As Puskas eras de Neymar e Ronaldinho



De vez em quando, o futebol sugere uma curva e produz confluências poéticas na memória. O caráter romanesco do jogo não ficou retido nos meados do século passado, como querem fazer crer os saudosistas mais empedernidos. O romance vive entre nós! Basta um instante e a geração espontânea de romances de um esporte rico em histórias se anuncia. Esta semana, tivemos vivaz exemplo desse fenômeno proustiano, quando as lembranças são despertadas pelos sentidos e dialogam entre si. A goleada do Paris Saint-Germain por 8 a 0 sobre o Dijon ficou ofuscada pelas vaias que Neymar recebeu do público ao não ofertar a Cavani a possibilidade de bater um pênalti e, assim, isolar-se como maior artilheiro da história do clube parisiense. Não quero ser do contra e minimizar a relevância do episódio. Ele tem, é claro, sua importância pelo que expõe no campo comportamental. A torcida apupar o craque do seu time, quando o normal é bendizer tê-lo, e em um dia de inequívoco brilho individual dele, não é mesmo uma questão menor. Um lance protagonizado por ele, porém, provocou em mim uma espécie de transe entre passado e presente, ofuscou dessa forma eventuais preocupações extracampo.

O que me despertou a tal confluência de memória poética foi o terceiro dos quatro gols que Neymar fez no Parque dos Príncipes. A jogada, toda tecida tão somente pela habilidade dionisíaca do brasileiro, remeteu de imediato ao seu mais célebre gol com a camisa do Santos. Aquele marcado no dia 27 de julho de 2011, quando correu e driblou sinuosamente, provocando apoplexia na defesa do Flamengo. Aquele lance em que a finta final em Ronaldo Angelim teve um traço particular, único. A antologia rendeu ao brasileiro o Prêmio Puskas. E Neymar nem precisou viver em “priscas eras”, em “Puskas eras”, como o jogador-artista da música “Jogo de Bola”, do novo álbum do gênio Chico Buarque. Ele foi apenas expressão da sua natureza: “fera das feras da esfera”. Naquela noite, na Vila Belmiro, a pintura de Neymar tornou-se para a eternidade a metonímia de um jogo histórico. A parte pelo todo! Porque do lado rubro-negro havia um certo Ronaldinho Gaúcho. O Santos de Neymar perdeu a partida por 5 a 4, placar ao feitio de Puskás eras, de priscas eras, de Copa de 54 Quanta remissão! A derrota aconteceu justamente porque havia na equipe carioca Ronaldinho, o Bruxo, capaz de fazer um gol de falta em que tomou a barreira como sua cúmplice. E Ronaldinho anunciou esta semana sua aposentadoria dos gramados. Tempo, tempo, tempo…

O golaço de Neymar reavivou a lembrança de outro gol de Neymar em jogo contra uma equipe que tinha como astro maior o seu antecessor imediato no que as tramas da história trataram de batizar, desde as priscas eras, como o craque brasileiro por excelência.

Devaneios de um apaixonado pela estética do jogo!. Se Ronaldinho arrastou-se nos anos finais da carreira sem disfarçar o tédio, o fato é que nos brindou com maravilhas. Especialmente quando defendeu o Barcelona e foi, por dois anos seguidos, laureado como melhor do mundo. Uma condição que Neymar não disfarça buscar, a ponto de ter trocado justamente o Barcelona, onde Ronaldinho desfilou o seu melhor, por um clube que ainda busca granjear fama para além das suas fronteiras. Especialmente, suponho, para se desvincular do grande Messi. O argentino Messi, que foi o craque sucessor de Ronaldinho Gaúcho no time catalão para, com coletânea de números e regularidade espantosa, superá-lo nos cânones da história do esporte. Todos eles desdobramentos das Puskas eras do Real Madrid, rival do Barcelona, dos anos 60.

O fio que une os artistas da bola pode vir à tona assim, em um lance assim, em uma semana assim…



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