Mídia inglesa já questiona se Mourinho ainda é o “Special One”



José Mourinho chegou ao Manchester United disseminando a sensação de que sua simples presença garantiria ao clube a retomada dos melhores momentos da longa época em que foi dirigido por Sir Alex Ferguson. O anúncio de sua contratação despertou um incompreensível devaneio otimista na torcida dos Red Devils (Diabos Vermelhos). Como que por um passe de mágica, seu ridículo desempenho na temporada anterior à frente do Chelsea se não foi ignorado, foi inexplicavelmente menosprezado. O fato é que a imagem consagrada do “Number One” ressurgiu incólume. Mas será que ela ainda pode ser usada para definir o nível de trabalho que José Mourinho tem desenvolvido nos últimos anos?

Poucos deram importância ao fato de que ele foi demitido em dezembro de 2015 quando o clube londrino, na 16ª rodada do campeonato, se encontrava no vexatório 16º lugar. O português optou por não trabalhar até a temporada 2016/17. Já o Chelsea, sob o comando de Guss Hiddink, encerrou a Premier League na 10ª posição.

Mourinho chegou ao United aos 53 anos (foto - manutd.com)

Mourinho chegou ao United aos 53 anos (foto – manutd.com)

 

Mourinho é um grande técnico, mas não é mágico, nem inventor, muito menos perfeito. Seu currículo é invejável, por certo, mas ainda assim, contempla resultados longe de satisfatórios como no grande Real Madrid (2010/13). E, sempre, com tempo de validade pouco extenso. E o mais significativo, com o tempo, suas equipes foram sendo montadas sob uma concepção crescentemente pragmática, em busca do resultado a qualquer preço, independente de encantar ou não seu torcedor.

Mourinho exigiu e conseguiu contratar pesado ao desembarcar no Manchester United com sua legião de assistentes e colaboradores. Desde sua chegada o clube trouxe o zagueiro marfinense Eric Bailly (€ 35 Milhões), o meio campista francês Paulo Pogba (€ 104 milhões), o meia atacante armênio Henrikh Mikhitaryan (€ 31.5 milhões) e o atacante sueco Zlatan Ibrahimovic (sem custo de transferência) ao custo global de mais de € 175 milhões, por sinal, nada desprezível mesmo para o terceiro clube que mais fatura no mundo.

Por outro lado, Mourinho impôs imperialmente o alijamento da lista dos jogadores inscritos nas competições desta temporada o meio campista alemão, campeão do mundo, Bastian Schwensteinger, 32 anos e com salários mensais de € 300 mil, que, até agora, se resignou a aceitar a situação e aguardar o fim de seu contrato previsto para junho de 2018.

Paul Pogba é o maior investimento de Mourinho na temporada (foto - manutd.com)

Paul Pogba é o maior investimento de Mourinho na temporada (foto – manutd.com)

Para o futuro imediato, Mourinho não deverá ter a mesma parcimônia financeira de Ed Woodward, principal executivo do clube, o que indica que apenas o absolutamente essencial será gasto no mercado de inverno. E, muito provavelmente, se houver, será aplicado apenas na contratação de um zagueiro que traga liderança e consistência à sua defesa.

Diante das 3 derrotas consecutivas ocorridas na última semana para Manchester City (de Pep Guardiola), Feyenoord e Watford, a reação de José Mourinho é preocupante, mas coerente com sua personalidade. No último sábado, após o fracasso contra o Watford, Mourinho creditou o resultado à falta de sorte, aos erros da arbitragem e de alguns de seus jogadores, em especial, do lateral esquerdo Luke Shaw. Segundo ele, no segundo gol, Shaw se encontrava 25 metros distante de onde deveria estar posicionado. Mourinho sequer insinuou algo que pudesse ser entendido como uma auto-crítica pelo resultado.

Desde então, a mídia inglesa tem elevado o tom das críticas ao trabalho do técnico português. Opiniões duras de comentaristas pesos pesados como os ex-jogadores Paul Scholes, Gary Linecker e Steve MacManaman vem questionando abertamente as exibições da equipe.

