Quem é rei, também perde a majestade



FOTO: AFP

Nesta segunda, completa-se um mês do título mundial do Real Madrid. Não é nada, não é nada mesmo, se pensarmos na vista grossa e os bufos que os europeus soltam para o torneio. No caso madridista, porém, a conquista diante do Grêmio – placar esquálido de 1 a 0, mas com superioridade explícita em campo – foi o créme de la créme da representatividade: o quinto título em 2017, recorde na história do clube. O Mundial da Fifa completou o cortejo de glórias que teve Campeonato Espanhol, Liga dos Campeões (La duodécima, como cantado em verso e prosa na Plaza de Cibeles), a Supercopa da Espanha e a Supercopa da Europa. No recheio, teve o quinto troféu de melhor do mundo auferido por Cristiano Ronaldo, premiação que fez o Gajo empatar com seu rival de geração, Messi.

Pois acredite, tenaz leitor, que 30 dias depois desse feito o Real está em crise! No sábado, a equipe perdeu por 1 a 0 para o Villareal, no Santiago Bernabéu, e, em 18 partidas, faz campanha terrível para seu padrões na liga nacional. Não só precisa de binóculos para enxergar o líder Barcelona, como também está atrás de Atlético de Madrid e Valencia. Uma queda vertiginosa em curto espaço de tempo. Os dois principais jornais esportivos de Madri, As e Marca, grafaram com o mesmo adjetivo, com pequena variação, em suas manchetes nas edições do dia posterior à derrota: “Inexplicável” e “Sem explicação”. Com praticamente metade do caminho percorrido (um a menos que os concorrentes), o Real já é página virada do folhetim do título, corrida que quase sempre polariza com o Barcelona.

A alteração de rota soa surreal, parecendo criação de Dalí e Buñuel, mestres espanhóis do gênero. O declínio pode ser ilustrado em uma estatística. No dia 17 de setembro, a equipe fez 3 a 1 na Real Sociedad, no País Basco, e chegou a 73 partidas seguidas marcando gols. No jogo seguinte, contra o Betis, quando poderia bater o recorde do Santos de Pelé, perdeu por 1 a 0 e, curiosamente, a partir dali enamorou-se do despenhadeiro. Passou em branco também contra Atlético de Madrid, Athletic Bilbao, Villareal e na goleada para o Barcelona, jogo-chave para o azedume se instalar, por razões óbvias. A dificuldade de explicar o que acontece deve-se ao que se vê nas partidas. O time de Zidane mantém grande volume ofensivo. Na derrota de sábado, por exemplo, concluiu 29 vezes, mas esbarrou no goleiro, na trave e na falta de pontaria. O técnico, que tem sido criticado por relutar a mexer na equipe diante dos resultados negativos, queixou-se do excessivo azar (“Quando a bola não quer entrar, é complicado. Há jogos em que acontece, mas conosco está acontecendo sempre”).

Parece inadmissível para a imprensa local que o Real possa colecionar resultados modestos, que passe por um período de pouco brilho, que deva deixar cetro e coroa de lado. A falta de condescendência com o maior campeão europeu de todos os tempos alimenta a tensão para os confrontos contra o Paris Saint-Germain, pelas oitavas da Liga dos Campeões. O jogo de ida, em Madri, será mês que vem. Com o descarte do título nacional, o que já seria prioridade ganha ares de salvação – por absurdo que pareça aos mais ponderados. O condimento é que do outro lado estará um clube que bateu o recorde de todos os tempos em uma contratação ambicionando justamente chegar no topo do continente. Não é exagero dizer que o confronto determinará o balanço da estação de um e outro lado. Neymar terá seu maior desafio até aqui com a camisa parisiense e, do lado espanhol, haverá Cristiano Ronaldo, O português é um dos mais cobrados pelo mau momento da equipe. Marcou apenas quatro gols no campeonato nacional. Mas estamos falando do maior artilheiro da história da Liga dos Campeões, o principal responsável pelo arrastão que o time provocou a partir das quartas do ano passado. A memória recente e as reviravoltas instantâneas que o futebol produz são fatores suficientes para crer que em pouco tempo poderemos ver o Real de volta às alturas. Ou então, terá temporada ruim como pouco se viu em tempos recentes.

“…O que se desatou num só momento, não cabe no infinito, e é fuga e vento” (Instante, Carlos Drummond de Andrade)



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