojões ensurdecedores, uma festa inacreditável e arrepiante no Estádio Centenário em Montevidéu. Dessas coisas que fazem do esporte muito mais do que o que acontece dentro de campo, quadra, etc.

Atolada em escândalos de corrupção que pulverizam sua credibilidade cada vez mais, a Fifa anunciou nesta terça-feira que rojões serão proibidos em estádios de futebol no mundo inteiro. Como se não tivesse nada mais urgente e importante para fazer.

Assim, aos poucos, a entidade que dá as cartas no futebol na Terra vai higienizando o esporte. Leia-se “higienizando” com a pior conotação possível. E vai mostrando que pode entender muito de negócios e negociatas, mas que entende pouco ou nada do que é a emoção do esporte.

Na ânsia de transformar o futebol em uma mina de dinheiro, a Fifa esquece que trata-se de um esporte popular, em que o traje não precisa ser o terno, que torcedor não precisa ficar calado (é melhor que não fique, aliás), que um estádio não é um teatro de ópera, e que o torcedor não está no campo apenas para ver o que acontece, mas para FAZER parte do espetáculo.

Organizar um evento, dando ao torcedor conforto no estádio é louvável e elogiável. Lugares marcados, estádios decentes, tudo isso é fundamental. Privar o torcedor de participar do evento é outra, que vai muito além disso e é nociva. No Brasil, já chegamos ao cúmulo de proibir bandeiras em estádios, com a justificativa de que elas incentivam a violência.

Fim dos rojões, fim das bandeiras nos estádios, proibição de ir vestindo a camisa do time… vai chegar o dia em que será proibido gritar gol. Vai chegar o dia em que o futebol vai acabar. Um dia eles conseguem.



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