O craque Salah vira instrumento político do ditador da Chechênia



Atualizado às 10:31h de 12/06/2018

 

Não passou desapercebida das entidades ligadas a defesa dos direitos humanos a escolha da seleção do Egito em transformar a cidade de Grozny, na região da Chechênia¹, em sua base na Copa do Mundo da Rússia 2018. A delegação egípcia está inaugurando um luxuoso complexo hoteleiro na cidade, financiado com recursos dos Emirados Árabes.

O problema se cristalizou na noite de domingo quando o astro principal do Egito, Mo Salah, apareceu no campo de treinamento ao lado do ditador do país, Ramzan A. Kadrov,  diante de 8000 torcedores. A aparição foi triunfal diante dos fotógrafos e jornalistas já que o resto do elenco já se encontrava no gramado.

A iniciativa faz parte de um trabalho de relações públicas que vem sendo desenvolvido pelo governo daquele país. Kadyrov, de 42 anos, é acusado de “exercer um controle implacável na região onde execuções extrajudiciais, tortura desaparecimentos são comuns e onde a repressão de críticos, jornalistas e LGBT pessoas é total e brutal”, segundo um representante Human Rights Watch declarou ao The New York Times. Ele está no poder na Chechênia desde 2004, após o assassinato de seu pai, Akhmad Kadyrov, que dá o nome do estádio da cidade.

O egípcio Salah fará 26 anos no domingo (foto – divulgação)

A Chechênia viveu duas violentíssimas guerras separatistas entre o final anos 90 e início dos anos 2000. A partir dali, Kadyrov, um ex-rebelde cuja poderosa família se alinhou em 1999 com o presidente da Rússia, Vladimir Putin², reprimiu impiedosamente os dissidentes. Trata-se de uma região de população de maioria muçulmana na Rússia.

A Human Rights Watch pressionou inicialmente a Federação Egípcia para que escolhesse uma outra cidade para hospedar sua seleção durante a competição. Um porta voz da federação  declarou recentemente no Cairo que “nós escolhemos da lista que a FIFA nos deu. Se as pessoas tiverem problemas com Grozny, devem falar com a FIFA”. O diretor-executivo do time egípcio, Eihab Leheita, disse nesta segunda-feira, que não tem “nenhum arrependimento” sobre a escolha de Grozny como base para a seleção de seu país.

Ilustração – Expressão Liberta

A FIFA, por sua vez, questionada recentemente pelo The New York Times sobre a pertinência da Chechênia hospedar a delegação de um participante na Copa, se manifestou através de um mail no qual declarou que “por meio de suas atividades, a FIFA não legitima nenhum regime”.

Mohamed Salah é o principal responsável pela classificação de sua seleção à Copa da Rússia. Ele foi eleito o melhor jogador do continente africano na temporada passada e o melhor jogador da Premier League, segundo a AFP, Associação de Jogadores Profissionais da Inglaterra e País de Gales. Ele já jogou pelo Basel, Chelsea, Roma e atualmente brilha no Liverpool. Ele foi o artilheiro da Premier League na temporada 2017/18 com 32 gols.

A imprensa egípcia já admite que Salah poderá participar da estreia contra o Uruguai na próxima sexta-feira. Ele se contundiu no início da decisão da Champions League contra o Real Madrid, semana atrás em Kiev.

O Egito é o 45 colocado no ranking da FIFA e está no Grupo A ao lado da Rússia, Arábia Saudita e Uruguai.

 

¹ A Chechênia fica no Cáucaso, uma área montanhosa situada entre os mares Negro e Cáspio, com uma população de cerca de 1.3 milhão de habitantes.

² Para o governo de Vladmir Putin, a Chechênia é estratégica em razão da passagem de oleodutos dos poços de petróleo da região do Mar Cáspio à rede de dutos russos. Grande parte do petróleo que a Rússia exporta para a Europa é extraída do Mar Cáspio e transportada por esta área.

 



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