Há beleza em todas as maneiras de vencer, feio é impor a ditadura do jogo bonito



Melhor campanha até aqui no Paulistão, Red Bull garantiu vaga nas quartas jogando bonito (Foto: Facebook/Red Bull)

Vivemos numa sociedade em que sofremos imposições por todos os lados. Querem nos fazer pensar do jeito X, pois do jeito X é como as pessoas ‘legais’ pensam, e se quiser fazer parte da ‘turma’, não pode pensar de maneira diferente. Isso vale para todas as discussões, das mais sérias até as mais lúdicas, como o futebol. O assunto em voga, já há algum tempo, é a ditadura do ‘joga bonito’ imposta por quem tem o poder da opinião. Gostar do ‘jogo feio’ é uma subversão, cuja pena é ser chamado de ignorante, de ultrapassado ou de exterminador do esporte.

Quem sou eu para falar qualquer coisa, mas se pudesse dar um recado para o leitor seria não ligar para isso tudo, ninguém tem o direito de te ensinar como torcer, de te falar como gostar ou de te condenar pelo tipo de futebol que te agrada. Se tem algo de especial nesse esporte é justamente a imprevisibilidade. O pobre pode vencer o rico, o menor pode vencer o maior, quem joga mal pode vencer quem joga bem… É passional, é humano, não há fórmula exata, há o desejo de conquistar as vitórias e passar pelos obstáculos.

Duvido que, deliberadamente, técnicos e jogadores decidam jogar mal, creio que todos tenham o desejo de jogar bem, mas jogar bem é um conceito bastante relativo e de múltiplas interpretações. No que eu penso sobre futebol, jogar bem é executar a ideia de jogo traçada para determinada partida, seja ela na defesa, no ataque, com posse de bola, sem posse de bola, jogando por um gol, jogando por dez gols…

Lembrando que, por ser um esporte imprevisível, nem sempre a estratégia planejada é cumprida, uma série de fatores pode alterar o destino do confronto: a falta de qualidade, o clima, o psicológico, o gramado, o erro individual, a má fase de um jogador… E isso pode sim fazer com que o time tenha uma atuação terrível para nossos olhos e é preciso que nós da imprensa, nós analistas, sejamos sinceros, sem passar pano, mesmo que o resultado tenha sido positivo.

O que não podemos é desqualificar a vitória de A ou de B pelo fato de o jogo apresentado não ter agradado. Os três pontos foram conquistados, o adversário foi batido e dias de tranquilidade foram garantidos. Já fui intolerante em relação a alguns estilos de jogo, critiquei o ‘jogo feio’ que ganhou e lamentei o ‘jogo bonito’ que perdeu, achava que era uma injustiça, que isso perpetuaria uma estética triste para o futebol.

No entanto, depois de muito pensar, de muito ler, de muito assistir aos jogos, eu deixei de lado esse pensamento mimado, ditatorial. Há beleza em todos os tipos de vitória, além disso, para um time bater o outro, precisa ter sido superior em algo, certo? E o que me incomoda(va), na verdade, é(era) a parcialidade da análise. Não posso julgar clube A de um jeito e clube B de outro, ou seja, se A ganhava jogando feio, tudo bem, se B passou a vencer com o mesmo estilo, não vale mais. Isso é desonesto, e aponta pobreza em nosso jornalismo esportivo.

Esse tipo de jornalismo é o mesmo que analisa uma partida que não assistiu, é o mesmo que aponta um atleta como o melhor da posição no país após dois ou três bons jogos de estadual, é o mesmo que dizia que o São Paulo montou um elenco do mesmo nivel de Flamengo e Palmeiras, é o mesmo que monta rankings inacreditáveis, é o mesmo que passa pano para os equívocos de Tite pelo fato de ele ter o tatiquês fluente. São esses que tentam impor regras na maneira com que o torcedor enxerga futebol, que emitem opinião como se fossem isentos, como se nao tivessem ligação sentimental com clubes.

O torcedor não é burro, o torcedor não é bobo, e cada vez mais ele sabe quem é a pessoa que está ali posando como dono da verdade, da sabedoria. Nossa função, do lado de cá, é transmitir o máximo de verdade possível, é mastigar os conceitos e conteúdos para o fácil entendimento do leitor, do ouvinte ou do telespectador, é fazer com que eles possam ter liberdade e elementos para formular uma visão do esporte, ou mesmo se eles quiserem apenas torcer, nada mais.

Há beleza em todas as formas de se conquistar uma vitória (menos roubando, é claro), seja jogando bonito, seja jogando feio. O que não é aceitável é o menosprezo pelo triunfo daqueles que não te agradam. Aceite, seu conceito perdeu, mas em algum momento vai ganhar. O torcedor vai comemorar os três pontos, a classificação, vai tripudiar do adversário, de qualquer maneira, e isso é o bacana do futebol, que não tem pontuação extra para o estilo mais belo, e nem tira ponto do horroroso.

Obs.: As opiniões contidas nesse texto pertencem apenas ao autor.



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