Temas extraídos de uma noite de Champions League



Os dois jogos desta quarta-feira pelas quartas de final da Champions League 2014/15 colocam 5 temas que merecem ser analisados por quem curte futebol.

1- Os golaços de Suárez iluminam Paris

Luis Suárez viveu uma noite parisiense que por certo ficará marcada na sua já consagrada carreira de artilheiro internacional. O excêntrico goleador uruguaio assinalou dois gols espetaculares contra o PSG em pleno Parc des Princes. Foram duas jogadas individuais brilhantes, reveladoras de dotes técnicos excepcionais e virtudes raras combinadas tais como a excelência técnica, a velocidade, o domínio da bola, a sutileza do drible, a noção exata do tempo, o instinto do goleador para superar duas vezes com facilidade quase humilhante o zagueiro brasileiro David Luiz e assinalar dois tentos para um  impressionante Barcelona.

Suárez teve noite Ronaldinho em Paris (foto - site oficial do FC Barcelona)

Suárez teve noite Ronaldinho em Paris (foto – site oficial do FC Barcelona)

Neymar também marcou o seu e jogou em alto nível. Messi, o extra-terrestre, viveu uma jornada digna, mas mortal. Contra o PSG, na “cidade da luz”, foi Suárez, acima de todos, que fez história justificando o “S” do transcendental MSN barcelonista. Suárez experimentou uma noite de Ronaldinho, o “Eterno Rei” daquele estádio.

2- Neymar provou de novo que é vital para o Barcelona

Neymar é o astro principal da Seleção Brasileira. Não há contestação. O time joga para ele que exerce sua liderança de maneira incontestável em campo. Ele é o protagonista e, a cada jogo, reforça este papel.

No Barcelona, entretanto, Neymar foi obrigado a reconhecer, antes de qualquer coisa, que Lionel Messi é aquilo que ele é na Seleção Brasileira. Com inteligência e rara humildade em jogadores de seu calibre ele já se firmou como um jogador vital para Messi e para o time. Ontem, por exemplo, apenas Busquets (11.25 km) e Alba (11.02 km) correram mais do que ele (10.92 km) durante a partida. Sua aplicação tática, seu comprometimento com as funções determinadas pelo técnico Luis Enrique e o entrosamento cada vez maior com Luis Suárez e Lionel Messi estão fazendo dele um jogador ainda mais completo e maduro e o MSN um trio cada vez mais diabólico e imparável para os adversários.

Neymar fez gol e jogou para o time em Paris (foto: site oficial do FC Barcelona)

Neymar fez gol e jogou para o time em Paris (foto: site oficial do FC Barcelona)

3- Mais uma dura lição para David Luiz

A decisão de aproveitar David Luiz no PSG na partida de ontem se revelou uma das mais desastradas da carreira do técnico Laurent Blanc. Parece lógico que o técnico francês não pretendia colocá-lo em campo desde os 20 minutos do primeiro tempo, mas o fez e deve estar profundamente arrependido, ainda que tenha se declarado satisfeito com o esforço da equipe durante a partida.

David Luiz já provou ser um grande jogador de futebol, um zagueiro de qualidade internacional e alguém capaz de cumprir outras funções numa equipe, inclusive sendo decisivo em cobranças de falta e em jogadas aéreas defensivas e ofensivas. Mas está cada vez mais claro também que, dependendo de sua condição física e de seu momento psicológico, David Luiz pode ser um jogador desastrado e vulnerável, características incompatíveis com as responsabilidades de um zagueiro. Foi assim na Copa do Mundo e foi assim, ontem, no PSG, também. David Luiz provou não saber lidar com seus limites.

David Luiz entrou aos 21 do primeiro tempo  (foto: site oficial do PSG)

David Luiz entrou aos 21 do primeiro tempo (foto: site oficial do PSG)

Após o jogo ele confirmou ter trabalhado na sua recuperação 12 horas por dia com um fisioterapeuta brasileiro radicado na Rússia e que aplica uma nova técnica desenvolvida em mais de 5 anos de pesquisa. São os fatos. Mas o problema no seu caso específico é que não bastou ele estar curado da lesão. Ele precisava estar recuperado física, técnica e psicologicamente para voltar a jogar uma partida contra um adversário tão poderoso como o Barcelona.

Tomara que definitivamente David Luiz aprenda a conviver com suas virtudes e principalmente com suas limitações. A lição de ontem em Paris não pode passar em vão para ele e deve ser aproveitada também pelo técnico Dunga da Seleção Brasileira.

4- Os desfalques do Bayern de Munique não podem ser normais

A Champions League é a competição mais almejada pelos grandes clubes europeus. Ela pode determinar o tamanho do sucesso esportivo e financeiro dos clubes a cada temporada. É para ela que todos se preparam e direcionam os maiores esforços. Sendo assim não pode ser normal que um clube com a estrutura do FC Bayern de Munique entre em campo para uma partida de quartas de final desfalcado de Alaba, Schweinsteiger, Robben e Ribèry por problemas de contusão. Sua situação na Bundesliga sempre foi tão confortável – com 10 pontos de vantagem sobre o Wolfsburg, segundo colocado – que algo poderia ter sido feito para impedir uma lista tão pesada de desfalques numa fase tão decisiva da Champions League.

Thiago Alcântara mantem vivas as esperanças do Bayern (foto: site oficial do FC Bayern)

O gol de Thiago Alcântara (6) manteve vivas as esperanças do Bayern (foto: site oficial do FC Bayern)

Pois foi assim que o time de Pep Guardiola foi à cidade do Porto enfrentar a única equipe invicta da competição. O placar de 3 a 1 para o clube português foi merecido – apesar dos 69% de posse de bola do Bayern – mas não encerra a disputa pela vaga nas semifinais. Ainda mais por que é improvável que tantos erros individuais de seus zagueiros – Dante e Boateng – se reproduzam em Munique e considerando que os laterais brasileiros Danilo e Alex Sandro não poderão jogar pelo Porto em função do cartão amarelo que receberam na partida de ontem.

