A inesquecível generosidade do povo livre de Medellín. Vamo, vamo, Chape!



Atualizada às 12:40 de 02/12/2016

 

O comovente tributo do povo da cidade de Medellín a todas as vítimas do acidente aéreo da última segunda-feira, realizado no estádio Atanásio Girardot, ontem, no exato horário em que aconteceria a partida entre o Atlético Nacional e a Chapecoense merece ser encarado como um dos momentos mais sublimes e generosos que presenciamos em nossas vidas. E não apenas no futebol.

Aquela inesquecível manifestação espontânea de dezenas de milhares de pessoas me fez refletir sobre a peculiar trajetória que o povo colombiano trilhou nas últimas décadas para superar uma longa e tenebrosa fase em que o país esteve subjugado e oprimido pela terrível e mortífera combinação do narco-terrorismo com a guerrilha urbana e rural. Foi um tempo em que o país viveu uma verdadeira guerra com a presença ostensiva das forças de segurança nas ruas.

Neste processo devemos inserir a transformação do finado e encalacrado “Nacional de Medellín” neste “Atlético Nacional” com um dos casos mais interessantes e empolgantes de reconstrução da imagem e dos compromissos de um clube de futebol ou até de uma entidade civil que eu tenho conhecimento. Inclusive na forma como passou a ser identificado internacionalmente.

Acompanhei a delegação do Flamengo para o jogo contra o Nacional de Medellín pela Copa  Libertadores de 1993 – quando venceu por 1 a 0, gol do Renato Gaúcho – numa época em que o clube colombiano ainda era estreitamente ligado ao poderosíssimo narcotraficante assassino Pablo Escobar que viria a morrer no final daquele ano.

Naquela oportunidade pude constatar a espantosa popularidade do Nacional que fazia com que o estádio Atanásio Girardot estivesse sempre repleto de uma gente animada, fanática, mas muito afetuosa.

No entanto a presença oculta, mas real e determinante, de Escobar influenciava o dia a dia do clube. Foi marcante e sinistro o episódio do sequestro do árbitro que apitou a jogo de volta da Libertadores de 1990 entre Nacional x Vasco da Gama. A partida acabou por ser anulada. Uma outra foi disputada em Santiago do Chile. O Nacional já conquistara o título da competição em 1989.

Naquela viagem pude sentir perfeitamente que tudo naquele clube e na cidade funcionava à sombra do poder e da influência de Escobar. Aquela experiência de poucos dias me fez pensar sobre como deveria ser doloroso que pessoas tão amáveis e acolhedoras fossem obrigadas a viver sufocadas e em risco permanente sob o poder de um facínora!

Posso afirmar que “aquele” clube jamais teria a atitude que “este” teve. Este Atlético Nacional parece ter sido libertado e com isto permitido que aquelas pessoas amáveis se sentissem livres para se manifestar como ontem e para curtir sua paixão pelo futebol. Talvez o clube tenha se adequado definitivamente ao calor, à liberdade e à generosidade de sua torcida e de seu povo.

Medellín parece ter decidido como cidade, como população, como clube, através do Atlético Nacional, viver de outra maneira depois de ter superado com enorme sacrifício e anos de batalha o terrorismo e o narcotráfico.

Hoje é o Atlético Nacional que enebria seus torcedores, que pratica um futebol de excelência e se comporta como uma instituição generosa e de grandeza incomum como provou diante deste terrível desastre aéreo que vitimou 71 pessoas.

A partir de 30 de novembro de 2016 todos os brasileiros têm todos os motivos do mundo para retribuir eternamente a inesquecível atitude do povo colombiano e, particularmente, do Atlético Nacional e de seus torcedores.

Vamo, vamo, Chape! Vamo, vamo, Atlético Nacional!



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