Gabriel Jesus: quando a convicção da análise vira perseguição



Gabriel Jesus enfrenta a marcação dos adversários mexicanos e a intolerância dos críticos (Foto: AFP)

Todos nós que trabalhamos com futebol temos as nossas convicções, as nossas preferências e os nossos personagens favoritos. Normal, faz parte da construção da nossa paixão, desde que isso não corrompa o modo com que tentamos transmitir conhecimento por intermédio dos veículos, mas se você é um leitor atento, sabe que não é bem isso que vem acontecendo durante esta Copa do Mundo, principalmente em relação a Gabriel Jesus, atacante da Seleção Brasileira.

É bastante claro que o camisa 9 do Brasil tem feito uma competição aquém do que fez nas Eliminatórias e do que pode fazer pelo que conhecemos de seu potencial. Não fazer gol pesa contra seus defensores, mais ainda quando Firmino entra em campo e deixa a sua marca na vitória sobre o México. Sem dúvidas, o jogador do Liverpool fez uma ótima temporada e mereceria uma vaga no time titular.

Ainda que Jesus não faça aquilo que se espera de um centroavante, é inevitável ter uma visão mais abrangente do que o jovem de 21 anos faz dentro de campo, e não é pouco. Além de brigar, por vezes sozinho, contra os zagueiros adversários e abrir espaços para os companheiros que vêm de trás, volta para marcar e recompor a defesa em diversos momentos da partida. Firmino poderia fazer a mesma coisa? Poderia, mas na cabeça de Tite, o camisa 9 ainda executa melhor essa função.

Quando foi preciso, o técnico da Seleção puxou Jesus para atuar pelo lado esquerdo, no lugar de Neymar, que corria o risco de levar um amarelo, e seria difícil acompanhar as investidas mexicanas por aquele setor do campo. O ex-palmeirense também chegou a atuar como ponta esquerda, partindo para cima dos defensores adversários. Foi bem, fez aquilo que seu treinador lhe pediu, deu trabalho, lutou, foi um operário para a sua seleção.

– O Gabriel é um trator, a origem dele na base foi de externo. A utilização dele é muito importante numa competição como essa, de recuperação cada vez menor. Nós conversamos e decidimos que o Gabriel poderia contribuir demais pelo lado esquerdo. Ele cumpre uma função excepcional – analisou o Sylvinho, auxiliar de Tite.

Mesmo sabendo de tudo isso que foi falado acima, ainda assim há quem prefira ultrapassar os limites da convicção e passe a perseguir aquele que, segundo o emissor dessa opinião, não serve para executar tal função. Quando isso parte do lado de cá da bancada, de quem é pago para analisar de forma honesta e isenta, a situação fica mais grave, porque tem início a execração pública de um personagem que está fazendo o seu trabalho, e muito bem.

Fica difícil não associar esse tipo de atitude a algo mais do que propriamente o campo. Os comentários covardes e o menosprezo trazem um ranço que não há como considerar apenas como uma discordância de ideias, de modos de jogo. Até porque o Brasil vem vencendo, vem passando de fase, com outros jogadores brilhando e Gabriel entre os 11, garantido pelo comandante. Ou o importante é a convicção e não a Seleção?

– Está faltando o gol, mas diga aí uma chance clara que eu perdi! Muitas partidas que fiz nessa curta carreira, que não joguei tão bem quanto venho jogando, e fiz gols. O gol que falta. É complicado você jogar com a camisa 9, ser o centroavante da Seleção, e não fazer gol. Mas estou contente com o que venho fazendo, com a atuação da Seleção, e se tiver de abdicar de gols pelo título, vou fazer – declarou conscientemente Gabriel Jesus na zona mista pós-vitória sobre o México.

O volante Paulinho, que já marcou um gol na competição, não faz uma boa Copa do Mundo, aliás, tem desempenho consideravelmente inferior ao do atacante do City. No entanto, são poucos aqueles que agem de forma tão destruidora de carreiras como fazem com o garoto. Há uma paciência bem maior com o meio-campista, que foi o pior nesta segunda-feira. Por que não utilizamos os mesmos métodos para os dois? Por que somente Gabriel é perseguido covardemente? A ideia, claro, é que ninguém seja perseguido, mas sim tratado da mesma forma.

Confesso que não achava que Fagner poderia jogar na Seleção Brasileira, não acho que seja jogador para esse nível, mas seu valor dentro de campo tem quebrado meus argumentos. Ainda bem! Ele não só substituiu Danilo como tomou a posição e não deve entregá-la de volta. Eu errei, eu avaliei de forma equivocada, passei a olhar por outro lado a importância do lateral.

O respeito pela opinião alheia precisa estar acima de qualquer coisa, desde que a intenção não seja tentar acabar com a carreira de um jogador, que está fazendo o seu trabalho, do mesmo jeito que o analista faz. Alguém consegue imaginar se fosse o contrário? E se começassem a fazer uma campanha pública contra um profissional do jornalismo que, teoricamente, é pior do que seu “reserva”, somente pelo fato de fulano não gostar dele? Seria ético? Seria respeitoso? Com qual intenção essa campanha é feita?

Você leitor, tem total liberdade para fazer campanha pelo seu preferido. Se é Jesus, se é Firmino, se é outro… Tanto faz, o papel de quem torce é esse mesmo, mas vale a pena analisar quem é que está argumentando em qual lado dessa história, e o porquê dessa perseguição desenfreada. Será que estão agindo apenas por convicção futebolística ou desonestidade? Esse caso não é único, acontece corriqueiramente e vai continuar acontecendo, pois faz parte do “trabalho” de alguns estarem comprometidos com intenções alheias ao campo de jogo.

Se Gabriel sair e Firmino entrar, acredito que pouco vá mudar, devido ao estilo de jogo da Seleção, mas não acharia injusto se a opção de Tite for essa. Não é o objetivo defender o camisa 9, mas sim atentar para o tipo de expediente que estão utilizando para criticá-lo. Isso não é jornalismo, isso não é analisar, isso ultrapassa os valores éticos que aprendemos não só na faculdade, mas na vida.

Obs.: As opiniões acima pertencem apenas ao autor do blog



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