O dia em que Messi foi bloqueado pelo Eyjafjallajökull (Eia fiatlai ohut)



Foto: ALEXANDER NEMENOV / AFP

No início de 2010, um vulcão de nome complicado causou um transtorno aéreo sem precedentes na Europa. O Eyjafjallajökull (pronuncia-se “Eia fiatlai ohut”, segundo ensinou o noticiário da época) entrou em erupção após quase dois séculos adormecido. Um glaciar localizado na Islândia, o dito cujo espalhou pluma vulcânica e provocou interrupção no tráfego de aviões no continente. O estrago foi enorme. Assim como foi enorme o estrago da disciplinada e concentrada marcação da Islândia sobre a Argentina na estreia do diminuto país em Copas do Mundo.

Neste sábado, na Arena Spartak, em Moscou, Eyjafjallajökull foi apelido de Hallfredsson, capaz interrompeu vários ataques argentinos. Eyjafjallajökull deu porções do seu magma ao goleiro Halldórsson, que defendeu pênalti de Messi e esticou-se para evitar o gol após cruzamento de Pavón. Eyjafjallajökull foi o som que ecoou da arquibancada, nos rufos coreografados da simpática torcida islandesa. Ele espalhou suas cinzas em formato de linhas estreitas, de força física, de rígida e implacável marcação.

A Argentina passou o jogo com mais de 70% da posse de bola. Abriu o marcador em chute potente de Aguero, bem a seu estilo, mas voltou a respirar a pluma tóxica do Eyjafjallajökull (repita comigo: “Eia fiatlai ohut”) pouco tempo depois, após o pânico da defesa resultar no gol Finnbogason. Pobre do ótimo Otamendi em uma zaga desestruturada… Messi foi bloqueado pelos brios dos filhos de Hallfred, Gisla, Bjarna e outros – os sobrenomes islandeses referem-se ao nome do pai ou mãe, daí o sufixo “son” em todos eles.

O camisa 10 Gylfi Sigurdsson, jogador de porte clássico que atua no Everton (ING), era uma espécie de escape da lava islandesa. Por ele, a equipe conseguia articular alguma coisa e calcinar os sul-americanos. Mesmo em espaços curtos, Messi conseguiu em ou outro momento cavando espaços e conseguiu dar um dos seus arremates tradicionais – quase fez um gol idêntico ao marcado contra a Bósnia no Maracanã, em 2014. Comparar os lances, aliás, é uma boa forma de perceber a qualidade de ocupação de espaço da Islândia – linhas muito mais próximas que as dos bósnios, e tempo de bola impressionante dos marcadores.

Quem viu jogos da Islândia na Eurocopa e nas eliminatórias do Mundial não se surpreendeu com a competitividade da equipe, lastreada pela competência em se defender. A Croácia, tida e havida como segunda força do grupo, ficou atrás dos islandeses na busca por vaga na Copa e precisou disputar a repescagem. O Eyjafjallajökull futebolístico está em erupção desde 2016, colocou a Argentina em apuros e promete cuspir mais lava nos próximos dias.



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