A asneira do ano



Abaixo, minha coluna publicada na edição de hoje do diário Lance!, página 12. Dê seus pitacos. Aproveite e siga-me no twitter: @etironi

A fórmula dos pontos corridos tem sido colocada em xeque por conta das últimas rodadas do Brasileiro em que times poderiam entregar jogos para prejudicar rivais regionais. É preciso ter uma visão muito estreita e seguir uma linha de raciocínio simplória demais para se acreditar que o culpado são os pontos corridos.

Pensar assim é mais ou menos como achar que as UPPs são as culpadas pela onda de arrastões e violência recentes na cidade do Rio de Janeiro. Ou que as condições generosas para se comprar um carro hoje em dia são as responsáveis pelo trânsito caótico da cidade de São Paulo. As soluções nestes casos seriam acabar com as UPPs ou proibir a venda de carros? A resposta é mais do que óbvia.

A fórmula de pontos corridos não é culpada pelo Corinthians ter ficado sete rodadas sem vitória ou pelo Cruzeiro ter reagido tarde na competição a ponto de chegar no fim do campeonato com chances reduzidas. Nem pelo fato de o Fluminense ter perdido dois pontos para o Goiás em casa e neste momento estar apenas um ponto na frente do vice-líder.

Mudança de regulamento não resolveria a questão, que é muito mais complexa. Em um campeonato por mata-
mata pode acontecer a mesma coisa. Um time perder pontos em um jogo da fase de classificação para pegar adversário em tese mais fraco na fase de playoff ou, já classificado, facilitar para um adversário que luta por vaga contra um rival regional, são dois exemplos rápidos.
Considerando que alguns times estão realmente entregando jogos (eu defendo que alguns times estão desinteressados, mas não jogando para perder), esta é uma questão muito mais profunda. Envolve conceitos que vão além do esporte e dos exemplos positivos que ele deveria dar para a sociedade.

Primeiro, envolve uma rivalidade tal que extrapola o bom senso. Afinal, isso é só um jogo.

Segundo, envolve valores éticos que deveriam estar enraizados na sociedade, mas qualquer pessoa com mais de 15
anos sabe que não estão.

Terceiro, mostra como a noção do que é certo e errado muda de acordo com a conveniência do torcedor (e também do cidadão). Muito torcedor que fica indignado com uma “entregada” que prejudica seu time solta gritos de guerra homofóbicos ou preconceituosos no estádio, por exemplo. Ou vibra quando seu time faz a mesma coisa para prejudicar um rival. E depois condena o jogo de equipe da Ferrari.

Seguindo a mesma linha, cidadãos reclamam da corrupção, mas pagam propina para policiais na blitz da Lei Seca.
No Brasileirão, minimizaria o problema marcar clássicos regionais para as últimas rodadas.

Mas a solução mesmo vem da sociedade. Quanto mais evoluída, menos serão necessárias regras para inibir quebras de valores éticos.



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