Análise conveniente da Florida Cup expõe falta de respeito pela inteligência do torcedor



De virada, Corinthians foi derrotado pelo Rangers, em partida da Florida Cup (Foto: Divulgação)

Corinthians e Rangers duelaram pela Florida Cup no último sábado. Enquanto na primeira etapa, com os titulares, o Timão venceu por 2 a 0, no segundo tempo, com os reservas, levou a virada e foi derrotado por 4 a 2. Ficou evidente a diferença de nível entre as duas metades da partida. Os titulares fizeram uma boa partida e foram superiores, já os suplentes ficaram devendo, e muito. No entanto, o que chamou a atenção foi a mudança no teor da análise do torneio, por parte da mídia especializada, de acordo com a reviravolta no placar.

Desde já é bom ficar claro que não se trata de uma crítica à opinião de torcedor, já que ele está em seu papel, a paixão fala mais alto, natural que as considerações sejam baseadas pelo ponto de vista do time que mora em seu coração. Mas a partir do momento em que a distorção começa a vir daqueles que são pagos para analisarem imparcialmente, não dá para deixar de criticar.

Eu mesmo, autor deste texto e responsável por este blog, já passei dos limites e emiti uma opinião leviana que deveria ter guardado para uma roda de amigos. Me arrependi, pedi desculpas e tirei como lição. Até porque, lá atrás, quando decidi vir para este lado da força, meu objetivo era ser diferente dos absurdos que via alguns profissionais proferirem e acabei, nessa ocasião, me igualando a eles.

Diante do meu inconformismo sobre o que li e ouvi, abri o meu Twitter e descrevi, de forma resumida e comprimida, as diferentes reações dos personagens em questão na mesma partida. Uma com vitória do Corinthians, a outra já com a derrota iminente. O torneio que era descrito como um excelente teste, passou a ser taxado como apenas um amistoso, que não poderia ser usado como parâmetro. Houve até quem desaparecesse na metade final.

Para a minha surpresa, o meu tweet rapidamente se espalhou pelas timelines e, entre curtidas e retweetadas, foi acionado mais de 1,5 mil vezes, com quase 68 mil impressões (até o momento deste post). O mais curioso dessa disseminação não tem a ver com os números, mas sim com a variedade de torcedores envolvidos. Vi curtidas de palmeirenses (maioria), são-paulinos, santistas, flamenguistas, cruzeirenses, atleticanos, gremistas, e até corintianos, cientes do absurdo.

De certa forma, sem querer, acabei confirmando uma teoria que já tenho há vários anos: o ouvinte/leitor/telespectador não aceita mais qualquer coisa que tentem colocar goela abaixo. Com as redes sociais e as facilidades tecnológicas, todos têm acesso ao que fulano fala em um momento e em seguida muda de opinião, ou a utilização de um peso e duas medidas. E o pior, todos veem que o cidadão nem se preocupa em se explicar, mostrando total desrespeito ao receptor.

Por que a Florida Cup só serve quando o placar é favorável à sua preferência? Por que ela passa a ser inútil quando o placar é adverso? E se os reservas tivessem segurado ou ampliado o marcador? Qual seria a reação? A desculpa do time reformulado seria abolida? Por essas e outras é que acredito que o torneio é inconclusivo em qualquer situação. Em que outra competição a equipe jogará com uma formação em cada etapa e contra adversários em situação tão distinta?

Não posso julgar o desempenho do time e de atletas, e tirar conclusões de qualquer jogo em um torneio tão atípico quanto esse. Lembrando que o Corinthians não tem nem dez dias de treinamento, está em pré-temporada, não fechou seu elenco… É muito injusto dizer que foi bem ou que foi mal. Vale rememorar que, no ano passado, a Florida Cup foi vencida pelo São Paulo, após dois 0 a 0. O vice foi justamente o Timão.

E o que aconteceu no restante da temporada? O Tricolor paulista fez um ano que beirou o ridículo, apesar de, mais uma vez, parte da mídia especializada na cobertura do clube tenha tentado vender uma ideia que nunca foi real, de um time que jogava bola, mas perdia por detalhes. O curioso é que esses detalhes originaram uma briga contra o rebaixamento no Brasileirão, vencido com sobras pelo Corinthians, que no início de 2017 era considerado a 4ª força do estado.

A cobertura corintiana está longe de ser a única com essas peculiaridades que fazem tão mal para o debate esportivo, quem estiver lendo esse texto certamente vai se lembrar de uma situação ou outra relacionada a outros clubes. Se não viu, passe a acompanhar Twitter e afins, com certeza irá encontrar esses personagens vestindo capa de isentos. Eles não são raros. A utilização da Florida Cup como exemplo é apenas por ser o acontecimento mais recente.

O futebol brasileiro vive, ano após ano, um mundo de expectativas assim que a temporada começa. Torcedores renovam as suas esperanças e encontram motivações para acreditarem em conquistas, mesmo que a realidade não corresponda ao que foi criado no imaginário. Mas isso é função, repito, do torcedor, é ele o consumidor e nosso dever, como jornalista ou profissional de mídia, é nos afastarmos dessas premissas.

A esperança é de que em 2018 cada macaco esteja em seu galho, que César receba o que é de César e que sejamos mais honestos com os leitores, com os telespectadores e com os ouvintes, porque o nosso compromisso é com a verdade, com a realidade, não com o nosso coração ou com os nossos ídolos.

* As opiniões expressas neste espaço pertencem apenas ao autor



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