Recortes do precário futebol brasileiro



FOTO: Celso Pupo/Fotoarena

Os jogos de ida das semifinais da Copa do Brasil forneceram insumos para reflexões dos que se propõem a fazê-las. Quem se importa com o nível do jogo praticado no país deve estar preocupado, É alarmante o estado de precariedade em diversos aspectos. Marginalizemos um pouco as obviedades comportamentais: a tensão envolvida em jogos de mata-mata (fator que pode ser invocado para justificar a miséria dos placares: um gol apenas somadas as duas partidas) e o pragmatismo compreensível de técnicos que convivem com o pescoço em flerte permanente com a guilhotina. Pragmatismo que, às vezes, pode ser uma muleta chanceladora da adoração por posturas mais defensivas. Enfim… O fato é que o início das disputas por vaga na decisão expuseram como está o desmazelo nestes, ora tristes, ora utópicos trópicos.

No Maracanã, os dois clubes mais populares se enfrentaram. Em um universo profissional, no sentido fiel do termo, Flamengo e Corinthians em uma semifinal teria tratamento de majestade. O péssimo estado do gramado, que fazia de cada passe um descaminho picotado, adulterou o jogo. O recorte histórico ajuda a berrar nossa miséria. Pouco mais de quatro anos depois de receber a final da Copa do Mundo, o nosso templo maior não oferecia condições minimamente razoáveis. O Maracanã recebeu um banho de loja para o Mundial, foi reformado para atender as exigências pasteurizantes da Fifa, e agora desserve ao torcedor local, seu destinatário essencial. É uma espécia de autoflagelação coletiva. E por coincidência sinalizadora, poucas horas antes da partida veio a notícia de que a Justiça do Rio havia cancelado a concessão do estádio. Não há como descolar o esporte da sociedade. A degradação assistida pelo país nos últimos anos, fonte de energia da polarização mediocrizante, abarcou o futebol. Os dois últimos presidentes da CBF, organizadora dos campeonatos nacionais, foram proscritos – José Maria Marin, condenado à prisão nos Estados Unidos, e Marco Polo del Nero, seu sucessor, banido pela Fifa também por suspeitas de corrupção. Impossível não relacionar os fatos. O mar de lama da cartolagem ganhou alegoria no gramado de terra do Maracanã.

A outra expressão da precariedade estrutural e intelectual pôde ser notado na partida entre Palmeiras e Cruzeiro. Ao introduzir o árbitro de vídeo na reta final da Copa do Brasil, a CBF assumiu os riscos do desábito e da desinformação. Sem haver “milhagem” de aplicação do recurso, que deveria ter sido adquirida no transcurso do Brasileirão, o sistema entrou de chofre na reta final de um mata-mata. Não há didática cuidadosa que dê conta de explicar tal ilógica. Sem o costume adquirido, houve ruído. Desde Dudu gesticulando para haver consulta de vídeo em um arremesso lateral – item não previso no protocolo do VAR – até o festival de versões e especulações gerados pelo lance derradeiro do jogo, quando o árbitro marcou falta no goleiro Fábio em choque com Edu Dracena e, na sequência, Antônio Carlos concluiu para o gol. O árbitro acertou ao marcar a infração sem deixar o lance prosseguisse para eventual consulta ao assistente de vídeo? É uma jogada capital, como impedimento ou pênalti, em que se recomenda a espera ou há margem para interpretações? Após a partida, Alexandre Mattos, diretor de futebol do Palmeiras, esbravejou contra descumprimento da recomendação que diz ter ouvido de Sérgio Corrêa, Em entrevistas, porém, o chefe de arbitragem da CBF declarou que a decisão foi acertada por tratar-se jogada interpretativa. Se alarido em questões de arbitragem é quase uma mania nacional, quase um compromisso verbal de dirigentes, técnicos e jogadores com os torcedores de seus clubes, é evidente que teríamos outro cenário se a tecnologia já estivesse assimilada por tempo de utilização. Inovar na fase final de uma competição recende a improviso ou resposta política às críticas pelo adiamento da introdução no Campeonato Brasileiro.

As mazelas que afetam o jogo estão consonantes com o discurso irado de Adilson Batista no último domingo. As críticas firmes do técnico do América, que tiveram como principal alvo o calendário inchado por interesses políticos, reflete preocupação com o jogo. O descuido com o básico cobra seu alto preço. O gramado do principal estádio nacional maltratado ou aplicação de uma inovação em momento inoportuno são exemplos disso.



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