A ética de cada um



Ética é uma questão maleável no Brasil. Ela se adapta às conveniências do cidadão. Quando políticos recebem propinas são ladrões. Quando o cidadão paga um por fora para o policial que o pegou na Lei Seca não tem nada demais, foi só uma cervejinha.

A água que o vizinho usa para lavar o carro é desperdício. A sua, no banho de mais de uma hora, é necessidade.

Multiplique isso por mil quando for falar de futebol. Ali é o ambiente em que a ética é a mais pessoal possível. Se é que ela existe.

Muricy Ramalho era até domingo um dos últimos bastiões da ética no futebol brasileiro. Não rompia contratos, não deixava clube na mão. Recusou a Seleção Brasileira por causa disso e porque precisava dar exemplo a seus filhos.

Após o clássico, saiu do Fluminense reclamando da falta de estrutura. Segunda-feira, deu detalhes: ratos no vestiário, campo das Laranjeiras que destruía pernas de jogadores, falta de academia de ginástica e outras mazelas mais.

Escancarar os problemas do clube é, para Muricy Ramalho, ser sincero e transparente. Ou ser simples, como ele gosta de dizer. Na visão do torcedor do Fluminense, romper o contrato no meio do caminho com o time quase eliminado da Libertadores (em parte por culpa dele) e contar tudo de pior da estrutura é uma canalhice.

Para ver o outro lado da moeda, vamos voltar a 2009, ano em que o Fluminense fez o impossível no fim do ano, ao escapar de um rebaixamento que ninguém acreditava ser possível evitar.

O técnico no banco de reservas era Cuca. O que aconteceu depois que a água baixou do pescoço e o time se salvou? A diretoria do Tricolor (não a atual, diga-se) mandou um “obrigado pelos serviços prestados” ao treinador para contratar justamente Muricy.

Na ética dela, dispensou um treinador por acreditar que outro poderia levar o time mais longe. Na ética de quem se considera justo, uma tremenda canalhice, uma falta de respeito e consideração com um profissional.

Alcides Antunes, o vice de futebol da campanha do título de 2010, também levou o bilhete azul sábado. Para a diretoria, que também dispensou profissionais da comunicação dois meses depois da contratação, ela está apenas “mudando o modelo de gestão”.

Em um mundo em que fosse proibido falar mentira, saberíamos o motivo da crise no Fluminense. Afinal, como Muricy mesmo diz, “as pessoas sabem apenas 10% do que acontece dentro de um clube”.

E neste mundo da verdade absoluta, cada um poderia tirar suas conclusões sobre o que é ético ou não. Enquanto vivemos no mundo das versões, cada um fica com a ética que mais lhe convém.Esta maneira cômoda de lidar com as coisas da vida é ambiente propício para ratos mais apavorantes do que os que incomodaram o treinador no vestiário.



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