A ‘sorte’ do Palmeiras, a desonestidade intelectual e a falta de autocrítica



Palmeiras venceu o Colo-Colo e confirmou vaga nas semifinais da Copa Libertadores (Foto: Flickr Palmeiras)

Falar em primeira pessoa não é o adequado para um espaço como este, mas neste momento serve para introduzir o texto que virá a seguir. Para isso, começo reconhecendo que sou dotado de muitos defeitos e não faço questão de escondê-los, mas se tem um que com certeza não carrego comigo é a desonestidade. Na verdade nem deveria ser uma virtude, e sim uma obrigação, um dever como cidadão. Lembro desde pequeno da minha avó dizendo que eu não deveria pegar nem um clips que não fosse meu, ou do meu avô e do meu pai falando que a maior satisfação deles era deitar a cabeça no travesseiro e dormir sem culpas. São coisas que a gente leva para a vida e para a profissão.

Ser honesto não significa apenas roubar algo material, mas também puxar o tapete do colega de trabalho, criar situações para prejudicar alguém e tentar cavar o lugar que tanto você gostaria de estar. No jornalismo, porém, podemos estender a desonestidade às análises feitas sobre determinados assuntos. Isso acontece quando é dado um aspecto isento a um tema que, claramente, está sendo analisado com o objetivo de elogiar ou menosprezar algo que lhe agrada ou não. Por motivos óbvios, falaremos apenas de como isso acontece no futebol.

O melhor exemplo para explicar essa tese é o atual momento do Palmeiras, que na última quarta-feira venceu o Colo-Colo por 2 a 0, no Allianz Parque, e confirmou a classificação para a semifinal da Copa Libertadores. Em uma das análises feitas após a partida, foi detectado que o time só havia chegado a essa posição na competição por ter tido sorte no cruzamento da fase de mata-mata. Ou seja, 100% de aproveitamento fora de casa, retrospecto com apenas uma derrota em um jogo atípico e a melhor campanha na primeira fase são todos aspectos advindos de sorte.

Mas não foi a primeira vez. No jogo de ida, no Chile, quando o Verdão praticamente garantiu sua vaga na semi ao vencer o Colo-Colo por 2 a 0, o discurso foi o mesmo: a sorte de ter enfrentado um adversário fraco nas quartas de final, enquanto outros clubes brasileiros não tiveram esse privilégio. Um desavisado que assistisse a esses programas e não soubesse dos resultados, acharia que os palmeirenses haviam saído de campo desclassificados ou apresentado o pior futebol do torneio. Não há mérito do vencedor, há demérito do perdedor.

É evidente que o elenco do Palmeiras é, talvez, o melhor do Brasil e, com certeza, um dos melhores da Libertadores. Chegar à semifinal da competição seria natural pela qualidade da soma de fatores que faz o clube ser um dos gigantes do continente na atualidade. No entanto, há mérito em um time que venceu todos os seus jogos como visitante, inclusive contra o Boca, na Bombonera. Relegar a consistência do time, tanto com Roger Machado, quanto com Felipão, ao fator sorte, não parece ser uma análise honesta.

E parece bem sortudo esse Palmeiras mesmo. Até aqui o time foi/é:

  • Finalista estadual, sendo derrotado nos pênaltis em uma decisão polêmica, com indícios de interferência externa;
  • Semifinalista da Copa do Brasil, tendo sido menos eficiente do que o Cruzeiro, mas prejudicado pela arbitragem na primeira partida;
  • Líder do Campeonato Brasileiro e invicto há 12 rodadas;
  • Semifinalista da Copa Libertadores, com desempenho consistente dentro e fora de casa;
  • Melhor aproveitamento do ano entre os clubes de Série A em jogos oficiais;
  • Melhor defesa do ano, em média, entre os clubes de Série A em jogos oficiais;
  • Melhor aproveitamento como visitante do ano entre os clubes de Série A em jogos oficiais, com quase 70%;
  • Segundo melhor ataque do ano, em média, entre os clubes de Série A em jogos oficiais.

Entre as “sortes” acima, foi dito também que o desempenho do Palmeiras no Campeonato Brasileiro tem sido bom, porque a tabela beneficiou o time, recebendo apenas adversários fracos e que agora a situação será diferente, uma vez que os rivais das próximas rodadas serão mais fortes e, obviamente, favoritos contra uma equipe que tem sorte e que, como se sabe, uma hora a sorte acaba. O que compreendemos a partir disso? Que a liderança é temporária e a queda na tabela é iminente.

O torcedor palmeirense, por vezes de forma exagerada, se acha um perseguido por toda a mídia esportiva, crê que o tratamento com outros clubes é diferenciado. Diante desse cenário, ele tem razão, parece que há certa má vontade, até uma torcida contra, quando se vê tentativas atrás de tentativas de menosprezar as conquistas do time. Críticas são naturais, necessárias e merecidas, mas há momentos em que os feitos precisam aparecer antes dos defeitos, não é questão de passar pano, mas sim evitar que o comentário pareça clubista, com ranço e inveja.

Isso sem contar tudo o que foi dito antes da chegada de Felipão para comandar o Palmeiras pela terceira vez. Foram poucos aqueles que apostaram que o experiente treinador pudesse ter êxito dirigindo o time. Ultrapassado foi a palavra mais carinhosa para definir aquele que é um dos maiores ídolos palmeirenses e campeão do mundo pela Seleção. Pois bem, as previsões foram por água abaixo.

Felipão recuperou a situação da clube no Brasileirão, tirando uma enorme desvantagem que tinha para o líder da competição. Levou a equipe para a semifinal da Copa do Brasil, e acabou de classificar o Verdão para a semifinal da Copa Libertadores, sem grandes problemas. Além de, o mais importante, ter conseguido dar um padrão não só para um, mas para dois times, algo inédito desde que a era das vacas gordas se iniciou, em 2015. Nem mesmo o queridinho da mídia, Roger Machado, conseguiu algo do tipo, aliás, muito pelo contrário.

Errar essas apostas, todos nós erramos, eu erro demais, eles erram demais. Isso não tem problema, faz parte dessa função jornalística, inclusive pelo futebol ser imprevisível. O que não dá para aceitar é a falta de autocrítica, de reconhecer o erro na análise preliminar e admitir que o trabalho tem sido muito bem feito, independentemente se um título não vier, ou se o time não “joga bonito”.

De que adianta tentarmos ditar regra por aí, cobrar honestidade de políticos, da sociedade, se nós jornalistas temos essas atitudes de desonestidade intelectual? O que ganhamos incutindo no leitor, no telespectador ou no ouvinte essas opiniões carregadas de motivações pessoais, ranços e traços de inveja? Custa filtrar tudo isso e repercutir apenas a realidade? Acredito que não, mas parece difícil que isso mude, já que virou uma prática bastante comum no meio. Uma pena.

Obs.: A opinião contida no texto acima pertence apenas ao autor



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