De Belo Horizonte a Rostov: a imensa distância entre seleções



FOTO: André Mourão/MoWA Press

No domingo, a Seleção Brasileira fará seu primeiro jogo de Copa do Mundo desde o humilhante “7 a 1”. Passaram-se quase quatro anos, o técnico é outro, o time idem e o nível de preparo ibidem. Se antes do Mundial em casa, a sensação de potência advinha de elementos intangíveis, quase místicos, tais como a força da Amarelinha que faz adversários tremerem, o hino cantado à capela, a estrela de Felipão e outras crenças mais, adubadas pela conquista da Copa das Confederações, agora ela advém da evidente consistência da equipe. Não que jogos de futebol se resumam a escolhas táticas, ensaios e estratégias. Fatores emocionais têm protagonismo também, é um espaço coletivo suscetível aos mais variados graus da sensibilidade humana. O problema é quando a eles são destinados todos os condões. A tal ponto de fazer que um sujeito vencedor como Parreira, campeão em 94 comandando equipe centrada em uma plano calculista de jogo, surpreendentemente tenha aderido aos valores sacros do extracampo antes da estreia em 2014: “Já estamos com uma mão na taça”.

Tite faz uso desmesurado de aspectos anímicos. Não à toa, sua pregação de toques sacerdotais inunda atualmente os comerciais de televisão. Não é difícil imaginá-lo em um púlpito catequizando o povo. Ele encarna o oposto do “complexo de vira-latas” descrito por Nelson Rodrigues antes da conquista do primeiro Mundial de 58. Tem confiança para dar, vender e distribuir. Acontece que essa persona vem acompanhada de muita competência técnica. Tite tem essa virtude, foge da dicotomia “estudioso” versus “motivacional” que permeia o ambiente atual. Trafega entre os dois pólos. Tem defeitos, obviamente, mas é, há alguns anos, o melhor treinador brasileiro. Era quem, naturalmente, deveria ter assumido as rédeas no dia seguinte ao massacre alemão. Demorou dois anos, a CBF resistiu, recorreu ao mais do mesmo e só se dobrou quando os respingos da goleada seguiam produzindo feridas. Por mais que Dunga, justiça seja feita, tenha montado no quadriênio de 2006 a 10 um time competitivo, seu retorno indicava fórmula gasta diante de fatos que gritavam por oxigenação.

Ao fim da Copa de 2014, a sensação predominante era de que a Seleção Brasileira estava em descompasso com a atualidade do jogo. A Alemanha ensaiou rodas de bobo constrangedoras no Mineirão, fazendo de grandes jogadores um bando de joões, como Garrinchas dos passes. Nenhum “apagão” teria a força de produzir tamanha disparidade em uma semifinal de Copa do Mundo entre as duas seleções mais habituadas a chegar à decisão. A marcação brasileira estava aturdida como se surpreendida por um estilo desconhecido. É inimaginável que algo parecido possa ocorrer com o time de agora. Isso não comporta dizer que o hexacampeonato seja favas contadas. Seria tolice cravar algo dessa dimensão. Seria a versão da “mão na taça” do campo. É uma Copa do Mundo, torneio curto, que exige quatro vitórias em jogos eliminatórios e com cinco ou seis favoritos. Apenas se deve reconhecer que entre o visto em Belo Horizonte no famigerado 8 de julho de 2014 e o que se provavelmente verá a partir de Rostov, em 15 de junho de 2018, é uma abissal diferença.



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