Ele construiu sua carreira com muita luta – Batemos um papo com Mirandinha ex-jogador do Corinthians



FOTO: Mirandinha comemorando o gol em homenagem aos nordestinos

FOTO: Mirandinha comemorando o gol em homenagem aos nordestinos

“Mas a minha vontade de vencer sempre foi maior do que o medo de voltar para a pobreza… Agradeço tudo o que a bola me deu, sofri muito, mas agora estou colhendo os meus frutos”.

FOTO: O ex-jogador Mirandinha está no Papo com Boleiro de hoje

FOTO: O ex-jogador Mirandinha está no Papo com Boleiro de hoje

O nosso convidado de hoje, é o ex-jogador Isailton Ferreira da Silva. Natural de Recife e, apaixonado pelo Corinthians, batemos um papo com Mirandinha.

Blog – Quem é hoje, o ex-jogador Mirandinha?

“Eu sou treinador profissional, já faz sete anos. No momento, não estou exercendo a profissão, mas sou professor na escolinha de futebol, no colégio chamado Instituto Brasília aqui em Recife. Estou fazendo o que gosto”.

Mirandinha fala sobre o a sua carreira

De origem humilde, Mirandinha passou boa parte da infância e juventude em uma favela da cidade pernambucana de Palmares. Mas com muita garra e determinação, conseguiu vencer na vida e, mesmo com altos e baixos, Mirandinha hoje se sente realizado em sua carreira.

Blog – A sua trajetória no futebol começou efetivamente no Sport, em 1989. Nesta época, você já se destacava pela facilidade com que deixava os marcadores para trás. Como começou a sua carreira no futebol profissional?

“Exatamente… Comecei a minha carreira no Sport Club Recife. Com muito sacrifício, porque naquela época, não existiam tantas escolinhas de futebol como existem hoje, no Brasil e principalmente no nordeste… Foi difícil chegar lá, mas quando eu cheguei, aproveitei a oportunidade… Eu fui aquele rapaz que saiu da favela muito grande, então a oportunidade bateu em minha porta e aproveitei… A minha velocidade era o que eu tinha de melhor. Cheguei ao profissional “precocemente”, pois, não passei pelos juniores… Alguns jogadores dos profissionais se machucaram e, não haviam outros jogadores para substituí-los. Os juniores estavam disputando a Taça BH, então, o treinador me chamou para participar do time profissional… O primeiro jogo foi logo um clássico contra o Náutico… Pronto, fui bem e não saí mais do time… Mas a minha vontade de vencer sempre foi maior do que o medo de voltar para a pobreza… Agradeço tudo o que a bola me deu, sofri muito, mas agora estou colhendo os meus frutos”.

Blog – Passou depois pelo Central de Caruaru, Ceará, Sport novamente, Noroeste de Bauru, Paysandu, Paraná Clube e Sion, da Suíça. Como foi o Mirandinha no futebol suíço?

“Verdade, corretíssimo, mas a minha saída do Sport foi complicada e creio que Deus permitiu que acontecessem coisas no clube para eu sair… Passei em seguida pelo Central, logo após, fui para o Paraná FC, fui campeão (sendo o melhor jogador de todos os tempos por lá – risos)… O Sion me comprou e, por lá, foi muito complicado. Muito frio e, não consegui me adaptar e nem me acostumar, sofri demais… Nos seis primeiros meses foram os mais difíceis. O presidente contratou um interprete para nos dar aula em casa (eu e minha esposa), aprender um pouco o Frances e, como um bom brasileiro, me adaptei bem a língua local. Fui artilheiro por três temporadas, mas o frio foi o meu maior adversário… A Suíça é o melhor país do mundo para se morar, com todo respeito ao meu Brasil”.

Blog – Agora no Corinthians, com 165 jogos entre 1996 e 1999, com 71 vitórias, 45 empates e 49 derrotas, tendo marcado 47 gols, sendo decisivo em várias oportunidades. Como foi a sua passagem pelo Corinthians?

FOTO: Mirandinha no Corinthians

FOTO: Mirandinha no Corinthians

“Foi um sonho realizado… O Corinthians sempre foi o clube do meu coração… A assinatura do contrato com o Corinthians foi o melhor momento da minha vida… No Corinthians eu fiquei conhecido, porque eu sempre fiz aquilo que o torcedor esperava: sempre tive garra, determinação e fazia gols… Eles (torcedores) estavam esperando um Evair (um matador, que é totalmente diferente do meu futebol), mas eu me dedicava, marcava, também fazia gols, tudo o que os torcedores queriam. Esse era o Mirandinha. E, quem não queria ter o Mirandinha no seu time?… Marcelinho lançava aquelas bolas espetaculares. De todos esses gols que eu fiz pelo Corinthians, uns 30 foram com passes dele (Marcelinho)!… Eu não batia falta, pênalti e nem escanteio. Eu não podia nem chegar perto das bolas paradas (risos)… Fiquei muito satisfeito em ter jogado pelo meu time de coração… Eu faria tudo de novo e mais um pouco pelo Corinthians… Só fico triste pelo atual momento que o clube está vivendo dentro de campo… Tudo que tenho e tudo o que sou, eu agradeço ao Corinthians”.

