Sócrates, craque improvável



Gênio, craque, politizado, anti-atleta… todos este adjetivos servem para classificar Sócrates, morto neste domingo. Mas se eu tivesse que definir em uma palavra este monstro do futebol ela seria “improvável”.

Improvável exatamente por reunir em um sujeito só tudo o que está escrito nas primeiras linhas deste texto.

Gênio em um mundo (o do futebol) em que a maioria esmagadora é medíocre; craque (verdadeiro) em um mundo em que a palavra ficou banalizada, politizado em um mundo de pessoas preocupadas com o carrão, o cabelo, a maria-chuteira, a grana, a fama; e anti-atleta em um mundo que a força física cada vez mais esmaga o talento.

Sócrates lutou por democracia quando o Brasil vivia sob ditadura, formou-se em medicina quando 99% dos jogadores de futebol mal tinham o primeiro grau completo, desfilou sua impressionante, frágil e elegante magreza quando a preparação física começava a dar as cartas dentro de campo, ajudou a fazer de uma Seleção Brasileira derrotada (a de 82) uma das lembranças mais orgulhosas que o futebol brasileiro tem e terá.

Há exatamente uma semana achei, por acaso, meu exemplar do famoso álbum de figurinhas Ping-Pong da Copa de 82.

Para quem não sabe do que estou falando: mal comparando era uma febre tamanha como os álbuns de Copa da Panini de hoje.

Isso em um mundo muito menor, sem internet, sem redes sociais, sem milhões de facilidades que a vida moderna nos dá e que hoje nos ajudam, entre outras coisas, a completar álbuns de figurinha. Este meu de 82, por exemplo, está incompleto.

A Seleção Brasileira, entretanto, está completa. E claro, com a figurinha de Sócrates coladinha.

Pegar aquele álbum nas mãos hoje me remeteu para aquele tempo de ditadura agonizante, de crise econômica severa e de Sócrates em campo.

Ditadura, crise econômica e Sócrates: três coisas que, para quem nasceu depois de 1990, são tão distantes como imaginar que um jogador pode ser ídolo de um clube só.

Foi naquele mundo menor, mais sonhador, mais duro e ao mesmo tempo mais inocente que Sócrates viveu a parte mais importante de seus 57 anos e brilhou pelo Corinthians, pela Seleção Brasileira e no palanque político que fez de sua vida.

Se hoje seu discurso socialista parece fazer pouco sentido, naqueles anos era inovador, diferente e revolucionário, para se usar uma palavra da moda na época.

Sócrates era chamado de “Doutor”, um dos mais simples e geniais apelidos já criados para um jogador de futebol no Brasil.

Contrasta com R10, LF9, XYZ4, L490, etc, etc que vemos hoje. Se jogasse atualmente, provalmente seria apenas o “S8”. Muito pouco para o que o camisa 8 do Corinthians e da Seleção foi.

A morte de Sócrates decreta a extinção de um tipo de atleta. Aquele que, por mais brilhante que tenha sido dentro de campo, sempre acreditou que sua verdadeira contribuição para a sociedade era além das quatro linhas. Fez do futebol a plataforma de suas ideias.

Feio, chegado a umas biritas, rebelde, derrotado em duas copas do mundo, é provável que Sócrates fosse massacrado se atuasse no mundo maniqueísta, julgador e raso de hoje.

Ou melhor, não é não. Afinal, este gênio brasileiro pode ser resumido em uma palavra: “improvável.”



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