Leicester: um campeão improvável, inédito e indiscutível!



Atualizado às 12:15 de 03/05/2016

 

Este blog tem abordado ao longo dos últimos meses a trajetória absolutamente extraordinária do Leicester na Premier League 2015/16. E o fez por que a cada rodada, a cada ponto somado, ficava cada vez mais concreta a chance de que este clube de 132 anos de vida, sem qualquer colocação respeitável na divisão de elite inglesa, 14º colocado da temporada anterior, dono do 12º orçamento da Premier League -3.8 vezes menor do que do Manchester United – , segundo o relatório Deloitte 2014/15, conquistar o título da liga nacional de clubes mais rica do planeta.

O Leicester está longe de ser um clube pobre ou com problemas financeiros, mas a desproporção das suas receitas e do valor pago a seus atletas comparados aos dos grandes clubes ingleses sempre foi encarada como impeditiva de uma façanha como a desta temporada. Tese razoável que não se impôs na realidade fabulosa e, muitas vezes inverosímel, do futebol.

A torcida do Leicester vive emoção inédita (foto - premierleague.com)

A torcida do Leicester vive emoção inédita (foto – premierleague.com)

A proeza improvável se confirmou nesta segunda-feira e está sendo saudada não apenas pelo mundo do futebol ou do esporte. O primeiro ministro italiano, Matteo Renzi, twitou: “A maior façanha do futebol inglês é liderada por um italiano. Grande Leicester! Grandíssimo Professor Ranieri”. O primeiro ministro britânico fez o mesmo: “Parabéns ao Leicester! Um extraordinário, merecido título da Premier League”.

A mídia internacional dedica espaços generosos ao título obtido pelo clube do centro da Inglaterra. A informação está na home page do site do diário  “The New York Times”, tem merecido longas e seguidas reportagens no canal de notícias CNN e é manchete no sisudo e financeiro “Financial Times” londrino. O “L’Équipe” francês se valeu de palavras inconfundíveis da celebrada La Marseillaise para a manchete principal do jornal que trata do feito do clube inglês: “Le jour de gloire de Leicester (O dia da glória do Leicester)”.

A façanha foi alcançada por um clube inglês, presidido por um bilionário tailandês e elenco multinacionalizado que foi se tornando conhecido e admirado pelos torcedores de todo o mundo composto por 10 ingleses, 2 ganeses, 1 suíço, 1 francês, 1 argentino, 1 argelino, 1 galês, 1 japonês, 1 polonês, 1 australiano, 1 jamaicano, 1 alemão, 1 dinamarquês e 1 austríaco.

Como um ingrediente a mais na excepcionalidade de seu feito, o Leicester deverá ser o único campeão das 5 grandes ligas da Europa que não conta com um jogador brasileiro sequer em seu elenco.

Vardy é o artilheiro do campeão (foto - Lance!)

Vardy é o artilheiro do campeão (foto – Lance!)

O Leicester chegou à liderança da competição na 23ª rodada no dia 23 de janeiro com a vitória por 3 a 0 sobre o Stoke City, vindo apenas de um empate na rodada anterior contra o já então último colocado Aston Villa. Tinha início ali a arrancada surpreendentemente consistente do azarão mais desacreditado da história do futebol.

A epopeia experimentada pelo Leicester vem consagrando o italiano Claudio Ranieri, 64 anos, na sua primeira conquista de título nacional em seus quase 30 anos de carreira como técnico. Poucas vezes o futebol foi protagonizado por um personagem tão elegante, sensato, lúcido e apaixonado por seu trabalho quanto desta vez por Ranieri. Ele teve absoluta noção de cada passo dado, de cada ponto conquistado, de cada etapa vencida nesta trajetória incrível. Suas metas foram sempre razoáveis e só eram renovadas conforme eram superadas.

O depoimento de Guus Hiddink, técnico do Chelsea, logo após o empate contra o Tottenham, sintetiza a personalidade, o caráter e a emoção de Ranieri: “acabo de receber uma ligação de Ranieri. Não posso afirmar se ele tinha lágrimas nos olhos por que eu não o via, mas sua voz estava trêmula. Ele falou pouco. Repetiu cinco vezes Obrigado.”

Ranieri personifica o título improvável, mas merecido (foto: Rob Tanner)

Ranieri personifica o título improvável, mas merecido (foto: Lance!)

No próximo sábado, no King Power Stadium, um jogador cumprirá uma missão memorável: o capitão Wes Morgan, será o primeiro jogador na história do clube a receber o troféu de campeão da primeira divisão do futebol inglês, logo após a partida contra o Everton, última do clube como mandante na temporada.

Para a satisfação dos torcedores do Leicester o sonho do título inglês se desdobrará na participação inédita e impensável até bem pouco tempo na Champions League, como um dos cabeças de chave. Na temporada 2016/17, o King Power Stadium será palco de partidas da maior competição de clubes do mundo. Dá para imaginar que Ranieri vai anunciar que o sonho europeu do Leicester será garantir vaga na fase seguinte da competição na segunda colocação de seu grupo.

É provável que o elenco do clube não apenas seja mantido para a próxima temporada. Mais do que isto, ele deverá até ser reforçado através das substanciais receitas adicionais que o clube receberá como consequência da premiação pelo título, pela participação na Champions League e pelo novo contrato de TV da Premier League. Convenhamos que não faz sentido que os principais jogadores, titulares absolutos da equipe e alguns com a posição reforçada em suas seleções nacionais, incluindo os ingleses, e com contratos certamente reajustados, arrisquem uma aventura em clubes com elencos que garantem a titularidade apenas de alguns poucos astros.

Vivemos um capítulo da história do futebol que tocou fundo em todos que o curtem no mundo inteiro. Uma fábula que se desmembra em várias outras como as de Kasper Schmeichel, de Morgan, de Drinkwater, de Kanté, de Mahrez, de Vardy, do presidente Vichai Srivaddhanaprabha e seu filho Aiyawatt, dos monges tailandeses e dos enebriados torcedores do clube que jamais se esquecerão deste 2 de maio de 2016.

Parabéns, Leicester!

Congratulations, Leicester!

Cumplimenti, Mister Ranieri!

 

 



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