Blog – Após o Corinthians, você atuou pelos clubes: Juventude, Etti de Jundiaí, Al-Arley, da Arábia Saudita, e América Mineiro, esse último sendo o clube onde você encerrou a sua carreira. Como foi o encerramento da sua carreira? Você acha que foi um encerramento prematuro?

FOTO: Mirandinha no Juventude

FOTO: Mirandinha no Juventude

“Pois é, eu saí do Corinthians e “rodei” a metade do mundo… Cheguei ao América Mineiro, disputei o campeonato brasileiro, fiz alguns gols, permaneci no clube mesmo com os salários atrasados (ainda estão me devendo), me mantive jogando em alto nível. Nunca fui um jogador de ter vícios, tomava a minha cerveja no fim de semana… A maior tristeza da minha vida é o que eu vou relatar agora: ‘Do fundo do meu coração, parei de forma precoce. Parei por prepotência e arrogância minha. Pelo futebol que eu jogava, não precisava ter parado, nem contusão eu tive… ’ Posso te dizer de peito aberto que, 80% dos jogadores não estão preparados para encerrar as suas carreiras. Eu falo psicologicamente, porque financeiramente, já estão bem resolvidos… Eu entrei em depressão profunda por quase dois anos. Me isolei em minha casa de praia, me isolei da vida, dos amigos… Lutei contra a depressão e saí dela, com a ajuda da minha esposa e da minha filha… Mas a maior decepção da minha vida, foi ter parado de jogar cedo demais… Mas deixo uma dica para os jogadores atuais: antes de parar de jogar, pense e repense, para depois não ter o arrependimento”.

Blog – E o treinador Miradinha?

FOTO: Mirandinha, agora como treinador

FOTO: Mirandinha, agora como treinador

“O treinador Mirandinha é um “cara” que aprendeu muito com Luxemburgo, com Evaristo de Macedo, Joel Santa entre outros, peguei só as coisas boas… Durante um tempo, deu certo, fui campeão no interior pelo Araripina – time do interior de Pernambuco -. Treinei o Botafogo de Brasília, tirei o time de uma situação difícil… Dei umas cabeçadas, mas aprendi… Mas parei devido a algumas atitudes covardes de alguns dirigentes que querem montar times sem dinheiro, vêm querendo escalar o time e, jogadores passando necessidades com salários atrasados e eu sou muito honesto, não devo favor a ninguém e, por isso não os deixava escalar o time, isso não, eu não aceito. Não pagavam os salários e, ainda queriam escalar o time? Não, comigo não!… Aprendi isso com a vida e com os meus treinadores, prefiro me sacrificar a sacrificar o meu time… Parei e fui tomar conta dos meus negócios”.

Blog – Projeto social. Você possui uma escolinha de futebol?

“Sim, eu tenho uma parceria com o colégio Instituto Brasília e, junto com o André Pontes e o Artur Wilson, nós temos uma ONG… Eu sei que essa carreira de jogador de futebol é difícil, mas procuramos dar as oportunidades que eu não tive. Se não conseguirmos fazer grandes craques, com certeza faremos homens de bens… Já vamos abrir à segunda ONG em um bairro diferente. Não dependemos de ninguém, é totalmente gratuito, estou realizando um sonho”.

Curiosidades da carreira de Mirandinha

Blog – Por que você quase jogou no Palmeiras e desistiu?

“Eu estava no Corinthians, jogando um futebol de alto nível, já estava realizado na vida e, a Parmalat me comprou com o intuito de me levar para o Palmeiras… Primeiro fui para o Juventude, para fazer uma ‘ponte’. De repente, surgiu a notícia que eu poderia jogar no Palmeiras, meu amigo, os torcedores do Palmeiras fizeram faixas com dizeres ameaçadores e foi um terror. Confesso que eu fiquei com medo. Eu não quis nem voltar para São Paulo… Com isso, a Parmalat resolveu me emprestar para o futebol árabe… Foi engraçado, mas eu ‘pipoquei’, porque aquilo ali meu amigo, era uma bomba… Isso foi só uma especulação, se eu fosse mesmo, eu estaria morto (risos)”.

Blog – A sua saída do Corinthians foi devido a uma briga com o então técnico Osvaldo de Oliveira. O que aconteceu na verdade?

“Com certeza foi isso mesmo… Já no terceiro ano de Corinthians e, começaram a chegar alguns jogadores novos. Aconteceu um jogo do RJ/SP, Flamengo x Corinthians, no Rio de Janeiro, e, eu estava muito bem e ele (treinador) me tirou. Eu não gostei… Já no campeonato brasileiro, ele (treinador) me tirou de novo, para a entrada do Fernando Baiano… Nisso, acontece à primeira discussão e, eu peço ao meu empresário para me negociar… Fomos para pré-temporada em Águas de Lindóia e eu percebi que estava sendo sacado do time, foi quando eu vi que ali eu não teria mais chances de jogar… Foi quando eu disse umas verdades para o treinador. Depois disso ele pediu a minha dispensa…”.

