Caballero sem fina estampa e o tango peruano



FOTO: AFP

A quinta-feira na Copa do Mundo calou fundo na alma latino-americana. Entre a peruana Chabuca Granda e o argentino/Uruguaio/francês (???) Gardel. O sofrimento de peruanos e argentinos só cabe na rica música destes rincões. Os fatos fazem as canções se intercambiarem. A falha do goleiro Caballero, bancado por Sampaoli a contragosto da nação, lembrou Chabuca na voz melíflua de Caetano Veloso:

“Fina estampa caballero
Caballero de fina estampa
Un lucero que sonriera
Bajo um sombrero
No sonriera más hermoso
Ni más luciera caballero
En tu andar andar reluce la ”

A estampa vista em Nizhnt Novgorod esteve mais para o capote do funcionário da novela do russo Gogol. Surrada, puída, danificada… Não que a falha seja a razão única. Foi a introdução do desfile de fina estampa, essa sim, dos croatas. Liderados por Modric e seu garbo a submeter a desorganizada seleção de Sampaoli à guilhotina. O treinador ficou célebre pelas boas ideias de jogo implantadas no Chile – Universidad de Chile e seleção -, rezando na cartilha de Bielsa. No comando dos bicampeões do mundo, mostra-se perdido, desorientado, sem rumo… Salvem o Jorge! Deixou Messi sem um time, sem carinho, sem discurso, como o José de Drummond. O semblante do camisa 10, entre desolado e aflito, explica muita coisa. Um craque sacrificado!

O melhor jogador do mundo padece na Rússia. Contra a Islândia, houve até bons momentos coletivos. Diante de linhas estreitas defensivas, a Argentina trabalhou a bola e houve fagulhas de Messi. Mas foi pouco! Na maior parte do tempo, notou-se o caos, evidenciado ainda mais diante da Croácia. Um time crente em individualidades e órfão de espírito coletivo. A entrada de Dybala na parte final do jogo, quebrando a resistência do técnico, foi mais sinal de desespero que convicções. O risco de uma vexatória eliminação na primeira fase é grande. Secar os islandeses é uma das escalas. Contra a Nigéria, nada leva a crer que vencerá de boa. Está por “una cabeza”

“Por una cabeza
Si ella me olvida
Qué importa perderme
Mil veces la vida
Para qué vivir”

O tango, todavia, destina-se ao Peru. Contra a Dinamarca, os peruanos criaram diversas oportunidades, perderam pênalti e foram derrotados. Por una cabeza! A rede é que “olvidou” do time dirigido pelo argentino Gareca. Após um baile francês no primeiro tempo, Guerrero e cia. melhoraram em vão. Foram 36 anos de espera e a queda em duas rodadas. Uma crueldade com o povo peruano. Com futebol menos incisivo, os argentinos ainda respiram. Ironias da bola! A bela festa da torcida do país andino, apaixonada, sanguínea, foi frustrada. Resta o consolo de um time que evoluiu e tem senso coletivo, ao contrário dos “hermanos”. Fica a mensagem tomada de empréstimo do título de um livro do Nobel de literatura, o peruano Mario Vargas Llosa: “O paraíso na outra esquina”.
Na esquina de 2022, no Qatar. Por que não?



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