No futebol nossa torcida é mais contra ou a favor? Até que ponto a paixão nos cega?



Já parou para pensar na maneira com que escolhemos para quem torcer no futebol (Foto: Roberto Casimiro/Fotoarena)

Recentemente me deparei com uma reflexão sobre os meus hábitos ao ver futebol. Embora esse esporte, hoje, seja o meu sustento, não dá para separar totalmente a paixão da profissão, aliás, foi o amor pelo jogo que me trouxe até aqui. No entanto, algo me incomodou nas minhas reações: eu passei a não conseguir discernir o momento em que estava torcendo a favor ou contra algo. O quanto isso influencia na maneira com que me expresso no meu trabalho? Será que sou o único? Isso é certo ou errado?

Quando pensamos no nosso clube do coração, evidentemente torcemos a favor, mesmo que passemos a não concordar com o modelo de gestão, com a filosofia de jogo, com as posições institucionais ou com a política de ingressos. Esse amor é incondicional, e é claro que também amamos ser “anti”, amamos torcer para o rival perder. Mas e quando a paixão envolvida é irrelevante, e nossa função/diversão é apenas analisar?

Talvez seja aí que eu e tantos outros estejamos pecando. Quais motivos nos levam a escolher um lado quando nem nosso time do coração nem nossos rivais estão em campo? Para mim um exemplo atual bastante significativo é o embate entre Liverpool e Manchester City. Ambas são equipes agradáveis de se ver jogar, não é um sacrifício do ofício, pelo contrário, jogam bonito, jogam para frente, possuem jogadores de muita qualidade e técnicos excelentes.

Porém, há uma corrente forte daqueles que optam pelos Reds, pois é um clube que ainda não conquistou uma Premier League, que impediria uma imaginária hegemonia do City, que se trata de uma instituição mais “raiz”, que não tem Guardiola no banco, que é treinado por alguém que já demonstrou compactuar com uma certa ideologia, e que, principalmente, tem Firmino e não Gabriel Jesus no elenco. (sabe-se lá por qual razão esse último fator se torna tão relevante).

O leitor pode pensar: “Nossa, de onde ele tira isso tudo? Que maluquice, isso não é verdade!”. Será? Pare um pouco para pensar, você nunca usou argumentos parecidos para definir seu lado na torcida? Com certeza já, e eu estou nessa turma. Várias vezes escolhi um time para torcer contra por conta um argumento fora do campo de jogo (exceto aqueles treinados por Guardiola, pois ainda não creio que existam motivos). Confesso que não sei se esse julgamento está certo ou se está errado, mas passou a me incomodar.

Torço muito contra equipes da moda, aqueles apontados como modelo pelos analistas que acham que reinventaram o futebol, caso do “Napoli do Sarri”, “Betis do Setién”, todos comandados por Bielsa e qualquer um que provoque reações do tipo “Silêncio, joga o Clube X do Fulano”. Às vezes o estilo de jogo é mesmo interessante, atraente, mas eu já peguei birra por conta daqueles que recomendam, já que tentam doutrinar o público sobre o jeito certo e o errado de gostar de futebol.

No fundo, mais errado estou eu, cego por um sentimento alheio àquilo que eu realmente gosto, que é o esporte e o pior: cometo o mesmo erro que eu critico nos outros. Pego como exemplo o caso de Felipe Melo, um personagem bastante polêmico dentro e fora de campo, que realmente, às vezes, dá motivos para essa alcunha. Essa rejeição, porém, ofusca o futebol que ele tem jogado. O volante tem feito, talvez, sua melhor temporada pelo Palmeiras, e tem sido o mais regular do time.

A verdade é que se ele estivesse alheio às polêmicas, se ele vestisse outra camisa, se ele fosse treinado por outra pessoa e se tivesse declarado voto em outro candidato, certamente estaria sendo considerado um dos melhores da posição no país, seria elogiado pela forma com que cuida de seu físico e pelo profissionalismo, além de ser incluído naquelas divagações sobre presença na Seleção em debates esportivos.

Isso é uma coisa que eu acredito piamente, há má vontade em relação a ele e a tantos outros personagens do futebol por conta de argumentos parecidos com os citados acima. Isso é algo que me irrita profundamente como torcedor e como jornalista, mas que eu acabo fazendo parecido. Mais uma vez, não sei se isso faz parte da paixão, se é ser “ombudsman” de torcida, se é algo que contamina o meu trabalho, se está certo criticar os outros…

É apenas uma reflexão sobre como estamos tratando algo que tanto gostamos. Por que estamos trazendo nossos ranços e recalques para dentro de algo que poderíamos tratar com mais leveza e coração aberto? Será que é tão difícil a gente concentrar em torcer a favor do que a gente gosta e ponto? Isso também não contribui para um futebol pior? Sugiro a todos refletirem sobre o tema.

Obs.: As opiniões do texto acima correspondem apenas ao autor



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