O enxadrista Kroos e o caráter alemão fazem Lineker se (re)converter



FOTO: AFP

Em novembro de 2012, a Suécia arrancou um empate improvável com a Alemanha após ficar em desvantagem por quatro gols, em Berlim. O resultado de 4 a 4, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, levou o inglês Garry Lineker a reescrever no twitter, satiricamente, famosa frase que ele mesmo cunhara 22 anos antes sobre o poder de reação dos alemães.: “O futebol é um jogo simples: 22 homens correm atrás da bola durante 90 minutos e ao final os alemães deixam escapar uma vantagem de quatro gols”. Era a releitura da pensata original, dita em 90, quando da eliminação da Inglaterra pela Alemanha na semifinal da Copa: “O futebol é um esporte que os ingleses inventaram, jogam 11 contra 11 e, no fim, vence a Alemanha”.

Pois neste sábado, e justamente em um jogo contra a Suécia, Lineker fez nova releitura de seu célebre desabafo: “O futebol é um jogo simples, 22 homens correm atrás da bola por 82 minutos, os alemães ficam com um jogador a menos e, assim, 21 homens perseguem a bola por 13 minutos e, no final, os alemães ganham”

Dessa forma, o artilheiro do Mundial de 86, no México, sintetizou o épico tramado pelos pés de Toni Kroos na cidade de Sochi. Um épico que é como uma camada a mais na rapsódia alemã em Copas. País que somente uma vez, no longínquo 1938, não ficou entre os oito primeiros das 18 Copas em que esteve presente – não jogou apenas em 1930 e 1950. Uma seleção que sempre superou a fase inicial de grupos e ficou por um triz de quebrar a escrita não fosse um chute certeiro de germânica essência. Foi essa capacidade de vencer adversidades, não se dar por derrotada, que frustrou duas escolas históricas em Mundiais, a Hungria, em 54, e a Holanda, em 74. O lance que reafirmou a permanência desse estado de espírito me remeteu ao título de um filme alemão: “O medo do goleiro diante do pênalti”, de Wim Wenders. O que se viu foi “A falta de medo de um meia diante do goleiro”.

Aos 49 minutos do segundo tempo, Toni Kross teve a perícia de um enxadrista no momento mais passional do jogo. Cobrou a falta com o timbre dos alemães em pênaltis. A seleção jamais perdeu uma disputa na marca da cal em Copas e é o maior vencedor dessa modalidade de desempate em jogos do torneio: quatro vitórias. Time (sempre) gelado esse. A natureza da jogada sugeria bola alçada na área aleatoriamente. Não! Kroos nem bateu direto, executou um ensaio. Tocou para Reus, este reteve a bola e o meio-campista bateu com curva, surpreendendo o goleiro Olsen. O sueco havia feito defesa difícil em cabeçada de Mario Gomes minutos antes. Depois, chute na trave de Brandt indicava que a noite estava vedada aos alemães. Não estava. E Reus, o cúmplice de Kroos no momento decisivo, havia feito o gol de empate, o seu primeiro em Copas após ficar fora do Mundial no Brasil de última hora, por lesão. Um roteiro digno de Wenders!

A Alemanha entrou no segundo tempo perdendo por 1 a 0, resultado que a eliminaria antes mesmo da última rodada. Manteve seu padrão de toque de bola, sem rifá-la, um maneirismo que a levou ao título quatro anos atrás. O gol de Reus aos 3 minutos empatou o jogo, resultado ainda assim ruim – bastaria um empate entre suecos e mexicanos para o adeus alemão. A pressão seguiu incessante até que o zagueiro Boateng foi expulso, aos 37 minutos. Com um a menos, tudo parecia perdido, não fosse um enxadrista e uma estirpe consagrada pela história que fizeram Lineker rever seus conceitos.



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