Messi ameaça driblar o tempo



FOTO: AFP

As últimas semanas foram fartas em atestar que Lionel Messi, aos 30 anos, segue palmilhando seu auge, ainda não desviou do percurso maior para o inexorável “crepúsculo dos Deuses”. O seu protagonismo pelo Barcelona nos jogos contra o Chelsea, pelas oitavas de final da Liga dos Campeões, e na vitória diante do Atlético de Madrid, que deu termo a qualquer chance de disputa pelo título, fecharam questão. Meses atrás, não nos esqueçamos, ele transformou o drama da Argentina na última rodada das Eliminatórias em passeio de gala no Equador. Por dessas coincidências cabalísticas, os três gols nos confrontos diante dos londrinos, de quem jamais havia balançado as redes, o fizeram atingir a marca centenária na competição europeia. E o gol de falta contra o Atlético foi o 600º de sua carreira em jogos oficiais. Que as estatísticas redondas tenham sido atingidas em partidas cruciais é (no mínimo) uma coincidência saborosa, que dá ainda mais charme à sua mitologia.

No estilo, Messi continua capaz de carregar a bola colada ao pé esquerdo em alta velocidade e, durante a trajetória, conciliar essa condução com a aplicação de fintas magistrais. E aqui, peço licença para fazer uma rápida digressão pelo espanto com o fato de o egípcio Salah, atração da temporada inglesa pelo Liverpool, estar demonstrado virtude técnica parecida, embora seus dribles aconteçam mais dentro da área e com um design mais caótico, por assim dizer. A bola ameaça fugir dos seus pés, mas ele encontra um jeito fugaz de recolhe-la. Messi mantém seu estilo límpido e letal, que nos faz crer tratar-se de um robô não fabricado e dotado de flexibilidade humana.

No início da temporada, houve quem suspeitasse que o rosarino já desse sinais de que o declínio começara. Jogadas interrompidas e a idade balzaquiana davam substância à ideia. Olhando agora, é de se pressupor que a experiencia forneça ao craque a capacidade da dosagem para quando o Carnaval chegar. Especialmente em um ciclo que termina com Copa do Mundo, certamente a obsessão íntima de Messi – pela expectativa dos argentinos e pelo desejo de conquista. Se já está no panteão do futebol, e não soa mais como sandice imaginá-lo no mesmo degrau de Pelé e Maradona, o craque ainda tem lenha para engordar seu currículo e seguir encantando. Conquistar ou não um competição curta como um Mundial está mais à merce das casualidades do jogo: uma bola na trave, um goleiro em dia inspirado, uma decisão equivocada de arbitragem e outros fatores do aleatório. Dificilmente a Argentina teria chegado à decisão em 2014 sem Messi, o que já tem um valor intrínseco e deveria ser levado em conta. O coroamento de uma carreira é uma miríade de fatos e desempenhos. E isso ele tem de sobra a exibir É como Roger Federer! São dois gênios do esporte competentes em ludibriar o tempo sem estardalhaço.



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