Alemanha x Brasil: aprendizado por linhas tortas



Foto: Ari Ferreira/Lancepress!

Faz quase 16 anos que Brasil e Alemanha se enfrentaram pela primeira vez em uma Copa do Mundo. O dia 30 de junho de 2002, em Yokohama (JAP), representou a redenção do atacante Ronaldo, colorindo o apelido de Fenômeno, e fixou a quinta estrela na camisa amarela. Tudo com o auxílio luxuoso de craques do porte de Marcos, Cafu, Rivaldo, Ronaldinho e cia. Tinha até um jovenzinho chamado Kaká no banco. Já a Alemanha daquele fim de madrugada no Brasil era claudicante. Comandada por Rudi Völler, integrante como jogador da vencedora geração de 90 ao lado de Matthäus e Klinsmann, chegou à decisão mais pelo proverbial caráter competitivo dos alemães. Com uma sequência de jogos “dóceis” (Paraguai, Estados Unidos e Coreia do Sul), esteve distante de um futebol consistente, de boa técnica e conceitos elevados. Após duas quedas seguidas em quartas de final, a presença na decisão não entorpeceu os dirigentes germânicos. Pelo contrário! O pálido futebol demonstrado foi propulsor inequívoco da mudança que revolveu o futebol local e fez a seleção europeia adquirir um novo e vistoso DNA.

O reencontro da tarde desta terça, em amistoso, tem a Alemanha em estágio avançado de jogo graças ao choque de tibieza de 2002. E tem o Brasil reconciliado com sua potência a fórceps após o tombo dos 7 a 1 para os mesmos alemães na semifinal de 2014. Assim, casualmente, podemos concluir que uma seleção provocou um surto histórico na outra. Duas camisas acostumadas à glória tiveram que remexer em suas premissas de jogo pela imposição rival. Um chacoalhão mútuo em épocas distintas.

Não discutem-se aqui os caminhos tomados pelos dirigentes de cada país para a retomada ou reciclagem. Na realidade, a reestruturação foi só alemã, bem sabemos. A CBF não esboçou desejo de mudança, não fez nenhuma ação efetiva para mexer com a base do futebol nacional e até renegou Tite inicialmente. Optou a priori por Dunga, em claro sinal de dissonância com as necessidades expostas pela maior humilhação da história do futebol brasileiro. Só recorreu ao técnico pátrio mais preparado quando Marco Polo del Nero, o presidente, viu-se em uma encalacrada com o seguimento de maus resultados. A equipe carpia nas eliminatórias e estava fora da zona de classificação ao Mundial e havia caído na primeira fase da Copa América centenário. Veríamos, pouco tempo depois, que os apuros eram também policiais, com FBI e justiça americana em seu cangote. Passou nem mais a viajar para não ser preso! Ironicamente, a escolha do treinador mais talhado a reerguer a seleção se deu por ato de desespero. Os fatos foram senhores.

Quem viu os amistosos do Brasil contra a Rússia e da Alemanha contra a Espanha, na última sexta, só pode esperar um jogo de alto nível. Alemães e espanhóis deram aula de como tratar a bola, fazê-la correr de pé em pé. Essa tem sido a praxe dogmática das equipes em anos recentes. Em Moscou, o Brasil controlou o jogo, exibiu as premissas de uma equipe treinada para buscar o gol de forma organizada, em que pensem a herança recebida e o pouco tempo que Tite teve para trabalhar. Ao menos, na dimensão temporal que seleções têm, bastante diferente da ampulheta dos clubes. Sem Neymar e com os russos fincados na defesa, o Brasil sofreu para romper o bloqueio no primeiro tempo. Embalou no segundo, com o adversário já menos capaz de se proteger. O bom desempenho tático tem permitido que as ótimas individualidades apareçam. Eis o desmascaramento da ideia de “geração ruim”, fomentada pela falta de ideias plenas que vigorava antes. Nesse jogo especialmente, Willian, Douglas Costa e Paulinho se destacaram. Os dois primeiros com virtudes de meias abertos e o ex-corintiano com sua tarimba de “falso nove”, infiltrando-se na área.

Joachim Löw está á frente da Alemanha desde 2006 e, como auxiliar de Klinsmann, deu prosseguimento à nova filosofia de jogo. Tite assumiu no meio do ciclo para a Copa e sem legado. As escalações para a partida exprimem a diferença que faz a maturação de um trabalho. Os anfitriões irão a campo com a equipe quase toda mudada. Poderemos notar a onipresença de um estilo maduro, que já se estabeleceu independentemente das peças. O único tempero a mais será Sané, por seus dotes de driblador. Já Tite colocará Fernandinho no lugar de Douglas Costa e empurrará Coutinho para a esquerda. O brasileiro ainda tenta experimentar situações e ganhar novas percepções, corre contra o tempo. Será provavelmente um duelo de uma seleção com conceitos bem assimilados contra outra que se organizou rapidamente, mas ainda tateia por algumas soluções e saídas.



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