Islândia faz história e dá exemplo ao se classificar para a UEFA Euro 2016



O último domingo se transformou no dia mais espetacular da história esportiva da Islândia, um minúsculo país nórdico com 329 mil habitantes, composto de uma ilha do mesmo nome do país e de algumas outras pequenas ilhas localizadas entre a Europa continental e a Groenlândia.

Naquele dia, sua a seleção de futebol, dirigida desde 2011 pelo experiente técnico sueco Lars Lagerback, 67 anos,  garantiu por antecipação de 2 rodadas sua inédita classificação para a UEFA Euro 2016 – que será disputada na França – ao empatar com o Cazaquistão por 0 a 0, na cidade de Reykjavík, capital do país. Ao final da partida, os jogadores dançavam e cantavam diante de 10 mil torcedores que vibravam com a proeza histórica que tinham acabado de testemunhar.

Jogadores celebram a classificação após a partida (foto - site oficial da UEFA)

Jogadores celebram a classificação após a partida (foto – site oficial da UEFA)

Até então, como lembra o diário espanhol El País, a maior façanha da seleção islandesa tinha ocorrido em 25 de setembro de 1991 na vitória por 2 a 0 sobre a Espanha de Butragueño, Míchel, Martín Vázquez e Zubizarreta nas eliminatórias para a Euro 1992 que seria disputada na Suécia.

Na verdade, por pouco, a Islândia não disputou a Copa de 2014 no Brasil, já que por ter chegado na segunda posição no Grupo vencido pela Suíça nas eliminatórias, ela foi obrigada a disputar uma vaga no playoff para a Croácia, quando acabou derrotada.

Pois, no mesmo domingo, no Campeonato Europeu de Seleções de Basquete, a seleção da Islândia enfrentou, em Berlim, de igual para igual, a Itália dos astros internacionais Marco Belinelli (Sacramento Kings), Danilo Galinari (Denver Nuggets) e Nicolò Melli (Brose Baskets Bamberg) e só foi superada, nos últimos 3 minutos de um jogo cujo placar indica o equilíbrio com que foi construído: 71 a 64 para os italianos.

A explicação mais lógica para esta evolução esportiva fabulosa tem a ver com a decisão governamental tomada em 2002 de investir na prática de esportes coletivos como um instrumento de combate ao alcoolismo e ao tabagismo que se alastrava perigosamente na juventude do país.

Federação de Futebol da Islândia

Federação de Futebol da Islândia

Um investimento significativo foi realizado através da Federação de Futebol da Islândia – KSI – na construção de instalações esportivas modernas e acessíveis aos praticantes e na formação de técnicos e profissionais em cursos de alto nível promovidos pela UEFA.

O projeto era tão consistente e foi tão bem aceito pela população que sobreviveu ao dramático ano de 2008 quando a economia da Islândia quebrou, numa das mais graves crises econômicas de um país europeu naquele momento. A população, por orgulho e pela paixão pelo próprio futebol, encontrou meios de garantir que a ampliação da prática esportiva entre os jovens não sofresse com a falência da economia do país.

A construção de instalações para a prática do futebol teve que enfrentar o problema do rigorosíssimo e longo inverno que praticamente impedia sua prática em campos ao ar livre e gramado natural por quase 7 meses a cada ano. Desde 2002, 7 campos oficiais “indoor” e outros 20 campos com medidas oficiais e gramado artificial foram construídos pelo país. Além disto cerca de 130 escolas públicas passaram a dispor, cada uma delas, de pelo menos um campo de futebol (não necessariamente com medidas oficiais) com grama artificial. Com isto os jovens passaram a jogar futebol o ano inteiro, mesmo nos períodos de inverno. De dia ou de noite.

Por outro lado, a KSI formulou um programa avançado e de alta qualidade para a formação de técnicos de futebol. Há quem diga que em nenhum outro país da Europa há tantos técnicos, por jogador, com formação nos cursos oficiais da UEFA em níveis A e B. Com isto o trabalho na formação dos jovens jogadores passou a ser realizado em nível elevado e padronizado já que são todos ministrados por técnicos qualificados. Segundo dados da KSI o país contava, em 2013, com 165 técnicos de nível A e 563 técnicos de nível B da UEFA, espalhados por todas as regiões, garantindo mais técnicos per capita do que na Espanha ou Alemanha, por exemplo.

