Zidane deixa o Real. A saída de um Campeão que choca o mundo.



Zinedine Zidane anunciou sua saída do Real Madrid. Ele surpreendeu seus companheiros de comissão técnica, os jogadores, o presidente Florentino Pérez, a mídia, os torcedores do Real e aos amantes do futebol no mundo inteiro. Afinal, cinco dias atrás o Real Madrid, sob seu comando, conquistou a terceira Champions League consecutiva, feito alcançado apenas pelo Ajax de Johan Cruyff e o Bayern de Munique de Franz Beckenbauer, indicando a trilha – improvável nos tempos atuais – que levou o mesmo Real de Alfredo Di Stéfano ao hexa da competição na década de 50 do século passado.

A decisão de Zidane “caiu como uma bomba no vestiário do Real Madrid”, segundo o diário esportivo Marca. Zidane fez questão de expor pessoalmente seus motivos a duas pessoas do clube antes da entrevista coletiva: o capitão Sérgio Ramos e o próprio presidente Florentino Pérez.

A estupefação de todos tem a ver com a constatação de que Zidane detinha o controle do vestiário e o apoio incondicional do grupo mais restrito de líderes do elenco formado por Sergio Ramos, Marcelo, Casemiro, Keylor, Modric, Varane, Benzema e Cristiano Ronaldo. Naquele ambiente uma eventual saída de Cristiano Ronaldo não pegaria ninguém de surpresa, mas a de Zidane?

As palavras de Marcelo resumem a importância de Zidane para cada uma das estrelas do Real: “aprendi muito com você. Eu gostava, como uma criança, de cada treinamento, cada prancha. Você é muito especial para mim! Você fez história com seu trabalho, sua dedicação, sua paixão e acima de tudo sua humildade! Obrigado, senhor!”

O presidente Florentino Pérez reagiu com resignação: “Zinedine veio me ver na quarta-feira e me comunicou uma decisão inesperada. Quando ele toma uma decisão, só podemos aceitá-la. Fiquei chocado, mas transmito a ele todo o meu carinho. O Real sempre será sua casa”.

Florentino Perez, o presidente que acreditou em Zidane, admitiu o choque com a decisão de ZZ (foto – realmadrid.com)

Tudo indica que Zidane se convenceu de que os 9 títulos¹ conquistados nos 2 anos e meio que esteve na função não seriam capazes de superar as dificuldades que ele percebia se aprofundarem ao seu redor. Ele pode ter percebido que rusgas como as que surgiram neste período com Álvaro Moratta e James Rodriguez poderiam se agravar, se multiplicar e comprometer a competitividade da equipe. Como ele próprio assinalou “a equipe precisa mudar para seguir ganhando”.

Zidane é uma pessoa discreta, contida, mas sujeita a rompantes indecifráveis. Como explicar a entrada desleal num jogador da Arábia Saudita numa partida resolvida para a seleção francesa na Copa da França e que lhe custou uma expulsão justa, mas absurda? Ou a cabeçada em Materazzi na final da Copa da Alemanha que se revelou catastrófica e determinante para a perda do título pela seleção francesa?

Zidane é um dos mais impactantes e vitoriosos personagens da história do futebol. Foi um super craque em campo e se mostrou um campeão na função de técnico. Segundo uma pesquisa pela internet que está sendo realizada pelo diário francês L’Équipe, 69% dos mais de 28 mil votantes o classificam como o “maior jogador francês da história”.

Zidane assumiu o cargo de técnico do Real Madrid no dia 4 de janeiro de 2016 e o exerceu por 879 dias. Ele manteve a maior série de invencibilidade em todas as competições para um técnico do Real Madrid com 40 partidas entre abril de 2016 e janeiro de 2017.

Zinedine Zidane repetiu este gesto 3 vezes em pouco mais de 2 anos (foto – AFP – Filppo Monteforte)

Entre 2016 e 2017 ele igualou a marca de 16 vitórias consecutivas num campeonato nacional que o Barcelona de Pep Guardiola alcançara na temporada 2010/11.

Seu Real Madrid superou 18 confrontos diretos nas fases decisivas na conquista das 3 Champions League.

Sob seu comando o Real Madrid assinalou 393 gols em 149 jogos atingindo a média de 2.6 gols por partida.

O Real venceu 104 dos 149 jogos em que Zidane o dirigiu, com 70% das vitórias, sofreu 16 derrotas e empatou 29 vezes.

ZZ, como o chama o L’Équipe, definiu a derrota para o Leganés pela Copa do Rei,  em janeiro deste ano, como o momento mais sofrido neste período e admite que a partir dali passou a refletir sobre seu futuro na função. Ele também revelou que a melhor lembrança o remete ao dia em que Florentino Perez o convidou para ser o técnico do Real Madrid.

Os jornalistas presentes à entrevista desta manhã aplaudiram Zidane antes mesmo que ele se levantasse para deixar a sala de imprensa do Real Madrid.

Não foi uma decisão fácil para Zidane. Ele a comunicou ao mundo sem a companhia dos filhos que estavam a seu lado na sua apresentação como técnico do clube em janeiro de 2016. Sua solidão no anúncio de hoje talvez nos indique o que ele sentia ao tornar público sua decisão unilateral e irrevogável de deixar o clube 13 vezes campeão da Europa. Como escreve o cronista Jesús Sanchez do Marca “um terremoto se suporta melhor conquistando Copas da Europa”.

E , agora? Será que esta decisão influenciará o futuro de Cristiano Ronaldo? Como reagirá o vestiário do clube mais poderoso do mundo sem o seu grande líder?

O Real Madrid está diante do desafio exclusivo dos vitoriosos: administrar o sucesso.

 

¹ 1 La Liga, 1 Supercopa da Espanha, 3 Champions League, 2 Supercopa da UEFA, 2 Mundial de Clubes da FIFA, 1 título de melhor técnico da ano eleito pela FIFA.

 

 

 



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