Essa tal desonestidade não perdoa nem a Copa do Mundo



Motivações escusas, que ferem a isenção do comentário, pedem loucamente Firmino no lugar de Jesus. Por quê? (Foto: AFP)

A Copa do Mundo é o evento mais incrível do melhor esporte inventado na história da humanidade. Acredito que poucos discordam disso. Trata-se de um torneio com um mês de duração que envolve até quem não gosta de futebol, com jogos todos os dias e repercussão 24 horas. Um prato cheio para aqueles que mergulham nesse universo por 30 dias. Mas a pergunta que fica é: por que somos tão desonestos?

Bastou o Brasil empatar um partida e vencer a outra na bacia das almas, jogando mal, para que colocassem em dúvida todo o favoritismo e a qualidade que essas mesmas pessoas faziam questão de bradar antes de a Copa começar. Pelo menos nove dos 12 jogadores que foram titulares nesses dois jogos fizeram parte e foram essenciais durante toda a passagem de Tite pela Seleção. Foram eles que tiraram a equipe da lama e levaram ao favoritismo.

O questionamento mais comum neste momento é a saída de Gabriel Jesus para a entrada de Roberto Firmino. Sim, o mesmo Jesus que até o jogo contra a Costa Rica era o artilheiro isolado da “Era Tite”, que foi o símbolo da mudança de comissão técnica, que tem apenas 21 anos, que pintava sua rua na Copa de 2014 e que parece não sentir o peso de um evento dessa magnitude. Na última partida, o atacante do Manchester City marcou um gol que foi anulado, acertou o travessão em finalização de cabeça, foi fundamental no lance do gol de Coutinho e não fugiu do jogo.

Firmino fez uma fantástica temporada com o Liverpool, foi o segundo brasileiro com mais gols entre aqueles que atuam nas cinco principais ligas da Europa, perdendo apenas para Neymar. Teve também participação direta em 44 dos 134 tentos de sua equipe em 2017/2018. Tudo isso o credencia a uma vaga no time titular na Seleção, no entanto ele ainda não entregou com a camisa canarinho a mesma coisa que Gabriel entregou. Questão de meritocracia que Tite parece adotar e reconhecer.

Por que então esse movimento “Fora Jesus” é tão forte entre torcedores e parte da mídia? Juro que não gostaria de pensar assim, porém parece ser, em grande parte das opiniões, um caso clássico de perseguição motivada pela doença do clubismo, com um toque significativo de desonestidade intelectual. Posso estar enganado, mas se Gabriel tivesse sido formado e fosse campeão por outro clube no Brasil, não haveria contestação. Acredito também que se tivesse uma passagem mais longeva pela Europa, teria melhor aceitação.

Em pouco mais de três anos de profissional, o ex-palmeirense conquistou quatro títulos nacionais e uma medalha de ouro olímpica. Firmino ainda não levantou taça pelos clubes que passou. Lembra quando Luxemburgo falava de jogadores que chegam com “faixa de campeão”? Jesus tem esse espírito e com certeza é algo que passa pela avaliação de Tite.

Outro caso de desonestidade intelectual é a avaliação da atuação de Fagner. Caso Daniel Alves não estivesse fora de combate, possivelmente o corintiano, que é homem de confiança de Tite, não estaria na lista final. Sua atuação contra a Costa Rica não foi ruim, mas também não foi boa como tentam fazer parecer. Seria injusto – apesar de já terem cometido a injustiça – comparar números e performance com o jogo de Danilo contra a Suíça.

Fica desonesto não contextualizar. Fagner teve muito mais tranquilidade para sair da defesa e poder participar mais do ataque, já que a Costa Rica praticamente não existia ofensivamente e jogou em apenas uma metade do campo em 90% do tempo da partida. Danilo poderia ter sido mais incisivo, é verdade, mas sua tarefa foi mais difícil e sofreu com o vício do time em jogar pelo lado esquerdo, algo corrigido contra os costarriquenhos.

