Do Majestoso e suas armadilhas



(Foto: Maurício Rummens/Fotoarena/Lancepress!)

Se os estaduais são hoje caricaturas do que foram no passado, ao menos há bens neles que continuam preciosos: os clássicos. As partidas que envolvem grandes rivalidades têm vida própria, a bem dizer, e iluminam o período que tem por característica maior enfadar o público,embora seja de suma importância para a preparação das equipes. Hoje, Corinthians e São Paulo fazem, no Pacaembu, o primeiro confronto dessa linhagem nobre no Paulistão de 2018. E, exceto pelo fim de semana do Carnaval, em todos os outros da primeira fase haverá uma partida do gênero. Em um ambiente em que o resultado tem desdobramentos relevantes (o que, diga-se, é ruim), os clássicos acabam tendo potencial de estrago ou afago considerável. O Majestoso do fim de tarde deste sábado não foge dessa natureza ambivalente.

O Corinthians entrou no ano com o “calo da vitória”, para usar deliciosa expressão do poeta João Cabral de Mello Neto em lírica declaração de amor ao América de Pernambuco. Em 2017, o êxito foi companheiro inseparável de Carille e seus comandados, contrariando os prognósticos e transformando em piada o estigma de ‘quarta força’. Com a projeção de ter feito muito sem que tivesse tanto, o time vive seus dilemas, especialmente no ataque, onde ainda busca um substituto para Jô. O modelo de jogo com solidez defensiva e precisão para resolver jogos se repetirá?

Na construção da identidade bem sucedida de jogo, que trouxe com ela a aquisição de autoconfiança, os clássicos tiveram papel preponderante. A pedra de toque foi o triunfo sobre o Palmeiras, no famoso jogo da expulsão grotesca do volante Gabriel, quando o triunfo foi recheado de epopeia. Na campanha, todos os rivais tradicionais foram derrotados e na história de cada partida sempre houve um protagonista: Jô. Se quiser reproduzir o roteiro, o Corinthians precisará encontrar outro jogador que demonstre vocação para esse papel. Jadson e Rodriguinho parecem ser, no momento, os atletas mais preparados para tal, ainda que não sejam atacantes. Ou então, Carille precisará encontrar uma fórmula nova, reinventar-se.

Do lado são-paulino, onde o ponto de ebulição está em outro patamar, vencer o clássico como visitante terá o condão de acalmar as coisas, ao menos por ora. Se é razoável supor que a contratação de Diego Souza não é capaz de preencher totalmente a lacuna das saídas de Hernanes e Pratto, o caldo engrossa ainda mais com as estripulias de Cueva. O talentoso meia peruano não tem demonstrado muito compromisso com o clube, com atrasos em reapresentações e queixumes que não se encaixam em ambiente que se quer profissional. Um clube acostumado às glórias e que só conquistou um título importante desde o tricampeonato brasileiro não precisava de mais turbulências. Vencer os rivais estaduais tem sido exceção, não regra no Morumbi. Todos esses fatores dão dimensão maior ao duelo da quarta rodada do Paulistão. Digamos que uma vitória sobre o Corinthians pode ter efeito parecido com a que teve a supracitada façanha do Alvinegro sobre o Palmeiras no começo da edição passada.

Com todos esses elementos, o Majestoso promete dar uma chacoalhada nos ânimos: vamos lá, o ano começou, não precisamos esperar a quarta-feira de Cinzas! Pena que acontecerá, como tornou-se praxe desde 2016, com torcida única. Apenas corintianos estarão nas arquibancadas, uma realidade que deturpa o que deu a esses jogos o status que possuem hoje em dia. É a nota de lamento. Em campo, tomara que tenhamos o despertar da temporada.



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