Blatter renunciou. A FIFA agora precisa se reinventar e não apenas eleger um novo presidente.



A renúncia do presidente da FIFA, Joseph Blatter, apenas quatro dias após ter sido reeleito e 17 anos após ter chegado ao poder, apesar de ter sido desejada e proposta por alguns dos principais dirigentes do futebol mundial nos dias que antecederam sua reeleição na última sexta-feira, não deixa de ser surpreendente e bombástica.

Segundo o site do diário americano The New York Times a decisão de Blatter foi provocada pela confirmação vinda de agentes da justiça americana de que ele efetivamente está no foco de uma investigação de corrupção federal. Ainda segundo o site alguns agentes de justiça dos Estados Unidos, falando em off, garantiram que estavam perto de conseguir a colaboração de alguns dos dirigentes da FIFA já presos e com isto concluir como todos se organizavam, incluindo o presidente Blatter.

A reação do presidente da UEFA, Michel Platini, expressa o estado de choque da comunidade futebolística internacional. ao não avançar em conclusões precipitadas no comentário sobre a atitude do presidente Blatter:”foi uma decisão difícil. Uma decisão corajosa. Uma decisão correta”.

Joseph Blatter está há 17 anos na presidência da FIFA ( foto - site oficial da FIFA)

Joseph Blatter no discurso em que anunciou sua renúncia ( foto – site oficial da FIFA)

Blatter, em seu discurso desta tarde em Zurique, reconheceu que as condições políticas e institucionais que cercam a FIFA, no momento, praticamente inviabilizariam sua capacidade de governar. Ele interpretou com inteligência o resultado eleitoral e percebeu o que ainda está por vir da investigação em curso da justiça americana sobre a utilização do mercado financeiro daquele país para a movimentação de recursos frutos de negociações corruptas de contratos de direitos de competições de futebol internacional. Foi uma vitória que desnudou uma fratura gravíssima  no seio da comunidade futebolística mundial, exposta mais ostensivamente pelas atitudes e declarações dos principais dirigentes e personalidades representativas do futebol europeu.

No discurso em que anunciou sua renúncia e prometeu antecipar a convocação de um novo congresso que promova nova eleição, Blatter fez questão de reconhecer algumas das tarefas inadiáveis que estão colocadas para o principal mandatário da FIFA: “nós precisamos de uma profunda mudança estrutural. O tamanho do Comitê Executivo precisa ser reduzido e seus membros devem ser eleitos pelo Congresso da FIFA. A apuração da integridade de todos os membros do Comitê Executivo precisa ser organizada de maneira centralizada pela FIFA e não não mais através das Federações. Nós precisamos impor limites não apenas para os mandatos do presidente mas para os de todos os membros do Comitê Executivo também. Eu tenho lutado por estas mudanças há algum tempo e, como todos sabem, meus esforços tem sido bloqueados”.

Sede da FIFA em Zurique na Suíça ( foto - site oficial da FIFA)

Sede da FIFA em Zurique na Suíça ( foto – site oficial da FIFA)

O problema, portanto, é que Blatter apesar de ter prometido realizar uma reforma interna no funcionamento da FIFA desde sua última eleição em 2011, ele foi incapaz de concretizá-la. Sua promessa na ocasião foi explícita: “Nós vamos recolocar o nosso navio no curso certo, em águas claras, transparentes. Precisaremos de algum tempo, não podemos fazer isso de um dia para o outro, mas a nossa pirâmide está intacta, porque sua fundação é sólida, tão sólida quanto o nosso jogo”.

E, pior, ninguém acreditou que o faria nos próximos 4 anos para os quais fora reeleito, até por que, ele voltou a usar em sua manifestação após a vitória na última sexta-feira palavras parecidas as que proferiu em 2011.

A partir de agora se abre um cenário imprevisível, mas que, para o bem do futebol, não pode se limitar à discussão sobre quem deve ser eleito como sucessor do presidente que acaba de renunciar.

O processo que culminará na nova eleição prevista para acontecer entre dezembro de 2015 e março de 2016 será conduzido, por determinação do presidente Joseph Blatter, pelo presidente da Comissão da Auditoria e Sindicância da FIFA, Domenico Scala, que nos últimos dias, revelou em entrevista ao diário O Estado de S. Paulo que “no momento, o maior maior risco para a Fifa é seu Comitê Executivo e seus membros. Eu tenho dito isso antes e não poderia ser mais verdade hoje. A má conduta de vários membros no passado e possivelmente recentemente danificou a reputação da Fifa”.

O problema da FIFA é profundo, grave e que não vai ser superado apenas se o debate se restringir à exigência de honorabilidade por parte de que quem deve ocupar seus cargos. A FIFA cresceu muito e é vítima desta sua fabulosa expansão sem o amadurecimento de um novo modelo de gestão que garanta a eficiência e a transparência de sua administração.

A FIFA organiza uma Copa do Mundo a cada 4 anos. Trata-se de um evento de alcance planetário que pela competência da direção dela mesma e de seus parceiros foi capaz de atingir um formato que gera receitas extraordinárias e crescentes a cada edição. A FIFA se transformou numa máquina de fazer dinheiro. No entanto, a utilização destes recursos é decidida de forma discricionária, centralizada e pouco transparente dando margem à sua manipulação de maneira corrupta e politiqueira.

Michel Platini é um dos nomes apontados como provável candidato no novo pleito (foto - site oficial da UEFA)

Michel Platini é um dos nomes apontados como provável candidato no novo pleito (foto – site oficial da UEFA)

Portanto, é fundamental a partir de agora, que a opinião pública internacional, a mídia e as entidades representativas do futebol não se mobilizem apenas para discutir e definir as pessoas que terão a responsabilidade de reformar a FIFA, mas também para encontrar soluções políticas e institucionais que impeçam a reprodução de distorções como a propagação de práticas incorretas, corruptas e criminosas no futuro.

A FIFA é uma entidade que foi capaz de transformar o futebol num fenômeno global. Foi a FIFA, a partir do meio da década de 1970, seus programas e iniciativas que trouxeram a África, a Ásia e o Oriente Médio para o mundo do futebol, rompendo com um passado elitista, quase colonialista quando ela era hegemonizada pelos interesses dos principais países europeus. Este movimento de internacionalização da prática do futebol foi financiado pelas grandes empresas anunciantes que também se interessavam em conquistar estes novos mercados de consumo.

A FIFA não precisa apenas de uma democratização formal e burocrática. Ela precisa ir além e se reinventar. Mudar apenas as pessoas, por mais respeitáveis que elas sejam e mais nobres seus objetivos, é certamente correr o risco de reprodução das práticas que desgraçaram seu funcionamento nos anos mais recentes.

Joseph Blatter é o 11º presidente da FIFA desde sua fundação no dia 21 de maio de 1904, em Paris. Ele foi precedido pelo francês Roberto Guérin, pelo inglês Daniel Burley Woolfall, pelo francês Jules Rimet, pelo holandês Rodolphe W. Seeldrayers, pelo inglês Arthur Drewry, pelo inglês Stanley Rous e pelo brasileiro João Havelange.

 

 

Atualizado às 06:05h do dia 03/06/2015



MaisRecentes

Guardiola vence o derby e celebra campanha com vitórias em Stamford Bridge e Old Trafford



Continue Lendo

Lillo, mentor de Guardiola e sucessor de Rueda, deixa o Atlético Nacional de Medellín



Continue Lendo

Florentino Pérez confia em Zidane e decide reforçar o elenco do Real Madrid



Continue Lendo