Os vikings da Islândia desbravam a EURO e se preparam para encarar a França



Neste 27 de junho de 2016 o futebol internacional viveu um de seus capítulos mais espetaculares com a vitória surpreendente da Islândia sobre a Inglaterra por 2 a 1. Os “vikings”¹ do futebol estão classificados para enfrentar a França anfitriã, no próximo domingo, em Paris, pelas quartas de final da EURO 2016. O time do país que inventou o futebol e que tem a liga mais poderosa no planeta voltará mais cedo para casa do outro lado do Canal da Macha.

Trata-se de um novo capítulo emocionante do extraordinário trabalho que vem sendo feito para desenvolver o futebol no distante país nórdico localizado no Atlântico Norte com uma população de apenas 323 mil habitantes.

Esta seleção islandesa representa o país com a menor população envolvido na competição e que é composto por uma ilha do mesmo nome e de algumas outras pequenas ilhas localizadas entre a Europa continental e a Groenlândia.

A celebração da classificação junto com os torcedores (foto - Paul Ellis/AFP)

A celebração da classificação junto com os torcedores (foto – Paul Ellis/AFP)

A Islândia não parece concordar com aqueles que têm afirmado que o aumento para 24 no número de participantes da EURO comprometeu a qualidade média do futebol apresentado no torneio. Ao contrário, Sigurdsson, Sigthorsson e seus companheiros parecem obstinados em provar que no futebol tradição, número de praticantes, valor dos salários dos atletas, tamanho de torcida são elementos fundamentais, mas não marcam, nem salvam gols.

Os “vikings” do futebol parecem desbravadores dispostos a chegar a espaços neste esporte aparentemente inacessíveis para uma seleção de retrospecto tão recente e que representa de um país de população tão pequena. Cada vez mais parece pertinente a seguinte questão: será a campanha da Islândia nesta Euro 2016 comparável a uma conquista tão inédita e surpreendente quanto a do Leicester na Premier League na última temporada?

Na verdade a evolução da seleção da Islândia, nos últimos anos, é consistente e não se reduz a um produto do acaso. Por muito pouco ela não disputou a Copa de 2014 no Brasil. Ela chegou na segunda posição no Grupo vencido pela Suíça nas eliminatórias. Ela foi obrigada a disputar uma vaga na repescagem com a Croácia, quando acabou derrotada. Já nas eliminatórias para a EURO a equipe venceu, em casa, a Holanda por 2 a 0.

A bola no fundo da rede no gol de Sigthorsson (foto - Paul Ellis/AFP)

A bola no fundo da rede no gol de Sigthorsson (foto – Paul Ellis/AFP)

A evolução do futebol na Islândia começou com o combate ao alcoolismo e ao tabagismo

Este blog, mais de uma vez, chamou atenção para o que vem acontecendo com o futebol da Islândia. A explicação mais lógica para esta evolução esportiva fabulosa tem a ver com a decisão governamental tomada, em 2002, de investir na prática de esportes coletivos como um instrumento de combate ao alcoolismo e ao tabagismo que se alastrava perigosamente na juventude do país.

Um investimento significativo foi realizado através da Federação de Futebol da Islândia – KSI – na construção de instalações esportivas modernas e acessíveis aos praticantes e na formação de técnicos e profissionais em cursos de alto nível promovidos pela UEFA.

O projeto era tão consistente e foi tão bem aceito pela população em função dos resultados alcançados que sobreviveu ao dramático ano de 2008 quando a economia islandesa quebrou, numa das mais graves crises econômicas de um país europeu naquele momento. A população, por orgulho e pela paixão pelo próprio futebol, encontrou meios de garantir que a ampliação da prática esportiva entre os jovens não sofresse com a falência da economia do país.

Federação de Futebol da Islândia

Federação de Futebol da Islândia

A construção de instalações para a prática do futebol teve que enfrentar o problema do rigorosíssimo e longo inverno que praticamente impedia sua prática em campos ao ar livre e em gramado natural por quase 7 meses a cada ano.

Desde 2002, 7 campos oficiais “indoor” e outros 20 campos com medidas oficiais e gramados artificiais foram construídos pelo país. Além disto, cada uma de 130 escolas públicas passou a dispor de pelo menos um campo de futebol (não necessariamente com medidas oficiais) com grama artificial. Com isto os jovens passaram a jogar futebol o ano inteiro, mesmo nos períodos de inverno. De dia ou de noite.

