Futuro da Catalunha e do Barcelona entrelaçados



As eleições regionais do próximo domingo, 27 de setembro, definirão se o povo da Catalunha – estimado em 8 milhões de pessoas –  deseja caminhar na direção da independência da região situada na região nordeste da península ibérica, que conta com a cidade de Barcelona como capital e que teve sua autonomia destituída ao final da Guerra de Sucessão Espanhola (1702-14), quando seu território foi unificado ficando sob domínio do idioma castelhano. Desde o século XIX ressurgiu um movimento de resgate da identidade cultural da região, que tem inspirado a luta pela independência da Catalunha. No caso da vitória dos partidos partidários da posição independentista como ficariam o esporte em geral e o futebol em particular?

O debate paralelo sobre a exclusão do Barcelona e do Espanyol da La Liga certamente interferirá no resultado do pleito. No debate político a possibilidade de que a vitória da posição independentista traga prejuízos ao Barcelona FC passou a influenciar o posicionamento da população.

FC Barcelona- "mais do que um clube"

FC Barcelona- “mais do que um clube”

O presidente da Liga de Futebol Profissional -LFP – Javier Tebas, em entrevista à rede pública de televisão TVE, assegurou que a legislação não permite que equipes estrangeiras disputem as competições das ligas profissionais da Espanha, exceto as entidades esportivas da região de Andorra¹.

Para Tebas “a lei é muito clara. Caso a Catalunha ganhe a independência, o Barcelona deixará de jogar o campeonato espanhol. Os únicos clubes não espanhóis que podem competir são os clubes de Andorra”. O dirigente vai além e inclui clubes como o Español de Barcelona, Girona, Gimnastic e Llagostera, de outras divisões, que seriam impedidos de pertencer aos campeonatos profissionais da Espanha.La liga

O diário esportivo Marca, de Madrid, entrou no debate de maneira enfática alertando que a criação de uma liga catalã de futebol mudaria definitivamente a história, provocando uma “ruína” para o futebol e o esporte da Espanha. O diário lembra que o Barcelona gera algo como €150 milhões por ano com a negociação dos direitos de TV e que os clássicos contra o Real Madrid são determinantes para que as cifras sejam tão elevadas pelo interesse que despertam mundo afora. O próprio Real Madrid e os demais clubes que “teoricamente” permaneceriam na La Liga acabariam profundamente afetados com a exclusão das equipes catalãs da disputa. A manchete do Marca sintetiza o cenário, segundo seu ponto de vista: ” A Liga catalã é uma viagem a lugar nenhum”.

Uma pesquisa promovida entre internautas do Marca.com indica que a grande maioria entende que “a La Liga perderia com a independência, mas o Barcelona perderia ainda mais.”

Curiosamente o site do diário esportivo catalão Mundo Deportivo ignora o noticiário sobre as eleições do próximo domingo e suas consequências no esporte espanhol.

O presidente do Barcelona FC, Josep Maria Bartomeu, tem feito o possível para não vincular o clube ao processo eleitoral em curso, apesar da instituição historicamente ser vinculada ao movimento de valorização de sua identidade catalã.

La Liga sem Messi? Ruim para o Barça, ruim para o Real Madrid (foto - site oficial do FCB)

La Liga sem Messi? Ruim para o Barça, ruim para o Real Madrid (foto – site oficial do FCB)

O presidente do Conselho Superior de Esportes do governo espanhol, Miguel Cardenal, num discurso que tem sido chamado como do “medo” pelos defensores da tese independentista, comparou a situação do Barcelona, na hipótese de criação de uma Liga Catalã, com a do Ajax de Amsterdam que “arrecadou apenas €25 milhões por disputar uma competição como a Eredivisie (a liga de futebol profissional holandesa). Além disto o Barça fatura outros €100 milhões de bilheteria nos jogos do Camp Nou. Não acredito no cenário da independência. Encaro o Barça como algo meu e o defendo. É uma piada imaginar o cenário se há independência. Num país com cerca de 8 milhões de habitantes o Barça seria um clube formador como um Ajax, Celtic ou Standard Liège, chegaria no máximo às quartas de final da Champions League. Não faço o discurso do medo.”

