Se eu quiser falar com Deus



A primeira imagem que eu tenho é de um pé calçado em um sider sem meia saindo do banco do passageiro de um carro com vidros escuros. Depois vem a perna vestida em uma calça jeans clara e o tronco vestido em uma polo azul.

Debaixo do braço daquela pessoa atarracada, muito mais baixa do que eu, um envelope branco meio encardido e rasgado na ponta. Antes de deixar o carro partir de vez, um recado para o motorista.

– Pra mim você compra um cheeseburguer, uma batata e um suco de laranja. Pra você (o motorista), pede o que quiser.

Ele tira da carteira de couro marrom uma nota e entrega ao motorista, que arranca com o Toyota Corolla cinza.

– Isso é o Rio de Janeiro. Sair de Santa Teresa às três (15h) e chegar aqui agora (17h30 no Recreio)… – lamenta, com um sorriso conhecido.

O bom humor contrasta com os últimos dias tensos que passou. Faz uma piada qualquer que tem relação com o momento que vive… e cai na risada. Depois, comenta que um dos netos tem um chute de canhota poderoso.

Não dá para contar quantas flâmulas e troféus estão no caminho do carro até a sala dele. E dentro da sala não dá para contar quantas moções e homenagens estão emolduradas e penduradas na parede. A própria parede mal aparece atrás das homenagens.

Antes de a conversa começar de verdade, ele é orientado a se sentar em uma determinada cadeira entre as cinco que estão em volta da mesa oval. A escolhida não fica na ponta da mesa, como deveria ser para quem é o dono do pedaço. Mas ele não se importa. Senta na cadeira que lhe foi sugerida e começa a falar.

É interrompido, porque a câmera não estava ligada. Nenhuma reclamação. Fala tudo de novo com a mesma energia.
A conversa é olho no olho. As mãos batem na mesa e pontuam cada frase como se fosse uma faca cortando um bolo.

Em um único momento, ele pede para parar. Chegou a comida.

– Vocês me dão licença, mas é que eu não almocei. Estão servidos?

Ninguém está.

– Queria pedir para vocês pararem de filmar agora, porque eu vou comer.

É atendido.

Primeiro, ele ataca as batatas fritas, uma por uma, mas segue falando. Cada batata é uma pausa para mais frases e explicações. Depois, vem o cheeseburguer, intercalado por mais explicações. Em menos de dez minutos já acabou. O suco de laranja fica pela metade e ele pede que coloquem na geladeira.
Uma limpada no gergelim que caiu na polo azul escura e mais conversa.

Foram duas  horas de papo com alguém que não é comum, sabe que não é comum. Mas que foi e sempre é incapaz de deixar transparecer em gestos, atitudes ou tom de voz o quanto é diferente.

Deus para 35 milhões de brasileiros, ídolo para uma nação inteira, Zico é Zico também porque não precisa mostrar isso para ninguém.



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