Donald Trump complica a disputa entre Marrocos e América do Norte pela Copa de 2026



Atualizado às 22:03h de 12/06/2018

 

A FIFA decidirá amanhã, em seu 68º Congresso, no Expocentre de Moscou, onde será realizada a Copa do Mundo de 2026. Há duas candidaturas: Marrocos e a United 2026 reunindo México, Canadá e Estados Unidos. Esta é a quarta tentativa do país africano de sediar o Mundial da FIFA.

A disputa está mais acirrada do que muitos previam. A geopolítica do futebol ganhou contornos ainda mais sensíveis em função dos desdobramentos das denúncias de corrupção que provocaram a prisão de vários dirigentes e empresários ligados à CONCACAF  e à CONMEBOL e ao afastamento e punição do ex-presidente da FIFA Joseph Blatter e do ex-presidente da UEFA Michel Platini.

Um derradeiro capítulo relevante do processo de escolha aconteceu na manhã desta terça-feira quando representantes das duas candidaturas apresentaram seus projetos aos membros dos países filiados à UEFA.

Os países da CONMEBOL, incluindo o Brasil, já se decidiram por votar em bloco na candidatura United 2026, enquanto a vasta maioria dos países africanos apoia o pleito marroquino. A CBF estará presente no Congresso com o presidente Antonio Carlos Nunes de Lima e o vice presidente Fernando Sarney.

A Europa ainda parece indefinida. A França, entretanto, vem se destacando pelo empenho na defesa da candidatura de Marrocos, assim como a Rússia, a Bélgica, Luxemburgo e a Sérvia.

Infantino tem recebido cartas de Trump (foto – fifa.com)

O presidente da Federação de Futebol da França, Noël Le Graët, declarou ao diário francês L’Équipe que durante a apresentação desta terça-feira “levantei a mão para falar e fui o único a fazê-lo. Mais uma vez apresentei a posição da França e as relações amistosas que temos com o Marrocos, como acontece com a maioria dos países africanos. Disse que talvez tenha chegado a hora de devolver à África o que ela deu ao futebol europeu”.

Meses atrás a candidatura United 2026 parecia imbatível, mas vários fatores vem interferindo fortemente no processo eleitoral a debilitando e fortalecendo a opção do país africano. Um dos mais importantes tem a ver com a politica adotada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, de aplicar severas restrições a entrada no país de visitantes de vários países no mundo.

Segundo artigo de Kevin Baxter do diário Los Angeles Times a candidatura norte americana é forte favorita à escolha.

O problema atingiu de forma tão contundente o processo eleitoral que o presidente americano se viu obrigado, nos últimos tempos, a escrever 3 cartas em papel oficial da Casa Branca endereçadas ao presidente da FIFA Gianni Infantino. Nelas ele se esforça por apoiar firmemente a candidatura United 2026 com “garantias cada vez mais específicas de que equipes estrangeiras, autoridades e até mesmo torcedores não enfrentariam restrições para entrar nos EUA para os jogos da Copa do Mundo de 2026 se seus países se qualificassem para o torneio. Com efeito, as cartas asseguraram aos funcionários que votariam no evento que a posição linha-dura de Trump sobre vistos não se aplicaria à Copa do Mundo”, segundo relata o jornalista Andrew Das do diário The New York Times.

Foto oficial de Donald J. Trump (foto – Shealah Craighead)

O assunto mobilizou inclusive o genro do presidente Trump, Jared Kushner, que tem utilizado sua proximidade com a família real saudita para que a federação daquele país manifeste publicamente que votará com a candidatura da América do Norte.

A verborragia antiimigrante de Trump tem sido inteligentemente utilizada pelos apoiadores de Marrocos para fragilizar seus opositores. Segundo eles, a Copa do Mundo de 2026 será a primeira que envolverá a participação de 48 seleções. O que seria uma vantagem americana, com estrutura para acomodar mais de 1000 atletas, estádios modernos, infraestrutura adequada de hotel, transporte e comunicação está sendo minada pelo questionamento quanto às limitações de acesso de cidadãos de muitos países aos EUA definidas pelo governo Trump. O Irã, por exemplo, participou das duas últimas Copas e está na lista de países sob severas restrições aos seus cidadãos de acesso aos Estados Unidos. O mesmo acontece com os sírios que estiveram próximos de se classificar para o Mundial da Rússia.

O ex-presidente Joseph Blatter declarou sua simpatia pela candidatura de Marrocos através de um tweet em fevereiro deste ano: “A FIFA já rejeito candidaturas conjuntas depois de 2002. E agora, Marrocos seria a escolha lógica.É hora da África de novo”.

A matéria do The New York Times lembra que, outro movimento significativo do governo americano com o objetivo de garantir total desobstrução de acesso aos EUA de pessoas ligadas aos países classificados para a Copa de 2016, partiu do ex-secretário de estado Rex Tillerson, ao enviar uma carta ao presidente Infantino, em março passado, na qual ele assegura a intenção de “emitir vistos, sujeitos a elegibilidade segundo a legislação dos EUA, sem distinção de raça, cor da pele, origem étnica, nacional ou social, sexo, língua, religião, opinião política ou qualquer outra opinião, deficiência, riqueza, nascimento ou qualquer outro status, ou orientação sexual.

Segundo um relatório produzido pela própria FIFA a candidatura norte americana obteve nota 4 e a marroquina 2.7 numa avaliação em que 5 é nota máxima. O anúncio da aprovação de ambas as candidaturas aconteceu no último dia 10.

O presidente da Federação Americana de Futebol, Carlos Cordeiro, contextualiza a votação de amanhã em declaração ao Los Angeles Times: “não deve ser uma discussão ou decisão geopolítica. Deve ser baseada nos méritos da proposta. Temos certeza de que temos uma proposta convincente”. Além disto a Copa na América do Norte certamente renderá mais financeiramente não apenas para os países organizadores, mas também para a FIFA e para as federações nacionais vinculadas a ela.

Segundo levantamento atualizado diariamente pelo The New York Times, neste momento, a candidatura United 2026 tem 30 votos assegurados e 24 muito prováveis, Marrocos conta 21 votos certos e 7 prováveis, enquanto 125 permanecem indefinidos. O país a ser escolhido dependerá apenas de uma maioria simples, ou seja, 50% mais um voto (106 votos) dos 207 entidades nacionais filiadas à FIFA.

O Congresso da FIFA nesta quarta-feira poderá ser acompanhado ao vivo pelo FIFA.com e pela FIFA TV no Youtube. Ele votará também mudanças no estatuto e o orçamento da entidade para o período 2019 e 2022. O próximo Congresso acontecerá em Paris no dia 5 de junho de 2019.

¹ O formato da Copa de 2026 será diferente: grupos de 3 substituindo os grupos tradicionais de 4. Em cada um dos 16 grupos de 3, as duas equipes principais se classificarão para as fases eliminatórias, que será iniciada pela primeira vez pela 16ª de final. Este modelo já está sendo questionado por estatísticos.



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