José Mourinho: vencedor compulsivo e cada vez mais pragmático



O Chelsea é campeão da Premier League da temporada 2014/15. Não há o que discutir. Os números explicam a supremacia. São 25 vitórias em 35 partidas (faltam 3). A invencibilidade chegou a ser mantida por 15 rodadas. O time está há 253 dias na liderança do campeonato, pronto para bater o recorde de 262 dias alcançado pelo Manchester United na temporada 1993/94.

Ainda que Eden Hazard tenha jogado uma temporada extraordinária – sendo eleito o melhor jogador do campeonato –  que John Terry tenha reafirmado sua liderança e seu comprometimento ao ser o único jogador que atuou por todos os minutos das 35 partidas disputadas pelo Chelsea até aqui – chegando à conquista de sua quarta Premier League como capitão do Chelsea – não há como negar que José Mourinho é o grande protagonista deste título do Chelsea FC. Ele usou apenas 22 jogadores em todo o campeonato o que demonstra que os departamentos médico e de preparação física realizaram um trabalho de alto nível sob sua liderança, ao contrário de rivais como o Manchester United que no total já escalou mais de 40 jogadores na competição.

José Mourinho aos 52 anos: "Nós merecemos ser campeões." (foto - site oficial do CFC)

José Mourinho aos 52 anos: “Nós merecemos ser campeões.” (foto – site oficial do CFC)

Mourinho é um vencedor de campeonatos nacionais:

Porto – 2002/03 e 2003/04

Chelsea – 2004/05, 2005/06 e 2014/15

Inter de Milão- 2008/09 e 2009/10

Real Madrid – 2011/12.

No Chelsea também conquistou a FA Cup 2006-07, e a Copa da Liga em 2004/05, 2006/07 e 2014/15.

José Mourinho se enquadra entre os técnicos que não se contentam em meramente escalar seus times. Ele vive cada dia do clube, protagoniza todas as situações, no que isto tem de bom e de ruim. Seus treinos são intensos, sempre direcionados para as situações concretas que ele imagina que sua equipe enfrentará na partida seguinte. Sua palavra é decisiva na hora de definir o elenco.

Com todos os números estatísticos favoráveis, o Chelsea de Mourinho vem praticando um futebol competitivo, taticamente consistente, mas certamente pouco empolgante na temporada. Algumas rodadas atrás, independente dos resultados positivos e da liderança absoluta e irremovível na tabela de classificação, os torcedores em Stamford Bridge deixaram claro que não se comoviam com o tipo de futebol que o time vinha praticando para obter os resultados positivos. O técnico português chegou a reclamar de público da atmosfera “fria” que sua equipe encontrava quando jogava como mandante.Stamford Bridge

Mourinho conhece o futebol como poucos e tem exata noção disto a ponto de se manifestar reiteradamente em termos que tem ajudado a firmar a imagem de alguém arrogante e prepotente. Ele é um líder – ou não foi ele próprio que se auto-rotulou “Number 1” ? – um vencedor no futebol, mas vem se transformando num treinador essencialmente pragmático, quase que como renunciando a ideia de que um time além de conquistar pontos deve empolgar seus torcedores e merecer a admiração do restante do mundo do futebol.

Ele prepara a equipe para obter os resultados de maneira cirúrgica, detalhista, explorando os defeitos dos adversários, não se importando se muitas vezes ela é dominada seja em partidas como mandante, seja contra equipes de menor qualidade técnica. Dar exibição é cada vez menos uma prioridade para a equipe dirigida pelo português, enquanto somar pontos virou sua obsessão.

Portanto parece inegável que ele vem se distanciando a cada dia das formulações professadas pelos seus principais mentores como o inglês Bobby Robson e o holandês Louis Van Gaal que sempre buscaram armar times técnicos, envolventes, ofensivos e que tenham o controle das partidas através da posse de bola.

Talvez por isto, sua passagem pelo Real Madrid não tenha sido tão espetacular. Trata-se de um clube que nasceu para se impor, dar espetáculo, encantar seus torcedores e os rivais e que não se satisfez por sua já aguçada maneira pragmática de conceber suas equipes. Mourinho não foi capaz ou talvez nem tenha pretendido fazer do mítico estádio Santiago Bernabéu um palco de exibições inesquecíveis.

Por outro lado, as mudanças que realizou no elenco do Chelsea para a temporada 2014/15 quase todas foram bem sucedidas e reforçaram o elenco na direção pretendida por Mourinho. Ele negociou o brasileiro David Luiz e o alemão André Schürlle para contratar o atacante brasileiro/espanhol Diego Costa, o espanhol Cesc Fábregas, o colombiano Juan Cuadrado, o brasileiro Filipe Luiz e trazer de volta o carismático Didier Drogba – ainda que com 37 anos – e o goleiro belga Thibault Courtois que estava emprestado ao Atlético de Madrid, onde brilhou tanto na La Liga quanto na Champions League na temporada passada e que acabou ocupando a posição do histórico goleiro Petr Cech. O extraordinário volante sérvio Nemanja Matic já estava no elenco desde janeiro de 2014.