Não podemos deixar de citar também o comportamento de parte da imprensa e de torcedores em relação ao técnico Tite. Ninguém é maluco de negar que o renascimento da Seleção é, em grande parte, mérito do treinador. Com Dunga, possivelmente, não estaríamos falando do Brasil na Copa. No entanto, isso não pode impedir qualquer crítica, ou transformá-lo em um ser superior que só merece elogios.

Levar e manter jogadores que não tinha condição de jogo, e que demoraram um tempo considerável para treinar com o restante do grupo, é algo que pode sim ter afetado a performance da equipe nos dois últimos jogos. Com exceção de Neymar, os outros atletas não seriam perdas tão importantes e os cortes até poderiam ser saudáveis. Males que viriam para o bem.

Contra a Suíça, por exemplo, Tite foi extremamente conservador, trocou seis por meia dúzia, deixou seu time ser dominado, quando poderia ter ousado e, quem sabe, criado mais chances para vencer, consequentemente tirando a pressão do jogo contra a Costa Rica, no qual o treinador fez o que deveria ter feito na partida de estreia. Críticas obrigatórias, se houver coerência e isenção.

Com a lesão de Douglas Costa que, ao lado de Firmino, são as únicas duas opções de banco com potencial para mudar o jogo, a convocação de Tite mostra ter defeitos, carente de opções versáteis e que possam fazer a diferença. O engraçado de tudo isso é que todos aqueles de defenderam com unhas e dentes a presença de Taison na lista, agora lamentam a ausência de Douglas. Por quê? Não confiam no atleta do Shakhtar e no poder divino do treinador? Vale a pena tamanha incoerência?

Por fim, o VAR, ferramenta negada por parte dos clubes brasileiros, e amaldiçoada pela opinião de parte da mídia e do público, mas que já mostrou sua importância em pouco tempo de Copa. É verdade que algumas vezes a omissão em certos lances absurdos causa estranheza e isso passa pela falta de caráter do ser humano que comanda o sistema. Algo que já acontece por aqui, mesmo sem árbitro de vídeo. Ponto para aqueles que gostam do “roubado é mais gostoso”, do “choro é livre”, do “mimimi”.

Fato curioso disso tudo foi o lance em que foi marcado pênalti em Neymar. No campo, o árbitro interpretou como jogada faltosa, mas na revisão pelo VAR, optou por voltar atrás, corrigindo a decisão anterior. Um dos argumentos negativos em relação ao lance foi justamente por conta de o árbitro ter mudado sua interpretação convicta, de quem estava próximo aos envolvidos, a partir das imagens que o vídeo trouxe em velocidade diferente da real.

Algo parecido com o que aconteceu na final do Paulistão, mas visto de outra forma por essas mesmas pessoas, que não notam problema nos oito minutos que o árbitro demorou para voltar atrás, nem na opinião do 4º árbitro, bem mais longe do lance, ter sido levada em conta. Ambos são passíveis de interpretação e poderiam ser encarados da mesma forma, mas não são.

Apesar de os indícios de uma interferência externa no Paulistão serem bastante factíveis, há quem diga que o importante foi o árbitro ter acertado ao anular a marcação do pênalti em lance profundamente interpretativo. Essas contradições são mais uma demonstração de como levamos a desonestidade dos dias de futebol brasileiro para a Copa do Mundo.

Por favor, deixem essa falta de caráter para quando voltarmos para a realidade, já é suficiente.

Obs.: As opiniões acima pertencem apenas ao autor do blog



MaisRecentes

Fair play financeiro? Palmeiras domina arrecadação do Brasileirão-2018



Continue Lendo

Palmeiras e Rojas fecham Brasileirão no topo da lista de amarelos por reclamação



Continue Lendo

No Brasileirão-2018, 67% dos jogos no Rio de Janeiro tiveram prejuízo com bilheteria



Continue Lendo