Bandeira da UEFA

Assim os jovens islandeses são orientados no mesmo padrão, com todas as cidades – maiores ou menores – se orgulhando de ter boas instalações, bons técnicos – talvez entre os melhores da Europa -, capazes de formar jogadores promissores em todas as idades. Segundo as estatísticas oficiais há 21 508 jogadores de futebol registrados na Islândia,  enquanto na Holanda são 1 138 860 e na Alemanha 6 308 946.

O entusiasmo dos islandeses com o futebol, em geral, e sua seleção, em particular, fez com que cerca de 3000 torcedores – 1% da população islandesa – viajassem até Amsterdam, na última quinta-feira, para acompanhar a importante vitória sobre a Holanda por 1 a 0 pelas eliminatórias da Euro 2016. Na proporção, equivaleria a que 550 mil ingleses seguissem o English Team ou 800 mil alemães acompanhassem a atual seleção campeã do mundo numa partida realizada noutro país.

Diante da classificação histórica para a UEFA Euro 2016 o técnico Lars Lagerback já tem sido tratado como herói do futebol. Segundo o diário inglês The Guardian, ele reagiu lúcida e realisticamente: “Eu jamais diria que eu sou um herói. Martin Luther King, Nelson Mandela e pessoas como eles são verdadeiros heróis. Eu sou apenas um técnico de futebol. Dizem que é um conto de fadas e eu acho até que é num determinado sentido, mas não num outro. Este é o resultado do trabalho árduo de muita gente. Todos nós evoluímos”.

Lars Lagerback foi técnico da Suécia e da Nigéria (foto - site oficial da UEFA)

Lars Lagerback já foi técnico das seleções da Suécia e da Nigéria (foto – site oficial da UEFA)

Lagerback, quando técnico da seleção sueca, a classificou para as todas competições internacionais importantes entre 2002 e 2008, mas a façanha islandesa o comove: “As classificações com a Suécia foram fantásticas, mas esta com a Islândia foi absolutamente especial. O povo está orgulhoso e você pode sentir isto nas ruas. Eu digo, do fundo meu coração, que estou tentando encontrar as palavras certas para descrever o que sinto no momento”.

O testemunho do islandês Heimir Hallgrímsson, 48 anos, assistente técnico de Lagerback, publicado pelo Guardian, é definitivo sobre o significado histórico da classificação para a UEFA Euro 2016: “quando eu e Lars começamos a trabalhar juntos ele me disse que nosso time era forte o suficiente para disputarmos a Copa de 2014 no Brasil. Eu achei que ele estava louco mas, aos poucos, eu comecei a acreditar também. Nós quase fomos ao Brasil. Nós encaramos a eliminação para a Croácia de uma maneira positiva. Os jogadores viram ali que eles eram realmente bons”.

Os destaques da atual seleção estão espalhados pelo continente: Gylfi Sigurdsson, meia atacante do Swansea City do País de Gales; o capitão Aron Gunnarsson do galês Cardiff City; o goleiro Hannes Halldorsson do NEC holandês; o zagueiro Kari Arnason do Malmo FF da Suécia; o meia Birkir Bjarnason  do suíço Basel e o atacante Kolbeinn Sigthorsson do francês Nantes.

A Islândia, líder do Grupo A com 19 pontos em 8 partidas, ainda tem duas partidas a disputar nas eliminatórias da UEFA Euro 2016: dia 10/10, em casa, contra a Letônia e, no dia 13/10, fora de casa, contra a Turquia. A República Tcheca que com os mesmos 19 pontos é a outra seleção já classificada do grupo é a única seleção que derrotou a Islândia até aqui na competição.

O capitão Aron Gunnarson tem 26 anos

Aron Gunnarson tem 26 anos (foto – site oficial da UEFA)

A proeza da seleção da Islândia pode ser sintetizada pelas palavras do capitão Aron Gunnarson, após a classificação, publicadas pelo site oficial da UEFA: “É inacreditável. Estou chocado. Trabalhamos tão duro para chegar até aqui. Somos o primeiro time islandês a se classificar para uma fase final. Quando comecei a jogar futebol, eu jamais sonhei que isto poderia acontecer”.

Atualizado às 08:09h do dia 08/09/2015



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