Federação de Futebol da Islândia

Por outro lado, a KSI formulou um programa avançado e de alta qualidade para a formação de técnicos de futebol. Em nenhum outro país da Europa há tantos técnicos, por jogador, com formação nos cursos oficiais da UEFA em níveis A e B. Com isto o trabalho nas divisões de base deste esporte passou a ser realizado em nível elevado e padronizado já que são todos ministrados por técnicos qualificados.

Segundo dados da KSI o país contava, em 2013, com 165 técnicos de nível A e 563 técnicos de nível B da UEFA, espalhados por todas as regiões, garantindo mais técnicos per capita do que na Espanha ou Alemanha, por exemplo.

Assim os jovens islandeses são orientados no mesmo padrão, com todas as cidades – maiores ou menores – se orgulhando de ter boas instalações, bons técnicos – talvez entre os melhores da Europa -, capazes de formar jogadores promissores em todas as idades. Segundo as estatísticas oficiais há 21 508 jogadores de futebol registrados na Islândia,  enquanto na Holanda são 1 138 860 e na Alemanha 6 308 946.

Arno Gunnarson (17) o capitão e líder dos vikings (foto - Paul Ellis/AFP)

Arno Gunnarson (17) o capitão e líder dos vikings (foto – Paul Ellis/AFP)

 

Seleção com média de idada alta e com jogadores que jogam fora do país

A seleção da Islândia tem uma das mais altas médias de idade da EURO 2016: 27 anos. Nenhum jogador atua num clube da primeira divisão islandesa: 7 jogam na Suécia, 3 na Noruega, e 2 na Dinamarca, 2 a Itália, 2 no País de Gales, 1 na Rússia, 1 na Bélgica, 1 na França, 1 Inglaterra, 1 na Suíça, 1 na Rússia.

A equipe é codirigida pelo técnico sueco Lars Lagebäck, 68 anos, e pelo islandês Heimir Hallgrímsson, 48 anos. A dupla será desfeita após a EURO quando Lagebäck se aposentará. Seu companheiro será promovido a técnico principal.

Heimir Hallgrímsson é ex-jogador da seleção islandesa (foto- youtube.com)

Heimir Hallgrímsson é ex-jogador da seleção islandesa (foto- youtube.com)

 

 

Relação de jogadores inscritos na EURO 2016

1- Hannes Halldórsson – goleiro – 32 anos anos – Bodø/Glimt (NOR)

2 – Birkir Sævarsson – zagueiro – 31 anos – Hammarby (SUE)

6 – Ragnar Sigurdsson – defensor – 30 anos – Krasnodar (RUS)

14 – Kári Árnason – zagueiro – 33 anos – Malmo (SUE)

23 – Ari Skúlason – lateral esquerdo – 29 anos – Ob (DIN)

17 – Aron Gunnarsson – volante – 27 anos – Cardiff (Gal)

10 – Gylfi Sigurdsson – meia – 26 anos – Swanse (Gal)

07 – Johann Gudmundsson – 25 anos – atacante – Charlton (Eng)

08 -Birkir Bjarnason – meia – 28 anos – Basel (Sui)

15 – Jón Dadi Bödvarsson – atacante – 24 anos – Kaiserslautern (Ale)

09 – Kolbeinn Sigthórsson – atacante – 26 anos – Nantes (Fra)

03 – Haukur Heidar Hauksson – zagueiro – 24 anos – AIK (Sue)

04 – Hjörtur Hermannsson – zagueiro – 21 anos – Gotemburgo (Sue)

05 – Sverrir Ingason – zagueiro – 22 anos – Lokeren ( Bel)

12 – Ögmundur Kristinsson – goleiro – 27 anos – Hammarby (Sue)

13 – Ingvar Jónsson – goleiro – 26 anos – Sandefjord (Nor)

16 – Rúnar Már Sigurjónsson – meia – 26 anos – Sundsvall (Sue)

18 – Elmar Bjarnason – meia – 29 anos – AGF (Din)

19 – Hordur Magnússon – defensor – 23 anos – Cesena (Ita)

20 – Emil Hallfredsson – meia – 31 anos – Udinese (Ita)

21 – Arnor Ingvi Traustason – defensor – 23 anos – Norrköping (Sue)

22 – Eidur Gudjohnsen – atacante – 37 anos – Molde (Nor)

 

¹ “Vikings” é uma palavra habitualmente usada para se referir aos exploradores, guerreiros, comerciantes e piratas nórdicos (escandinavos) que desbravaram, exploraram e colonizaram grandes áreas da Europa e das ilhas do Atlântico Norte a partir do final do século VIII até ao século XI



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