Itália fora da Copa: chegou a hora do calcio se reinventar.



Atualizado às 08:27h de 14/11/2017

 

Pela primeira vez na minha vida de amante do futebol assistirei a uma Copa do Mundo sem a Itália. Pela primeira vez depois de 60 anos e 14 edições consecutivas, a tradicionalíssima Azzurra não estará presente num Mundial.

É com tristeza que testemunho este momento. Me recordo perfeitamente de, ainda menino, perceber o espanto do mundo diante da derrota surpreendente da equipe italiana para a Coréia do Norte no Mundial disputado na Inglaterra, em 1966, quando ela sequer passou da fase de grupos. Mas ela estava lá.

Já na Copa seguinte, a Itália brilhava no México com o esplêndido vice-campeonato apenas superada pelo Brasil mais extraordinário de todos os tempos, no momento mais maduro e esplendoroso da carreira de Pelé e seus fabulosos companheiros de geração. A recuperação italiana, na verdade, teve início antes, na conquista da Eurocopa de 68 pela Azzurra de Zoff, Facchetti, Riva, Domenghini e Mazzola.

Foi incrível me sentir campeão do mundo em 1970 e, mais tarde em 1994, nos EUA. O sabor destas conquistas foi ainda mais inesquecível por ter vindo de triunfos sobre a veneranda e poderosa Itália.

Ventura não se demitiu após a eliminação (foto – fifa.com)

O fato é que uma potência do futebol, quatro vezes campeã do mundo, recheada de clubes com histórias vitoriosas nas competições internacionais, só não se classifica para uma Copa do Mundo quando vários fatores se combinam. A sinalização nesta direção já podia ser percebida nas duas eliminações consecutivas ainda na fase de grupos nas Copas de 2010 e 2014.

A tragédia consumada neste 14 de novembro de 2017 no empate em 0 a 0 com a Suécia, num San Siro com 72 696 pagantes, é certamente fruto não apenas de vários equívocos, mas também de elementos que ultrapassam a própria escolha dos jogadores ainda que mal concebida pelo técnico Gian Piero Ventura. Vai além das formulações táticas esquemáticas e conservadoras do técnico que já tinha sido, na verdade ele próprio, designado para o cargo sem qualquer convicção por parte dos dirigentes da Federcalcio.

Passa também, e é relevante que se destaque, pelos discutíveis critérios adotados pela UEFA na montagem da fase inicial das eliminatórias que resultaram em composições díspares e desequilibradas, como por exemplo, a que reuniu Espanha e Itália no grupo G.

O campeonato italiano tem um mesmo campeão há seis temporadas. A única novidade realmente interessante, mais do que promissora por que já apresenta resultados consistentes inclusive a nível europeu, é o Napoli de Maurizio Sarri. Milan e Inter não passam de pálidas memórias das fantásticas equipes que montaram noutros tempos.

A imagem de Buffon retrata o ânimo italiano em San Siro (foto – fifa.com)

A seleção italiana eliminada em Milão, além da mediana capacidade técnica, não conseguiu formar um conjunto capaz de sustentá-la por uma montagem tática sólida e competitiva. No auge do desespero no final da partida a equipe estava desenhada num anárquico 3-3-4.

Sejamos frios e realistas: de quem mais do elenco destas eliminatórias, além do mítico arqueiro Buffon, dos zagueiro Bonucci, Barzagli e Chiellini e do volante Verratti realmente lamentaremos a ausência na Copa da Rússia? O processo de formação de jogadores foi produzindo lenta mas irreversivelmente até aqui resultados cada vez mais modestos. Dos 5 nobres nomes lembrados acima o mais jovem é o volante Verrati com 25 anos.

Começa a agora a fase dolorosa, mas fundamental de reconstrução de um projeto de seleção. Mas que não pode se esgotar nele mesmo. Antes de mais nada é o futebol praticado pelos clubes italianos que também precisa ser repensado.

A vida passou e poucos se deram conta de verdade que a Série A se transformou numa conformada quarta liga nacional europeia em importância esportiva e significado financeiro.

A estrutura organizativa dos clubes de há muito carece de aprimoramento e modernização. A grande maioria dos estádios das Série A e B são velhos, ultrapassados e pouco rentáveis.

Passou da hora do calcio se reinventar. A Juventus é o indício de que as coisas por lá podem ser melhores dentro e fora do campo.

 



MaisRecentes

O Fórum Mundial de ligas nacionais de futebol é contra a expansão da Copa do Mundo



Continue Lendo

Argentinos tem vantagem sobre brasileiros em finais da Libertadores



Continue Lendo

La Liga conta com Amazon e Facebook para negociar TV por € 2.3 bilhões



Continue Lendo