Rica em talentos, França rompe com paradigma recente



As seleções espanhola, em 2010, e alemã, em 2014, sagraram-se campeãs do mundo pautadas em uma ideia obsedante: ter a iniciativa de jogo, assenhorar-se da bola, cavucar os espaços no campo adversário trocando muitos passes. Uma mentalidade bastante associada ao histórico e contemporâneo Barcelona de Guardiola. É indubitável que beberam nas ideias do catalão, embora os alemães já viessem desenvolvendo seu jogo antes da passagem de Pep pelo Bayern. Não foram seleções de posse de bola estéril, um toca para lá e para cá continuo e sem objetividade, característica oca que acabou por marcar a campanha dos comandos de Hierro no Mundial da Rússia. Ainda que no roteiro de oito anos atrás, na África do Sul, a Espanha tenha ficado carimbada como a ‘seleção do 1 a 0’, vencendo todos os jogos eliminatórios pelo placar mínimo, a equipe impôs sua doutrina de forma inequívoca por seis anos – conquistou também duas Euros, a que antecedeu e a que sucedeu o Mundial. E os alemães levantaram o troféu da Copa após 24 anos de espera adotando ideia similar, com o ápice da expressão ocorrendo no dia 8 de julho de 2014, no Mineirão, nos 7 a 1 aplicados na Seleção Brasileira.

Em 2018, a França quebrou o paradigma recente dessas campeãs. Em apenas duas das sete partidas da trajetória ficou mais tempo com a bola que seu adversário: diante da Austrália, na estreia (51% a 49%) e contra o Uruguai, nas quartas (58% a 42%). Para além da estatística, foi facilmente observável como a equipe regularmente se entranhava atrás da bola e esperava para dar botes certeiros. Ao contrário das antecessoras, não centrou o jogo em meio-campistas onipresentes e talhados ao passe milimétrico e ludibriante. A alma francesa no setor esteve em um contumaz ladrão de bolas, Kanté, e um prodígio de lançamentos longos e força física. Não havia Iniestas, Xavis e Kroos para ditar o ritmo. O técnico Deschamps, munido de diversos talentos com qualidades específicas, preferiu usar e abusar desses predicados, explorá-los ao máximo em momentos precisos. Além de Kanté e Pogba, contou com ótima dupla de zaga, laterais obreiros, um especialista em pivôs (Giroud) e os brilhantes Griezmann e Mbpappé. Se o atacante do PSG, de apenas 19 anos, chamou a atenção pela velocidade e lampejos de técnica apurada, o jogador do Atlético de Madrid esbanjou inteligência tática e foi fundamental em grande parte dos gols da equipe. Foi ele o coração do time, a peça-chave para que as ideias de ‘emergência’ do treinador funcionassem.

Desde o Brasil de 2002, a França é a campeã com maior quantidade de riquezas individuais. Assim como Espanha e Alemanha, teve um conjunto forte e disciplinado na execução do seu plano de jogo. Os campeões anteriores foram bem sucedidos no intento de sempre minar os oponentes com o controle da bola. Os franceses chegaram ao topo deixando a bola “para lá’, ferindo os rivais em estocadas, seja pela bola aérea, seja pelo contra-ataque veloz. Estilos!



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