Sampaoli no “Marca” – “No Chile conseguimos uma entrega total de todos ao coletivo”



 

O jornalista Juan Castro do site do diário “Marca” – www.marca.com – é o autor da façanha. Ele conseguiu que o técnico Jorge Sampaoli concedesse uma entrevista exclusiva em sua residência de Santiago enquanto começava a ler os mais de 500 emails que recebeu depois da conquista do título inédito para o Chile de Campeão da Copa América.

Sampaoli se revela menos elétrico do que se comporta à beira do gramado, com os pés no chão quanto ao futuro e não deixa de revelar o pragmatismo com o que se comportou diante do episódio do acidente que envolveu o craque Vidal no meio da competição.

Pela entrevista, que foi publicada nesta segunda-feira no site do “Marca”, fica evidente que Sampaoli pretende um dia trabalhar num clube europeu. Talvez por isto tenha concordado em conceder seu único pronunciamento público após a conquista do título exatamente para a imprensa espanhola.

A Copa América 2015 é o segundo título continental do técnico argentino. O primeiro foi a Copa Sul-Americana pela La Universidad de Chile em 2011.

Sampaoli já trabalhou em clubes do Peru (Juan Aurich, Sport Boys, Coronel Bolognesi e Sporting Cristal) do Equador (Emelec) e do Chile (O’Higgins e Universidad de Chile). Ele assumiu a seleção chilena em 2012.

Jorge Sampaoli tem 55 anos (foto - Cris Bouroncle - AFP)

Jorge Sampaoli tem 55 anos e conquistou 3 campeonatos chilenos antes de chegar à seleção  (foto – Cris Bouroncle – AFP)

Marca- Você já assistiu a final de novo?

JS- Sim, duas vezes. Já a analisei com calma.

Marca – Você continua achando que foram superiores?

JS- Entendo que propusemos mais o jogo que a Argentina e que eles apostaram em se defender e jogar nos contra-ataques. Não sofremos por conta da velocidade ou da habilidade deles. As transições sempre acabaram nos nossos pés. Fomos melhores na ocupação dos espaços. Eles esperaram pelo nosso erro.

Marca- O quanto você pensou em como se defender de Messi?

JS- A marcação tinha que ser feita no setor por onde ele entrava. Nós nos defendemos por zona. Dependia se ele vinha pela direita ou pela esquerda. A ideia era interceptá-lo antes que conduzisse a bola. Levou vantagem uma vez e quase marcou o gol aos 45 minutos do segundo tempo. Messi não permite que você cometa um só erro. Estou muito contente por tê-lo enfrentado sem jogadores especialistas na defesa, colocando volantes como zagueiros e com muita inteligência.

Marca- Você achou que aquela bola do Higuaín no último minuto tinha entrado?

JS- Sim, eu a vi dentro do gol. Já quando Messi arrancou eu a vi dentro. Foi daquelas jogadas do Leo em que ele muda o ritmo e avança sobre defensores desprotegidos. Quase sempre é gol. Tivemos sorte.

Higuaín por pouco não faz o gol do título com a bola rolando (foto - AFP

Higuaín por pouco não faz o gol do título numa jogada genial  de Lionel Messi  (foto – AFP)

Marca- Gary Medel merecia o cartão vermelho por aquela entrada em Messi?

JS- Gary errou. Quando sai para a cobertura ele tem qualidades para pará-lo de outra forma, sem a necessidade da falta. Ele quis se antecipar e perdeu o equilíbrio. Dito isto, a Copa de Gary foi extraordinária.

Marca- Sua ideia de futebol é realizável com craques ou só com “soldados”?

JS- Não importa a qualidade do jogador. Precisamos do convencimento dos jogadores. Se não, é impossível. Devo persuadi-los. No Chile conseguimos uma entrega total de todos ao coletivo: dobrar o tempo de treinamento, muitas reuniões… Ser protagonista do jogo requer muita explicação.

Lionel Messi teve marcação planejada na decisão (foto - Juan Abromata - AFP)

Lionel Messi teve marcação planejada na decisão contra o Chile (foto – Juan Abromata – AFP)

Marca- Você se inspira em Marcelo Bielsa?