5- 15 brasileiros numa noite de Champions League.

Os obcecados pela tese da decadência irremediável da qualidade dos jogadores brasileiros devem ter alguma explicação mirabolante. Numa rodada de Champions League em que dois dos principais candidatos ao título – Barcelona e Bayern – estiveram envolvidos, nada menos do que 15 brasileiros estiveram em campo (sem contar Thiago Alcântara): Fabiano, Danilo, Maicon, Alex Sandro, Casemiro, Evandro, Dante, Rafinha, Thiago Silva, Marquinhos, David Luiz, Maxwell, Lucas, Neymar e Adriano.

Danilo é um dos destaques do Porto na temporada ( foto - site oficial do FC Porto)

Danilo é um dos destaques do Porto  ( foto – site oficial do FC Porto)

É verdade que nem todos brilharam na noite de ontem como Neymar, Danilo ou Casemiro, mas um futebol que gera esta quantidade de participantes numa etapa tão decisiva da maior competição de clubes do planeta não pode estar tão decadente quanto tanta gente apregoa por aqui.



  • Henrique

    Luiz Augusto,
    Muito bons os seus pontos e divagacoes. So’ discordo do ultimo. Acho que poucos discutem o valor individual de jogadores brasileiros, apesar de nao termos um melhor do mundo ha tempos. Os jogadores brasileiros de primeira linha movem Mercado e jogam em times decisivos, e decisivamente. A decadencia que se apregoa e’ do sistema brasileiro de formacao de tecnicos, retencao de craques, desenvolvimento de campeonatos, e ate de publico em campeonatos caca-niquel sem nenhum valor tecnico, simplesmente sentimental. E, nao e’ de hoje, os tecnicos brasileiros sao bons somente no Brasil e no Oriente Medio. Esta e’ a decadencia; nao o talent individual.

    • Luiz Augusto Veloso

      Não menosprezemos que o talento individual dos jogadores brasileiros depende também do trabalho realizado nas divisões de base dos clubes. Jogador de futebol não é fruta que dá em árvore. Há vocação é fato, mas desde sempre, os clubes brasileiros produziram grandes jogadores e continuam a fazê-lo. O trabalho é perfeito? Não, pode e deve ser continuamente aprimorado, mas negá-lo é tão errado quanto entendê-lo como intocável. Não há futebol no mundo que se autodeprecie mais do que o brasileiro.
      A questão da formação dos técnicos é intrigante. Nunca houve no Brasil tantos técnicos com formação acadêmica quanto atualmente. Isto significou elevação no padrão médio deles, notadamente nas divisões de base? Tenho dúvida…
      Para terminar: quando os técnicos brasileiros fizeram sucesso na Europa, salvo Oto Glória e Felipão em Portugal?

      • Henrique

        Concordo plenamente sobre a formacao de atletas. Acho, inclusive, que e’ muito bem feita. Infelizmente clubes como Vitoria, Goias, etc. tem grandes escolas formadoras mas mandam seus craques diretamente ao exterior. O esforco sobre humano que o Santos fez para manter Neymar no Brasil e’ louvavel, e a triste excecao que confirma a regra. No meu time de coracao, Fluminense, ja’ vi jogadores sendo vendidos antes mesmo de assinarem contrato profissional, que hoje estao arrebentando em times de primeira linha; mas tambem vi muitos que estao se arrebentando para viver de futebol profissional em times de Terceira na Europa sem ter muita base tecnica. Meu problema nao e’ a formacao de craques, e’ a manutencao deles em territorio nacional por tempo o suficiente para formarem uma identificacao com o pais e o time.
        Quanto aa tecnicos, talvez a formacao academica seja falha, nao sei julgar. O fato de outros tecnicos brasileiros de outrora nao fazerem sucesso na Europa nao influencia no presente. Antigamente raros tecnicos tinham essa formacao. Hoje em dia, ja que essa formacao existe, e inquestionavelmente esta mudando o jeito como se joga futebol, eu creio que o Brasil esta’, sim, sendo ultrapassado. A formacao e’ muito mais relevante hoje em dia.
        Futebol, tambem, e um negocio, e os times brasileiros ainda nao conseguiram usar o marketing direito. Eu moro nos EUA, e a televisao aqui passa jogos da Europa, claro, mas tambem passa da Argentina, Mexico, e as vezes da copa da Asia. Nada do Brasil. Estamos ficando para tras.
        E’ verdade que entre 1970-1994 nos nao ganhamos nenhuma copa. Mas aqueles 24 anos nao se comparam com esses: hoje em dia a tecnologia e o marketing demandam aprimoramento muito mais veloz. E, nos estamos ficando para tras.
        Nao e’ o fim do mundo, nao e’ incontornavel: com um pouquinho de planejamento e boa vontade nos retornaremos a ter (ou finalmente poderemos ter) campeonatos rentaveis e selecoes confiaveis. Eu acho que e’ isso que voce quis dizer: que o mundo nao esta perdido por causa de um 7×1. Mas, se nos nao fizermos nada para melhorar, ou, pelo menos, acompanahar as mudancas do futebol mundial, nos vamos ter que nos contentar com a individualidade dos nossos craques. E vamos ficar para tras.

MaisRecentes

Roma contrata Monchi, o “Rei Midas” do futebol europeu



Continue Lendo

Até a mídia de Madri se rendeu a Lionel Messi



Continue Lendo

Florentino Perez sonhou com Adriano Galliani no Real Madrid



Continue Lendo