Espanha morre abraçada ao ‘tiquitaca’ odiado por Guardiola



FOTO: FRANCISCO LEONG / AFP

A Espanha trocou impressionantes 1.137 passes contra a Rússia, acertando 91% deles. Ficou 75% do tempo com a bola no pé para fazer um mísero gol em bola aérea, mais por infortúnio do zagueiro Ignashevich que por jogada construída. E foi eliminada nos pênaltis. A assinatura clássica do jogo espanhol, distribuindo a bola de pé em pé sem renúncia, foi estimulada pelos russos. O duelo teve tintas curiosamente conservadoras de ambos os lados. A seleção anfitriã deu espaço até quase o último trecho do campo para a Espanha desfilar seu jogo. Uma espécie de rendição calculada. “Vamos deixá-los trocando passes!”

Foram mais de 120 minutos (considerando prorrogação e acréscimos) do mais infértil tiquitaca. Impossível não lembrar de Guardiola. Não pelo falso lugar-comum que situa o Barcelona comandado por Pep na gênese do culto à troca de passes à exaustão como um fim em si mesmo. Ao contrário. Fez lembrar da desmistificação do conceito, constante nas palavras do treinador registradas nas páginas de “Guardiola Confidencial”, de Martí Perarnau.

Eis a reprodução do trecho em que o técnico explica o que pensa aos atletas do Bayern de Munique, no dia 25 de agosto de 2013:

“(…) Eu odeio o tiquitaca. Odeio! Isso é passar a bola por passar, sem qualquer propósito. E não serve pra nada. Não acreditem no que dizem por aí: o Barça não tinha nada de tiquitaca! Isso é invenção, não acreditem! Em todos os esportes de equipe, o segredo é sobrecarregar um dos lados do campo para confundir o posicionamento do adversário. Concentrar o jogo de um lado para que o rival deixe o outro livre. Por isso, precisamos passar a bola, sim, mas com intenção, com propósito. Passá-la para sobrecarregar um dos lados, para atrair e resolver no canto opostos. Nosso jogo é esse, não o tiquitaca (…)’ (página 114, editora Grande Área).

O que a Espanha fez nada teve a ver com trocar passes a fim de confundir marcadores e garimpar espaço. Tanto que Busquets e David Silva, fundamentais para esse objetivo, foram figuras apagadas, insípidas. O volante seria naturalmente o iniciador das tramas. E o jogador do Manchester City, central na dinâmica de ninguém menos que Guardiola, ficou enredado mais à frente, sendo pouco acionado e participativo. Isco, de movimentação frenética, foi quem tentou fazer dos minifúndios na defesa rival terras produtivas. De resto, foi um vagar bucólico da pelota circulando entre Piqué, Sérgio Ramos, Jordi Alba, Koke, Asensio e cia, como modelo legítimo do tiquitaca esconjurado pelo técnico catalão.

Iniesta, um dos símbolos do Barcelona de Guardiola, entrou apenas no segundo tempo para cumprir um triste ritual de despedida da seleção espanhola. O dia mais triste da carreira, segundo o próprio Andrés. Seus toques mágicos pouco apareceram. Lampejos do craque só em um chute defendido por Akinfeev, no segundo tempo, e no pênalti batido com precisão, lance que inaugurou a disputa decisiva e frustrante para o jogador.

Se houve momentos em que a Espanha não foi refém do tiquitaca, encontrando triangulações pela esquerda, tornando a rápida troca de passes uma forma de desnortear o adversário, eles aconteceram nos amistosos pré-Copa e em situações pontuais contra Portugal e Irã. Diante da Rússia, foi um milhar de passes que devem ter angustiado Guardiola e o levado a rememorar: “Eu odeio o tiquitaca”.



MaisRecentes

Rica em talentos, França rompe com paradigma recente



Continue Lendo

Em cartaz na Rússia: ‘El secreto de sus Rojos’



Continue Lendo

O enxadrista Kroos e o caráter alemão fazem Lineker se (re)converter



Continue Lendo