Vale registrar que Mourinho também foi capaz de descobrir e aproveitar virtudes multifuncionais de alguns atletas como o zagueiro francês Kurt Zouma que se revelou um volante quase inexpugnável quando jogou nesta posição em partidas decisivas, como a contra o Manchester United no Stamford Bridge.

Thibault Courtois voltou para ser o goleiro titular de Mourinho (foto - site oficial do CFC)

O belga Thibault Courtois voltou para ser o goleiro titular de Mourinho (foto – site oficial do CFC)

Finalmente, José Mourinho parece ter amadurecido a melhor maneira de conviver com as demandas e expectativas do proprietário do Chelsea, o enigmático magnata russo  Roman Abramovich – nunca concedeu uma única entrevista como dono do clube – desde que retornou ao Chelsea. Sua relação no dia a dia com o principais executivos ligados a Abramovich trouxe tranquilidade para o ambiente em Stamford Bridge.

Mourinho vem contando e trabalhando em absoluta harmonia com o trio de principais executivos do clube e mais próximos conselheiros de Abramovich composto pela advogada russa Marina Granovskaia (principal defensora de seu retorno ao clube), o americano radicado em Londres Bruce Buck e o ucraniano/canadense Eugene Tenembaum.

Marina Granovskaia é a mais próxima auxiliar de Abramovich no Chelsea (fofo - site oficial do CFC)

Marina Granovskaia é a mais próxima auxiliar de Abramovich no Chelsea (fofo – site oficial do CFC)

Este entrosamento certamente contribuiu, por exemplo, para que a desclassificação prematura do Chelsea diante do Paris Saint German na Champions League 2014/15 não tenha se desdobrado numa crise que pudesse comprometer a conquista da Premier League e colocasse em questão a permanência do técnico português no clube londrino.

Algumas declarações de José Mourinho após a sofrida vitória sobre o Crystal Palace que garantiram o título neste domingo desnudam sua personalidade, seus caprichos, suas ambições e esclarecem com que estado de espírito ele reagiu a obtenção de mais este troféu:

– “Ficarei no Chelsea até quando Abramovich me quiser”.

– “Nós mostramos tudo desde o primeiro dia da temporada. Tudo aquilo que o futebol demanda de uma equipe nós temos apresentado. Temos um fantástico futebol ofensivo, fantástico domínio do jogo, alto percentual de posse de bola, baixo percentual de vezes em que estrategicamente concedemos ao adversário o domínico da bola e sempre nos defendemos muito bem”.

O Chelsea tem a melhor defesa e o segundo melhor ataque da liga ( foto - site oficial do CFC)

O Chelsea tem a melhor defesa e o segundo melhor ataque da Premier League ( foto – site oficial do CFC)

– “Nós fizemos tudo aquilo que um time precisa fazer. É por isto que somos campeões. É por isto que merecemos ser campeões. Todo mundo sabe disto. Para aqueles que questionam isto eu respondo com um ditado típico de meu país: os cães ladram e a caravana passa”.

– “Os comentaristas vencem todas as partidas. Eles nunca perdem. É realmente um trabalho fantástico. Pode ser que eu venha a ser comentarista daqui a uns 10 anos. Aí eu vou ganhar todos os jogos”.

– “Neste momento eu sou manager. Eu até perco às vezes, mas é um trabalho muito mais difícil. Mas o que importa é o que os jogadores estão sentindo agora. Eles merecem”.

–  “Tenho minhas convicções há muito tempo. Minha experiência, minha maturidade sempre estiveram no controle das emoções e da situação e durante a temporada nós nos deparamos com momentos cruciais que soubemos lidar de uma maneira fantástica. Nossa última derrota foi para o Newcasttle no dia 1 de janeiro. Aquilo que poderia ter provocado uma reviravolta na campanha acabou sendo nosso último revés”.

– “É um sentimento bom quando você ganha algo que você merece. Para mim é uma sensação especial por que eu não sou o cara mais esperto na hora de escolher países e clubes para trabalhar. Eu escolhi a liga mais difícil da Europa. Eu optei pelo clube em que fui feliz antes. Estou muito feliz em conseguir a Premier League nesta segunda segunda passagem pelo clube. E vou tentar conquistar outra e outros títulos. O dia em que eu não sentir mais este tipo de pressão, eu paro.”



  • apesar do gênio difícil , é um vencedor por onde passa, independentemente se os campeonatos que ganhou forem considerados menos difíceis de serem disputados , mas o estilo pragmático não dá certo em campeonatos mais competitivos como o francês por exemplo .

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