Pau Gasol se nega a ser manipulado na eleição de domingo (foto - site oficial de PG)

Pau Gasol se nega a ser manipulado na eleição de domingo (foto – site oficial de PG)

O principal atleta espanhol do momento, Pau Gasol, campeão europeu de basquete no último domingo e catalão de nascimento, faz questão de se manter alheio ao debate: “Eu sei o que quero, mas minhas opiniões pessoais ficam com comigo. Não gosto que manipulem a opinião de desportistas nos momentos de sucesso. Não entendo de viabilidades políticas”. Sobre a hipótese de acontecer um campeonato espanhol de basquete sem o Barcelona, Gasol se revelou descrente:”uma liga profissional espanhola sem o Barça nunca existiu. Não sei, são palavras, uma situação hipotética. E as pessoas que tem responsabilidade tem que fazer suas opções”.

Pep Guardiola considera inevitável a independência catalã. (foto - site oficial do FC Bayern)

Pep Guardiola considera inevitável a independência catalã. (foto – site oficial do FC Bayern)

Já Pep Guardiola, catalão e técnico do Bayern de Munique, ao contrário de Gasol, tem opiniões claras e as manifestou publicamente através do diário catalão El Punt Avui:”a independência chegará cedo ou tarde. Não há como recuar. A Espanha e a Catalunha serão melhores”.

Guardiola lamenta estar fora do país nestes momentos e se diz ansioso pelos desdobramentos das eleições: “a verdade é que não sei o que acontecerá, mas me parece que nunca houve uma situação como a atual, excepcional. Agora não votamos apenas em que será nosso presidente. Votamos agora o que queremos ser, com todo o entusiasmo, o que somos e isto à vezes nos custa muito.”

 

1 – Andorra é um pequeno principado localizado entre o nordeste da Espanha e o sudoeste da França, com pouco mais de 70 mil habitantes, que se enriqueceu pelo turismo e por ser um paraíso fiscal. Tem o catalão como língua oficial.


 Atualizado às 11:58 de 23/09/2015



  • Juliano Sommariva Jr

    Balela… é perfeitamente possível mudar a lei.
    Quem perderia com a saida do Barça é a LIGA e não o Barça.
    Coisas do gênero já acontecem na Premier League e na Major League, onde times de Gales e Canadá disputam as ligas, respectivamente.

    • Marcelo Abdul

      A situação é bem diferente. Seria uma senhora contradição um dos principais símbolos da Catalunha implorar ficar no país pelo qual querem se separar. Toda indenpendência de uma certa forma é traumática em todos os sentidos. Os escoceses viram isso e decidiram se manter no Reino Unido. É o preço que a Catalunha e o Barça terão que pagar. Vão ter que recomeçar com as próprias pernas.

      • Juliano Sommariva Jr

        Futebol é futebol cara. Política é Política, e geografia é geografia…
        uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa.

        E repito, para mim, quem perderia com a saida do BARÇA da LA LIGA é a LIGA, e não o BARÇA….

        Mas é perfeitamente possível haver a separação territorial, e manter a LIGA como é atualmente. Basta uma caneta.

      • Juliano Sommariva Jr

        E digo mais, esse bafafá todo é por causa de uma consulta pública sobre a separação da CATALUNIA, que provavelmente será aprovada. Daí a acontecer de fato é outra história pq não depende só da CATALUNIA.

        E se acontecer, será só a primeira de várias. Pois a região da Galícia, a região do Pais Vasco, e outras regiões da espanha tendem a pedir separação também. O que não vai acabar com o REINO DE ESPANHA, mas dará autonomia fiscal, política e econômica para as regiões.

    • marco soares

      Gales é uma nação mas não é um estado, faz parte do Reino Unido da Grã-Bretanha.

      • Juliano Sommariva Jr

        Exatamente. Você leu o texto?

  • luiz das graças matias

    ta ficando facil e sem graças para o real madri sem barça acaba o campeonato espanhol.

MaisRecentes

Frank de Boer chega ao Crystal Palace sem negar que tem o DNA do Ajax



Continue Lendo

O prodígio gigante Donnarumma é o personagem das semifinais do Euro Sub 21



Continue Lendo

FIFA preocupada com boicote de países árabes ao Qatar, organizador da Copa de 2022.



Continue Lendo