Mourinho é experiente, malandro ao lidar com a mídia e a opinião pública, inteligente, mas, nos últimos tempos, vem se notabilizando por não ser exatamente o melhor gestor de grupo, de relacionamento com quem trabalha e tem se revelado um péssimo equacionador de crises.

O fato é que, nesta quarta-feira, o Manchester United estará em campo de novo. Desta vez contra o modestíssimo Northampton Town, 11º colocado da terceira divisão, pela terceira fase da Copa da Liga Inglesa. Pode ser a chance para que a equipe de Mourinho quebre a sequência de 3 derrotas consecutivas e comece a trilhar um outro caminho. Mas vale observar que o Northampton avançou na competição eliminando o tradicional West Brom da Premier League. Mesmo assim, Mourinho parece disposto a fazer descansar David De Gea, Eric Bailly e Paul Pogba ao invés de fazer da partida um estágio na busca do formato ideal de sua equipe.

Wayney Rooney deve ser barrado? (foto - manutd.com)

Wayne Rooney deve ser barrado? (foto – manutd.com)

Mourinho vem modificando radicalmente a escalação jogo a jogo numa demonstração clara de que está longe de ter encontrado uma formação básica convincente para ele próprio. Para o jornalista Jamie Jackson do diário londrino The Guardian, o português deveria adotar 5 medidas para retomar o controle de seu trabalho e seguir na direção da montagem de uma equipe competitiva: (1) definir seus 11 jogadores titulares, (2) construir taticamente a equipe em função do meio campista Paul Pogba, (3) parar de fazer críticas públicas a seus jogadores, (4) resolver a titularidade ou não de Wayne Rooney, Zlatan Ibrahimovic e Maroune Fellaini e (5) exigir que independente da escalação a equipe jogue com mais velocidade. Este blogueiro agregaria uma medida ignorada pelo analista inglês: a escalação óbvia e, neste momento, incontestável para o jovem fenômeno Marcus Rashford.

O divertido neste momento também é perceber a saia justa em que boa parte da mídia esportiva inglesa se encontra com relação à coerência de suas análises. Ela é uma das responsáveis pela euforia acrítica com que José Mourinho chegou ao Manchester United já que por quase toda a temporada anterior ela trabalhou incansavelmente pela demissão de Louis Van Gaal. Há quem absurdamente encontre semelhança entre o estilo da equipe sob o comando de Mourinho comparado ao adotado por Van Gaal. Na derrota no derby contra o Manchester City, em Old Trafford, o Manchester United dispôs da bola em míseros 39,9% do tempo, o que era impensável acontecer com o comando do holandês. Aliás, foi o próprio José Mourinho quem durante sua primeira entrevista oficial no cargo fez questão de antecipar que imporia um estilo de jogo muito diferente do adotado pelo seu antecessor. Desde há muito, suas equipes se dedicam a praticar um futebol menos interessado no controle da bola e essencialmente dependente nas jogadas de contra ataque e de ligações diretas entre suas linhas.

Mourinho 0 x 1 Guardiola em Manchester (foto - OLI SCARFF/AFP/Lancepress!)

Contra Mourinho o time de Guardiola teve 61% de posse de bola (foto – OLI SCARFF/AFP/Lancepress!)

No próximo sábado, o Manchester United receberá, em seus domínios, o atual campeão Leicester pela 4ª rodada da Premier League. Se Old Trafford estará bem ou mal humorado dependerá muito do resultado da partida contra o Northampton Town.

Não dá para esconder duas constatações: (a) a construção de uma nova era vitoriosa para o Manchester United após a aposentadoria de Sir Alex Ferguson está sendo muito mais demorada, errática e custosa do que sua torcida imaginava, (b) o ambiente do futebol contemporâneo, e não apenas no Brasil, é cada vez mais nervoso e imediatista com os resultados dentro do campo.

 

 

 

 

 

 



  • Ari Sousa

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