Nem todo mundo na África do Sul curte futebol



O texto abaixo é da amigona Erika Brandão.  Que está no lugar onde a maior parte do mundo gostaria de estar: na África do Sul, na Copa do Mundo. Igonrante e desiteressada confessa em futebol, ela escreve um texto delicioso sobre como é ver um jogo de Copa sem gostar de… futebol. Imperdível! O título do texto eu mesmo dei.

Nem todo mundo que está na África do Sul gosta de futebol

Tirando os dias de show – que foram vários – nunca havia pisado em um estádio de futebol. Apesar de pai e irmão palmeirenses e marido corintiano, nunca tive um time do coração.

Devo confessar que já dormi assistindo a um jogo do Brasil em alguma Copa (86? 90? Não sei. Só lembro da indignação dos amigos quando contei que tinha perdido o gol tal, feito pelo fulano de tal, aos tantos do primeiro tempo).

Sempre ficava tentando desviar o assunto para outras áreas quando saía com os amigos para uma cerveja depois da pelada – deles, claro. Eu ficava só esperando acabar o tempo da quadra pra poder papear. Sobre qualquer coisa, menos futebol.

Claro que sempre fui minoria esmagadora e sempre acabava vencida. Tá, até aprendi uma coisa ou outra, mas sempre vivi com o estigma da amiga “nula sobre o assunto”. E realmente nunca me importei, sempre julguei que esse meu diferencial do resto do mundo me trazia uma aura estranha, um certo charme até.

Quando descobri que viria trabalhar na África do Sul durante a Copa, minha primeira atitude foi ligar para esses mesmos amigos que veneram futebol até hoje pra contar sobre a surrealidade – certeza que alguns consideram injustiça – da situação.

Encarei como o melhor modo de me redimir desta quase falha de caráter. Então vim pra Johannesburg, ou Joburg, como dizem os locais, encarar um mês de trampo durante o mês mais agitado que este país já teve desde o fim do apartheid.

Meu trabalho aqui é de, junto com uma grande equipe, promover o Brasil para os gringos. Devo confessar que falar sobre o que o Brasil tem de bom é extremamente fácil. Nem preciso convencer ninguém que lá estamos cheio de gente bonita, simpática, prestativa, cheio de lugares lindos e exóticos, comida deliciosa, música boa, etc.

Todo mundo torce um pouquinho pro Brasil aqui – acho que com exceção dos argentinos, mas isso é outra história –, nosso país sempre foi berço dos grandes craques.

Foi inaugurada recentemente uma exposição incrível que chama “Brazil Sensational Experience”, e que é realmente sensacional. Mas a parte que mais me marcou – e ainda volto lá pra tirar fotos melhores – é a do nosso país nas Copas. Tem camisa de vários craques, tem até a Jules Rimet.

Lembrei de novo do marido e dos amigos. Muito. De como eles iriam passar horas a fio babando nesses, sei lá, 100 metros quadrados com preciosidades do futebol brasileiro.

Então me dei conta que mais à noite eu iria ver meu primeiro jogo da vida, e era do Brasil na Copa. Brasil e Coréia.

O.k., estádio mega iluminado, todo mundo pintado, colorido, batucando, vuvuzelando, cornetando, e eu encapotada e tremendo até os ossos. Me disseram que bateu menos 2 graus e que a sensação era de menos 7. Coca e batata frita era o que o povo comia quando conseguia tirar a luva. Só conseguia sonhar com um chocolate quente com conhaque.

Cheguei quando o primeiro tempo já tinha começado, e tava bem chato. Depois que encontrei o portão pra entrar no estádio – era o portão leste, cheguei pelo norte -, o portão pra chegar na minha cadeira – subi e desci várias rampas, ninguém sabia me dizer como chegar lá – , a cadeira onde ia sentar e finalmente o pessoal que trabalha comigo aqui e que já estava lá, as coisas melhoraram. Deu até pra bater umas fotos – e sem luva!!

Vi o Brasil fazer dois gols bem na minha frente: é sensacional, todo mundo pula, se abraça, grita. Socializa com os desconhecidos . Deu até vontade de ter pintado a cara de verde e amarelo, vestido um daqueles chapéus imensos e peruca com as cores da bandeira, tirado uma da caras dos argentinos que estavam sentados ali do lado.

Mas passou logo. Então percebi que pronto, já tinha dado a minha cota.

O frio voltou a me engolir, o cansaço, a fome, a perspectiva de muita demora pra chegar na minha cama quentinha me deu uma saudade dos churrascos em casa, vendo os jogos pela tv com os amigos de lá…

Amanhã tem jogo de novo. Sei que durante o dia vou trabalhar muito, provavelmente até a hora de ir pro estádio e perder o começo do primeiro tempo de novo, depois de andar muito, passar muito frio e fome.

Claro que é legal ver um jogo, devo confessar. A festa é super animada, as pessoas se vestem dos pés à cabeça com as cores do seu país, brota sei lá de onde um patriotismo muito legal.

Mas, na boa, o meu ingresso pro jogo de amanhã, contra a Costa do Marfim, vai ser doado pra algum brasileiro que vai desencanar do frio, da fome, do perrengue e vai vibrar muito mais que eu. Alguém que iria a pé pro estádio se tivesse um ingresso na mão.

Hoje entendo melhor o amor irracional que as pessoas sentem pelo esporte. Mas confesso que continuo não sentindo esse amor todo. Sinto agora uma empatia. E, garanto, isso já é um grande passo.

E no fim das contas, por incrível que pareça, tô sentindo falta de poder gritar, indignada, com todas as forças, ao lado da galera: “Cala a boca, Galvão!”



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