Blog – Você e o Viola escreveram um capítulo a parte no futebol brasileiro. De brigas, provocações e amizades. Como você resume esse capítulo entre você e o Viola?

“Esse momento foi complicado! Houve um clássico entre Palmeiras x Corinthians. Antes dos jogos, nas concentrações, não ouvíamos rádios e, nem víamos TVs. Na descida do túnel no intervalo desse jogo, eu fiquei sabendo que o Viola (do Palmeiras), havia chamado os nordestinos de incultos. E nisso, eu faço o gol e, na comemoração, eu simulo que estou tocando uma viola, coloco-a no saco e a ponho nas costas. Mas devido às declarações dele (Viola), ele quase foi preso, foi uma fase difícil para esse “rapaz”. Por diversas vezes, na TV eu tive que desculpa-lo, a associação dos nordestinos queria processa-lo… Nesse jogo ele saiu machucado, não conseguiu nem terminar a partida. Ele falou sem pensar ou falou sem querer, até porque a mãe de Viola é baiana, por isso acredito que foi algo sem pensar… Depois ele se arrependeu e também joguei outros jogos beneficentes contra Viola, até mesmo na Paraíba, mas já passamos uma borracha nisso tudo”.

Blog – Agora, Mirandinha e Rincón. Saiu faísca?

“Aí sim foi um problema grande (risos)… Foi em um jogo entre Santos x Corinthians, na Vila Belmiro. O Luxemburgo já havia me dito para não voltar, porque eu pegaria o contra-ataque… O meio de campo do Corinthians era: Rincón, Vampeta, Edilson e Ricardinho. O Rincón não ouviu a ordem do Luxemburgo para ele marcar e eu ficar no contra-ataque e o adversário me tomou a bola e pronto, gol do Santos (não sei de quem – risos)… O Rincón me culpou  pelo gol e me chamou de “macaco”. Eu não gostei e revidei chamando-o do mesmo nome. Eu sou contra qualquer tipo de preconceito… Ele disse que me “pegaria” dentro do vestiário… Fim de jogo, fomos para o vestiário e ele me perguntou – Quem era o macaco? – E, eu lhe disse que ele havia me xingado primeiro. E, nisso eu já estava sem as minhas chuteiras e ficando só com o meião… Rincón veio com as chuteiras dele de travas de alumínio… Ele gritou me perguntando – quem era o macaco? E novamente lhe disse que o xingamento havia partido dele primeiro… Ele me deu uma braçada na cabeça e dei-lhe uma de volta e, graças a Deus, ele (Rincón) escorregou e eu me agarrei nele… Caímos no chão e foi pancada para todos os lados, e o pessoal do deixa disso apareceu e nos separou (sorte minha – risos)… O Luxemburgo nos suspendeu por 15 dias… Essa é a verdade, brigamos sim, mas depois de algum tempo, viramos amigos”.

Agora o papo é reto

Blog – Uma camisa?

“A camisa 11 do Corinthians”.

Blog – Uma partida inesquecível?

“Semifinal do campeonato paulista em Presidente Prudente, Corinthians 2 x 1 Palmeiras”.

Blog – Um gol memorável?

“Foi no jogo Paraná FC x Atlético-PR, gol de calcanhar, de fora da área e até hoje existe uma placa no estádio”.

Blog – O zagueiro mais difícil que você enfrentou?

“Junior Baiano”.

Lançamos a pergunta bomba

Blog – De todos os jogadores que atuaram ao seu lado e aqueles que foram os seus adversários, monte a seleção do Mirandinha:

“Veloso, Cafu, Gamarra, Célio Silva e Roberto Carlos; Rincón, Vampeta, Marcelinho Carioca e Alex; Mirandinha e Evair;”.

Blog – Deixe as suas considerações finais sobre a nossa coluna:

“Rapaz, eu estou agradecido pela lembrança. O Papo com Boleiro, já está ficando na memória do povo, perguntas inteligentes. Eu acho que estava faltando isso, resgatar as memórias dos ex-jogadores que os jovens não viram jogar e, ficarem sabendo o que eles fizeram, quem são eles (ex-jogadores) e, de onde eles vieram. Jamais alguém pensou em fazer isso com esse grau de responsabilidade, de sabedoria e de inteligência. Foi muito bom ter participado desta coluna e espero poder participar mais vezes, porque gosto de participar de entrevistas de alto nível onde podemos falar o que pensamos e o que está em nossos corações. Eu agradeço pela oportunidade. Parabéns pelo brilhante trabalho e, fiquem com Deus”.

Por: Luiz Otávio Oliveira

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E-mail: papocomboleiro@gmail.com



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