A despedida de Berlusconi: o homem que fez do Milan o mais europeu dos clubes italianos



Em meio à atmosfera olímpica que nos enxurra de emoções e que nos faz sentir mais poliesportivos do que nunca o futebol de clubes experimenta o fim de um casamento de extraordinários desdobramentos. Este blog dá uma pausa na pauta da Rio 2016 para tratar de um fato absolutamente marcante do mundo do futebol.

Silvio Berlusconi não é mais o presidente, nem o controlador acionário do AC Milan. Ele negociou as ações que pertenciam à sua Fininvest para o fundo estatal chinês Europe Sports Investment Management Changxing numa operação que envolve globalmente cerca de € 740 milhões.

Fazia tempo que o magnata mais controverso da Itália pretendia passar o clube. Ele foi obrigado a isto. Berlusconi adquiriu o Milan quando seus negócios prosperavam em ritmo alucinante nos anos 80 e ele dispunha de condições de aportar recursos que ajudaram a transformá-lo num dos mais vitoriosos e respeitados do futebol internacional da fase moderna. Foi a combinação de recursos abundantes e competência na sua aplicação ao futebol, uma fórmula que não necessariamente resulta em sucesso.

Berlusconi nasceu em Milão e está com 79 anos.

Berlusconi nasceu em Milão e está com 79 anos.

Na maior parte do tempo que esteve sob seu comando o clube rubro negro viveu uma fase gloriosa com a conquista de títulos, contratações milionárias de craques e de outros jovens que acabaram se transformando em estrelas do futebol mundial. Das 7 Champions League conquistadas pelo clube, 5 delas vieram no período berluscosniano, que o transformaram no mais europeu dos clubes italianos. Nestes 30 anos foram 8 títulos da Série A.

O Milan. a partir da temporada 1986/87, se transformou numa potência futebolística e financeira. Milão vivia um boom econômico, que embalava toda a Lombardia, região onde ela se situa na Itália. Berlusconi sempre quis que seu time praticasse um futebol à sua semelhança: moderno, ambicioso, sedutor e conquistador.

Sacchi, Van Basten, Gullit, Baresi, Maldini, Ancelotti, Costacurtta, Rijkaard, Baggio, Boban, Schvenchenko, Nesta, Savicevic, Weah, Pirlo, Cafu, Seedorf, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e Kaká dentre outros protagonizaram passagens inesquecíveis da história do clube, da Itália, da Europa e do mundo.

Marco Van Basten uma das maiores estrelas do período (site oficial do AC MIlan)

Marco Van Basten uma das maiores estrelas do período (site oficial do AC Milan)

Num segundo momento, o Milan serviu de instrumento político para o empresário bilionário se transformar no homem mais poderoso da Itália chegando ao cargo de primeiro ministro. A popularidade angariada pelo resultados na gestão de um clube futebol gerou também um nível de antagonismo que, aos poucos, viria a se voltar contra ele.

Berlusconi sofreu tantos processos, tantas limitações na sua capacidade de agir e investir que foi inevitável que o clube viesse a sofrer consequências. Ele foi de tal forma golpeado pela justiça que, mesmo rico, ele ficou impossibilitado de seguir investindo no Milan. Sua ação no cotidiano do clube passou a ser exercida através de sua filha Bárbara. Para um homem apaixonado pela prática do poder esta situação simbolizava o início de sua despedida.

A decadência esportiva foi rápida e cruel. A última participação relevante do Milan na Champions League foi na temporada 2011/12, quando chegou às quartas de final. A partir dali um dos principais clubes compradores do mundo deixava de existir. Thiago Silva e Zlatan Ibrahimovic foram negociados para o PSG simbolizando o fim da era próspera e vencedora do clube. Há duas temporadas consecutivas o Milan está fora da Champions League o que implica em inestimável prejuízo esportivo, de imagem e financeiro. Nas última duas temporadas aconteceu o inimaginável: a competição não contou com o Milan sequer na fase pré-classificatória.

Schevchenko, Van Basten, Maldini e Kaká estão na história do Milan (site oficial do AC Milan)

Schevchenko, Van Basten, Maldini e Kaká estão na história do Milan (site oficial do AC Milan)

Berslusconi é um mito em seu país, daqueles que o dividem entre os amantes e aqueles que o odeiam. Sua relação com o cidadão italiano típico, com o torcedor do Milan, com o próprio futebol pode ser captada através da carta que escreveu para a torcida se despedindo do comando administrativo e do controle acionário do clube.

Vi de perto o início de tudo. Acompanhei o Milan em San Siro, ainda nos anos 80, quando Gullit e Van Basten eram desconhecidos do público brasileiro que só viria a conhecê-los e naturalmente admirá-los a partir de quando a TV Bandeirantes passou a exibir partidas do Campeonato Italiano ao vivo aos domingos.

Berlusconi é um mafioso dos maiores, mas com a colaboração inestimável de Adriano Galiani e Ariedo Braida, foi capaz de me proporcionar espetáculos do futebol que jamais esqueceremos.

Carta de Silvio Berlusconi aos milanistas:

Há trinta anos comprei o Milan por amor. Eu o negocio por um ato de amor ainda maior: confio o time a um grupo que dispõe dos recursos necessários e a vontade de investir para fazer o Milan capaz de competir com os maiores clubes internacionais. Estou naturalmente comovido e triste, mas também sereno pela convicção de ter agido mais uma vez por o bem do Milan de quem continuarei a ser sempre o mais ardente dos apaixonados.

Destes trinta anos ficarão no coração lembranças extraordinárias, inigualáveis: tive o privilégio de conduzir o time que eu amo a se transformar no clube mais vitorioso do mundo. Recordo e agradeço aos grandes jogadores, técnicos e dirigentes que por aqui passaram: muitos deles farão parte para sempre da história do futebol, história que contribuímos para ser escrita com vitórias extraordinárias na Itália, na Europa e no Mundo.

Mas, sobretudo, não me esquecerei jamais da participação e do afeto dos torcedores: a paixão de milhões de pessoas pelas cores rubro negaras sempre foi determinante para fazer deste time algo especial, diferente de todos os outros, mais forte do que todos, mais forte que a inveja, mais forte que a injustiça, mais forte que a má sorte. Ao lado delas eu estarei para torcer e para sofrer: mas estou certo que em breve comemoraremos juntos as novas grandes conquistas com as quais o Milan saberá honrar a sua grande tradição. Um abraço forte… e rubro negro em cada um de vocês”.

Silvio Berlusconi

 

 

 



  • Paulo Rogério B. Lopes

    Grande Milan

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