JS- Conservo dele a ideia de querer jogar contra qualquer rival onde quer que seja. De igual para igual. Mas ele joga mais direto e não com tanta posse de bola quanto eu busco agora. Eu procuro mais o ataque e que tudo sempre se inicie com o goleiro seja contra a pressão alta, baixa ou intermediária. No fundo é a mesma coisa, mas a forma é diferente. Na minha época de “La U” do Chile eu era mais parecido com ele.

Marca- Marcelo o cumprimentou pelo título?

JS- Não. Não tenho contato com ele.

Marca- Foi difícil para você manter Vidal na concentração?

JS- Nem tanto. Ele teve um acidente num dia de folga e se atrasou na volta à concentração. É a justiça que está apurando o que aconteceu, se ele deve pagar por isto. Eu avaliei e Vidal tem um compromisso tão importante nos treinamentos que nos convencemos de que ele não deveria ser excluído de um torneio tão importante por aquele erro. Outra coisa é se ele for punido pela Federação, agora em outro nível. Os dirigentes avaliarão. Mas não vi razões para excluí-lo da equipe.

Marca- Por que Aránguiz não joga na Europa?

JS- Não apenas isto. Não consigo entender por que ele ainda não joga num grande clube da Europa. Não conheço muitos meias mistos (que marca e joga) como ele no mundo.

Marca- Você não participou da comemoração da equipe com a presidenta Michelle Bachelet. Por que?

JS- Achei que era uma coisa mais dos jogadores, mais deles com o País. Não me senti tão parte daquela celebração. Fazia mais sentido que eles estivessem entre eles, com sua gente e sua bandeira. Eles eram os heróis.

Sampaoli não participou da comemoração dos jogadores com a presidenta Bachellet (foto - AFP)

Sampaoli não participou da comemoração dos jogadores com a presidenta Bachelet (foto – AFP)

Marca- Quantas pessoas cumprimentaram você?

JS- Recebi mais de 500 emails, mais de 500 mensagens. Ainda não tive tempo de responder a nenhum. É incrível como as pessoas deram importância à conquista e a comemoraram, como a Espanha fez na vez dela.

Marca- Alguma mensagem da Espanha? Você tem amigos aqui?

JS- Sim, converso muito com Juan Manuel Lillo (1). Tenho falado muito com ele. Eu o considero um gênio no conceitual. Cada conversa com “Juanna” faz você pensar sobre este esporte. É um prazer escutá-lo. Eu aprendo sempre.

Marca- Você se sente um  “avis rara” do futebol? Não tem nem agente, por exemplo.

JS- Nunca tive. Falo diretamente com os presidentes ou as federações. É raro? Pode ser, nunca fui um jogador famoso e por isto eu sempre me dirijo aos jogadores tentando passar uma ideia, não por ter uma cara famosa. Assim é mais difícil. Não tenho direito a errar nunca.

Sampaoli: " A Copa de Gary Medel foi extraordinária". (foto - site oficial da Conmebol)

Sampaoli: ” A Copa de Gary Medel foi extraordinária”. (foto – site oficial da Conmebol)

Marca- Você tem contrato com o Chile até 2018. Você vai cumpri-lo?

JS- Tenho contrato, mas há determinadas situações que precisamos avaliar e ver como ficam. O título da Copa também merece ser analisado.

Marca- Em que sentido?

JS- Avaliar se a gente pode melhorar, se há desafios para os jogadores, se seguimos úteis ou não. Temos que ver tudo isto com muita tranquilidade, e que existe um contrato. Vamos tratar de tudo isto em breve. Há limites que devemos avaliar e assim faremos.

Marca- Você vai receber muitas propostas da Europa.

JS- Certamente, sim. Nas a pré-temporada já começou na Europa e não é fácil que as coisas aconteçam. Além disto, tenho um compromisso com o Chile até 2018. Tudo será visto a seu tempo.

Marca- Como você descansa no dia seguinte?

JS- Complicado. Vejo o jogo, o revejo, penso no que pode melhorar, as mudanças. Vejo um filme. Tento restabelecer a calma. Foi um mês muito estressante. A comemoração já terminou e eu sigo em frente, não paro.

(1) – Juan Mauel Lillo é um técnico de futebol espanhol. Ele já dirigiu vários clubes espanhóis, colombianos e mexicanos. Pep Guardiola já declarou que “Cruyff e Lillo são as pessoas que mais me influenciaram no futebol”. Lillo também já foi comentarista de futebol na TV>



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