Sinal dos tempos: até o Bayern de Munique demite técnico no início de temporada



O mundo do futebol reagiu com perplexidade ao anúncio da demissão do técnico Carlo Ancelotti pela direção do Bayern de Munique no dia seguinte à derrota para o PSG por 3 a 0 em Paris semana passada. Esta foi a primeira vez na carreira do técnico italiano que ele teve seu contrato rescindido no meio de uma temporada. E foi apenas a segunda vez que o clube alemão demitiu um técnico nos primeiros meses de uma temporada. A primeira ocorreu em 30 de agosto de 1945 quando Alfred Schaffer foi encontrado morto num trem em circunstâncias misteriosas e jamais esclarecidas.

O espanto tem razão de ser. O Bayern de Munique sempre foi reconhecido pela maneira cuidadosa com que planejou seus negócios. A contratação de Pep Guardiola, por exemplo, foi decidida logo que Jupp Heynckes decidiu que não continuaria no clube, antes mesmo de conquistar a tríplice coroa na temporada 2012/13. Ela foi precedida de várias reuniões em Nova York onde ele residia durante um período sabático. Tudo foi discutido por Guardiola, o presidente do clube Uli Hoeness e o vice presidente Karl-Heinz Rummenigge: estilo de jogo que seria adotado, métodos de trabalho, metas em termos de conquistas, política de contratação de jogadores e composição da comissão técnica.

Carlo Ancelotti tem 58 anos (foto - fcbayern.com)

Carlo Ancelotti tem 58 anos (foto – fcbayern.com)

As razões para a ruptura do contrato de Ancelotti não estão apenas relacionadas aos maus resultados deste início da temporada 2017/18. Muito menos apenas à derrota para o PSG na última semana, até por que o Bayern jamais venceu naquele estádio.

Informações de que os métodos de treinamento de Ancelotti se revelaram ultrapassados apareceram na mídia europeia.O presidente Uli Hoeness, em entrevista a uma rádio de Munique, alegou que Ancelotti perdera a confiança dos líderes do vestiário do clube : “aprendi uma coisa muito importante em minha vida: seu inimigo mais poderoso é aquele que está na sua cama. Foi por isto que agimos”.

Hoeness sempre foi um dirigente de posições firmes, mas planejadas (foto - fcbayern.com)

Hoeness sempre foi um dirigente de posições firmes, mas planejadas (foto – fcbayern.com)

A ideia de que um motim dos principais atletas fulminou o destino de Ancelotti gerou perplexidade na mídia alemã. Afinal, dentre os líderes do elenco do clube mais poderoso alemão, estão Frank Ribéry, Arjen Robben, Thomas Müller e Jérôme Boateng. Como estes jogadores, que estiveram recentemente ausentes por problemas físicos e rendendo menos do que o fizeram noutras épocas, poderiam desafiar e abalar o comando de Ancelotti?

Críticas aos métodos de trabalho e à qualidade dos treinamentos, taxados de ultrapassados, monótonos e de pouca intensidade vieram à tona nas últimas horas, inclusive com a informação publicada pela revista alemã Kicker de que vários jogadores treinavam em locais e horários desconhecidos de Ancelotti. A matéria também afirma que Thiago Alcântara e James Rodriguez desfrutavam de uma relação privilegiada com Ancelotti a ponto de fazerem refeições com ele sem a companhia de outros jogadores do elenco.

O fato é que mesmo um clube tradicional e com uma gestão culturalmente mais racional como Bayern vem sendo dragado pela concepção imediatista relacionada aos resultados em campo. Em todos os países os períodos de trabalho dos técnicos são cada vez mais curtos e determinados pela performance das equipes nas competições. Neste ambiente, as dificuldades naturais de relacionamento entre o técnico e um elenco milionário, repleto de estrelas com níveis diferentes de ambição e relacionamento se aprofundam e se tornam muitas vezes quase ingovernáveis.Bayern 2015

Ancelotti vem se comportando com a elegância e a discrição de sempre diante de sua abrupta exoneração. Nesta segunda-feira, ele visitou Jerusalem em Israel a convite da ONG “Assitência para a paz” quando se encontrou com crianças cristãs, muçulmanas e judias. Ele esclareceu que relaxará pelos próximos 10 meses e se negou a tecer qualquer comentário sobre as circunstâncias que determinaram sua demissão.

A verdade dos tempos atuais é que mesmo um técnico tão vencedor quanto Ancelotti, tricampeão da Champions League pelo Milan (2) e Real Madrid, está vulnerável. O que vale é o sucesso do agora.

Os dirigentes do Bayern desta vez falharam gravemente ao estender a permanência do italiano à frente da equipe por tanto tempo. Se é verdade que sabiam de seu desgaste junto a jogadores importantes e consideravam ultrapassados seus métodos de treinamento por que esperaram tanto tempo para decidir pela sua saída?

O empate por 2 a 2 contra o Hertha Berlin no último sábado não estava nos planos Hoeness e Rummenigge e pode ter contribuído para reforçar a tese de que eles devem urgentemente começar a planejar o rejuvenescimento do elenco e a decidir logo quem substituirá Ancelotti. Estes senhores não devem estar confortáveis com os 5 pontos de distância do Borussia Dortmund, líder da Bundesliga.

 

 



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